«Só se pode compreender verdadeiramente a Páscoa a partir de um coração de mulher, entendida não como género, claro, mas como atitude vital»

Em silêncio, sem ruído nem alardes – não poderia ser de outra maneira – no estilo que Deus costuma utilizar para manifestar a sua atitude salvadora, o seu agir bondoso, a sua presença de pai-mãe transbordante em misericórdia e mostrando-se como o/a melhor companheiro/a de viagem no caminhar de cada dia, a Páscoa chega sempre ao amanhecer, que curioso!, quando ainda tudo dorme e vela, sendo este um momento pouco propício para os triunfalismos, os vivas e os aplausos.
 
A Páscoa é, antes de tudo, um acontecimento mudo e sem palavras, pois não existem nem poderão existir nunca vocábulos capazes de expressar a força e a vida que esta realidade encerra.
 
Por isso, precisamente, o protagonismo desta experiência única não poderia recair em quem ostenta a força, o poder e pedantismo, mas sim em quem, a partir da fraqueza que os anteriores lhe atribue, desafia todos os medos e ameaças que a sua intrepidez poderia acarretar-lhes.
 
São elas, umas mulheres, que se põem a caminho do sepulcro, movidas não por dogmas e verdades que haviam acreditado sobre que Ele ressuscitaria, mas pela certeza de que as doses imensas de amor que d'Ele haviam recebido não podiam ser aniquiladas pela morte. Para isso, não se fazem acompanhar de nenhum tipo de armas nem instrumentos com que possam dissuadir aqueles que lhes pudessem fazer frente. Levavam consigo, simplesmente, alguns perfumes e aromas, os melhores da casa ou da loja da aldeia, com os quais ungiriam Aquele de quem haviam recebido tanto amor, carinho e dignidade, enquanto O seguiram em vida. Sobretudo este último: dignidade, muita dignidade, a que por serem mulheres, precisamente, lhes haviam negado a toda o custo aqueles que ostentavam o «poder, a sabedoria e a ordem».
 
São elas que continuam a lembrar-nos hoje que Jesus continua vivo nos «sepulcros atuais», onde, precisamente para muitas delas, parece que tudo é morte e já não faz sentido a vida. Mulheres, entre outras, comprometidas com o mundo da prostituição e outras formas de exploração para tirar dessa indústria de morte aquelas que estão psicologicamente mortas, apesar das suas aparências externas e, à primeira vista, repletas de vida exuberante.
 
Ou aquelas outras que, sobretudo em lugares e circunstâncias onde a morte parece reinar à vontade, puxam pela família, não se valendo precisamente do poder e do dinheiro, mas da sua entrega silenciosa, abnegada e incansável.
 
Essas mulheres e muitas outras são as protagonistas silenciosas da Páscoa de hoje e de sempre. Uma «Páscoa» que, curiosamente, é feminina, como feminina é também «vida».
 
Mulheres a quem com tanta frequência se faz a «páscoa» mais cruel e desumana, sinónimo não de vida, mas de «morte», tanto física quanto psicologicamente.
 
Por isso, hoje como então, só se pode compreender verdadeiramente a Páscoa a partir de um coração de mulher. Entendido não como género, claro, mas como atitude vital e existencial de saber confiar tudo, como outrora também fez outra mulher, Maria, aquela jovem de Nazaré, a Deus que continua a falar através não de grandes discursos intelectuais, respaldados por dogmas e verdades, mas de vidas simples, humildes e dedicadas a erradicar a morte, promover a vida ou, pelo menos, aplicar, ao menos, algumas doses de bálsamo em forma de acolhimento, compreensão e carinho.
Juan Zapatero Ballesteros, em Eclesalia

Comentários

  1. Compreendo mas não concordo.
    Margaret Thatcher era mulher e dirigiu a Batalha das Maldivas.
    Assunção Cristas é mulher e destruiu muitas famílias ao aumentar as rendas das casas. Tinha ela mais coração de mulher ou Salazar que manteve as rendas? Ou Mário Soares que também as manteve?

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