Vida Fraternitas: homenagem a Horácio Neto Fernandes, falecido a 27 de novembro de 2025

Horácio Neto Fernandes (1935-2025)
 
1. O livro Francisco Caboz. A construção e a desconstrução de um Padre, de Horácio Neto Fernandes, é de um sofrimento pungente, uma longa viagem de construção e desconstrução de um sacerdote católico.
 
Os primores literários, diga-se sem qualquer hesitação, situam-se fundamentalmente nas memórias registadas a fogo no menino de 11 anos que, muito mais tarde, cursará Filosofia e Teologia, e que depois rezará missas por casas senhoriais.
 
O narrador insiste que a desconstrução desse padre está diretamente associada aos seus tempos de capelão militar, esteve no BART 1913, na região Sul e depois em Bambadinca, região de Bafatá, na Guiné-Bissau. É um documento que tem parágrafos arrepiantes. Pode imaginar-se o tormento que foi passar a escrito tais memórias. É um relato ímpar pela simplicidade do que documenta, pela coragem em pôr por escrito recordações por vezes pungentes da criança sofrida que o adulto guardou em bom recato.
 
Horácio Neto Fernandes nasceu em Ribamar, Lourinhã, num ambiente de pobreza austera. Menino solícito e participativo nas fainas duras do campo e das pescarias do pai, guardou esculpido a cinzel as memórias de um meio rústico, das brincadeiras das crianças e da religiosidade dos atos litúrgicos, dos bodos e da catequese.
 
Terá sido na escola primária, no princípio dos anos 1940, que se sentiu impelido a ser padre. Com 11 anos partiu para o Colégio Seráfico, em Braga, partiu com o enxoval mínimo, como ele descreve:
 
«As botas que deviam ser dois pares: umas pretas, para usar com o uniforme da mesma cor e outras para trazer no dia-a-dia ficaram reduzidas a um só par, dado pelo padrinho, sapateiro, que também era pobre. O sobretudo preto para completar o uniforme e fazer face ao rigoroso Inverno minhoto, também foi riscado da extensa lista enviada pelo seminário, por falta de dinheiro.»
 
Mais tarde, vai ser fortemente penalizado por estas carências. Não teve outro remédio senão pintar as botas de tinta preta, quando havia saídas em que se usasse o uniforme. A princípio, ainda resultou, mas depois este artifício foi descoberto pelo Perfeito que passava revista aos uniformes, antes da saída do Colégio Seráfico para o passeio semanal, às quintas-feiras. A sentença foi varrer os recreios e o salão.
 
O padre construiu-se a partir deste colégio que era um pesado e frio edifício de quatro pisos, circundado por densa e verdejante mata. Outra nota:
 
«O portão sul, apenas utilizado pela comunidade para sair para a cidade, dava para um bairro chamado Areal, de gente pobre, vivendo em condições higiénicas miseráveis e que eram os principais clientes da igreja do Colégio. Quando avistavam os frades, as criancinhas descalças e de grandes barrigas ao léu, aproximavam-se para pedir um santinho, pequenas pagelas com imagens de santos.»
 
Tudo compartimentado na organização deste Colégio, e bem hierarquizado. O regulamento era muito severo, cheio de proibições, à menor desobediência o Perfeito disparava duas ou mais bofetadas.
 
Horácio Fernandes, retratado por Francisco, não esqueceu a composição do pequeno-almoço, do almoço e do jantar, as diversões, os passeios, as orações e a composição dos estudos. É uma descrição por vezes arrepiante: o leitor segue-o pelos lugares, envolve-se nos sacrifícios e nas medidas disciplinares. Francisco é tão evidente que aceitamos que se tenha habituado a cumprir sem pestanejar, sentindo-se sempre devedor dos padres.
 
Cresce e habitua-se a afastar as tentações da carne. Aliás, segundo o diretor espiritual, as mulheres catalogavam-se da seguinte maneira: «as freiras que se tinham consagrado a Deus; as mulheres casadas, sobretudo as mães dos padres, porque tinham dado um filho a Deus; depois as outras mulheres que procriavam; e as solteiras eram sempre um perigo porque causavam maus pensamentos aos homens.»
 
No final do 5.º ano partiu para o Convento do Varatojo, agora era um rapaz de fato preto e chapéu na cabeça, é aqui que ele vai fazer um ano de noviciado, aqui também há castigos e penitências para as faltas. A nova etapa serão três anos de curso filosófico e depois quatro anos de curso teológico, no Seminário da Luz, em Carnide.
 
De vez em quando, Francisco corre o risco de ser expulso, uma vez enviam uma carta anónima denunciando um tio que vivia amancebado, era o suficiente para a sua expulsão, felizmente que tudo se esclareceu. Temo-lo agora padre, em agosto de1959, começa a sua missão, reza missas em casas senhoriais, presta serviço religioso nas igrejas, é professor.
 
A desconstrução de um padre começa nas suas hesitações ou vacilações: está apto a exercer a sua missão de sacerdote?
 
Se o autor carpinteirou admiravelmente o contexto onde nasceu um padre e o modo como ele foi construído, há que confessar que esta desconstrução é descosida, frouxa, perdeu o nervo, é uma narrativa arrancada à força, um testemunho que não agarra o leitor pela gola.
 
Imprevistamente, é indigitado para capelão militar, frequenta a Academia Militar, aprende a manejar a G3 e ouve o bispo de Madarsuma a explicar a razão do compromisso com a pátria e a razoabilidade da guerra aos terroristas, Portugal estava a defender a civilização cristã contra as agressões externas.
 
É nomeado capelão militar no BART 1913, segue para Catió num DO pilotado pelo lendário sargento Honório. É logo praxado na sala de oficiais, à mesa, no almoço, o major passa-lhe fotografia com mulheres nuas e Francisco pergunta-lhe se eram fotos da mulher dele, valeu o médico do batalhão que conseguiu que o caso ficasse abafado.
 
Desse tempo, no livro, pouco ficamos a saber do seu múnus apostólico fora do quartel. Ele é lacónico: «Francisco nunca foi visita assídua nem das populações nem dos comerciantes brancos. Naturalmente reservado, nunca actuou como se fosse o pastor do rebanho com as obrigações inerentes. Tinha o papel de capelão, procurava desempenhá-lo, mas pouco mais do que isso.»
 
As suas homilias eram obrigatoriamente para falar do heroísmo dos nossos soldados e da vida difícil da Guiné. O BART 1913 foi rendido, Francisco foi colocado em Bambadinca, numa zona que ele classifica como a mais cobiçada pelo inimigo. Adoece. Eentretanto, a sua comissão acabou. Regressa em Dezembro de 1969. Com o dinheiro que juntou, vai estudar e ajuda a irmã, que está a tirar o curso de contabilidade.
 
Já muito hesitante sobre a sua missão sacerdotal, alistou-se no clube Stella Maris, uma organização religiosa que cedia capelões para as companhias marítimas. Descreve o seu trabalho com um pouco mais de vivacidade, é neste tempo que toma a decisão de não voltar ao convento:
«Era levado por uma explosão de vida, nunca antes sentida.»
 
E fica-se por aqui, diz ao leitor de uma forma sacudida que havia experimentar uma nova vida:
«Sentia dentro de si a primavera da vida a borbotar de uma forma quase imparável.»
 
Escandalizando a família e as senhoras mais devotas da terra, passou a usar o traje civil, depois escreveu ao provincial a comunicar-lhe que ia abandonar o sacerdócio. Concluiu os seus estudos universitários e dedicou-se a muitas atividades no Ministério da Educação. Não sente nostalgia do que deixou para trás.

Texto de Beja Santos, no blogue Fora Nada e Vão Três

Casou com Emília da Assunção Silva Alves Neto Fernandes, e foram residir no Porto.

E o casal figura entre os sócios fundadores da Associação Fraternitas Movimento.

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