Horácio Neto Fernandes
(1935-2025)
1. O livro Francisco
Caboz. A construção e a desconstrução de um Padre, de Horácio Neto
Fernandes, é de um sofrimento pungente, uma longa viagem de construção e
desconstrução de um sacerdote católico.
Os primores
literários, diga-se sem qualquer hesitação, situam-se fundamentalmente nas
memórias registadas a fogo no menino de 11 anos que, muito mais tarde, cursará
Filosofia e Teologia, e que depois rezará missas por casas senhoriais.
O narrador insiste
que a desconstrução desse padre está diretamente associada aos seus tempos de
capelão militar, esteve no BART 1913, na região Sul e depois em Bambadinca, região
de Bafatá, na Guiné-Bissau. É um documento que tem parágrafos arrepiantes. Pode
imaginar-se o tormento que foi passar a escrito tais memórias. É um relato
ímpar pela simplicidade do que documenta, pela coragem em pôr por escrito
recordações por vezes pungentes da criança sofrida que o adulto guardou em bom
recato.
Horácio Neto
Fernandes nasceu em Ribamar, Lourinhã, num ambiente de pobreza austera. Menino
solícito e participativo nas fainas duras do campo e das pescarias do pai,
guardou esculpido a cinzel as memórias de um meio rústico, das brincadeiras das
crianças e da religiosidade dos atos litúrgicos, dos bodos e da catequese.
Terá sido na escola
primária, no princípio dos anos 1940, que se sentiu impelido a ser padre. Com
11 anos partiu para o Colégio Seráfico, em Braga, partiu com o enxoval mínimo,
como ele descreve:
«As botas que deviam
ser dois pares: umas pretas, para usar com o uniforme da mesma cor e outras
para trazer no dia-a-dia ficaram reduzidas a um só par, dado pelo padrinho,
sapateiro, que também era pobre. O sobretudo preto para completar o uniforme e
fazer face ao rigoroso Inverno minhoto, também foi riscado da extensa lista
enviada pelo seminário, por falta de dinheiro.»
Mais tarde, vai ser
fortemente penalizado por estas carências. Não teve outro remédio senão pintar
as botas de tinta preta, quando havia saídas em que se usasse o uniforme. A
princípio, ainda resultou, mas depois este artifício foi descoberto pelo Perfeito
que passava revista aos uniformes, antes da saída do Colégio Seráfico para o
passeio semanal, às quintas-feiras. A sentença foi varrer os recreios e o
salão.
O padre construiu-se
a partir deste colégio que era um pesado e frio edifício de quatro pisos,
circundado por densa e verdejante mata. Outra nota:
«O portão sul, apenas
utilizado pela comunidade para sair para a cidade, dava para um bairro chamado
Areal, de gente pobre, vivendo em condições higiénicas miseráveis e que eram os
principais clientes da igreja do Colégio. Quando avistavam os frades, as criancinhas
descalças e de grandes barrigas ao léu, aproximavam-se para pedir um santinho,
pequenas pagelas com imagens de santos.»
Tudo compartimentado
na organização deste Colégio, e bem hierarquizado. O regulamento era muito
severo, cheio de proibições, à menor desobediência o Perfeito disparava duas ou
mais bofetadas.
Horácio Fernandes,
retratado por Francisco, não esqueceu a composição do pequeno-almoço, do almoço
e do jantar, as diversões, os passeios, as orações e a composição dos estudos.
É uma descrição por vezes arrepiante: o leitor segue-o pelos lugares,
envolve-se nos sacrifícios e nas medidas disciplinares. Francisco é tão
evidente que aceitamos que se tenha habituado a cumprir sem pestanejar,
sentindo-se sempre devedor dos padres.
Cresce e habitua-se a
afastar as tentações da carne. Aliás, segundo o diretor espiritual, as mulheres
catalogavam-se da seguinte maneira: «as freiras que se tinham consagrado a
Deus; as mulheres casadas, sobretudo as mães dos padres, porque tinham dado um
filho a Deus; depois as outras mulheres que procriavam; e as solteiras eram
sempre um perigo porque causavam maus pensamentos aos homens.»
No final do 5.º ano
partiu para o Convento do Varatojo, agora era um rapaz de fato preto e chapéu
na cabeça, é aqui que ele vai fazer um ano de noviciado, aqui também há
castigos e penitências para as faltas. A nova etapa serão três anos de curso
filosófico e depois quatro anos de curso teológico, no Seminário da Luz, em
Carnide.
De vez em quando,
Francisco corre o risco de ser expulso, uma vez enviam uma carta anónima
denunciando um tio que vivia amancebado, era o suficiente para a sua expulsão,
felizmente que tudo se esclareceu. Temo-lo agora padre, em agosto de1959,
começa a sua missão, reza missas em casas senhoriais, presta serviço religioso
nas igrejas, é professor.
A desconstrução de um
padre começa nas suas hesitações ou vacilações: está apto a exercer a sua
missão de sacerdote?
Se o autor
carpinteirou admiravelmente o contexto onde nasceu um padre e o modo como ele
foi construído, há que confessar que esta desconstrução é descosida, frouxa,
perdeu o nervo, é uma narrativa arrancada à força, um testemunho que não agarra
o leitor pela gola.
Imprevistamente, é
indigitado para capelão militar, frequenta a Academia Militar, aprende a
manejar a G3 e ouve o bispo de Madarsuma a explicar a razão do compromisso com
a pátria e a razoabilidade da guerra aos terroristas, Portugal estava a
defender a civilização cristã contra as agressões externas.
É nomeado capelão
militar no BART 1913, segue para Catió num DO pilotado pelo lendário sargento
Honório. É logo praxado na sala de oficiais, à mesa, no almoço, o major
passa-lhe fotografia com mulheres nuas e Francisco pergunta-lhe se eram fotos
da mulher dele, valeu o médico do batalhão que conseguiu que o caso ficasse
abafado.
Desse tempo, no
livro, pouco ficamos a saber do seu múnus apostólico fora do quartel. Ele é
lacónico: «Francisco nunca foi visita assídua nem das populações nem dos
comerciantes brancos. Naturalmente reservado, nunca actuou como se fosse o
pastor do rebanho com as obrigações inerentes. Tinha o papel de capelão,
procurava desempenhá-lo, mas pouco mais do que isso.»
As suas homilias eram
obrigatoriamente para falar do heroísmo dos nossos soldados e da vida difícil
da Guiné. O BART 1913 foi rendido, Francisco foi colocado em Bambadinca, numa
zona que ele classifica como a mais cobiçada pelo inimigo. Adoece. Eentretanto,
a sua comissão acabou. Regressa em Dezembro de 1969. Com o dinheiro que juntou,
vai estudar e ajuda a irmã, que está a tirar o curso de contabilidade.
Já muito hesitante
sobre a sua missão sacerdotal, alistou-se no clube Stella Maris, uma
organização religiosa que cedia capelões para as companhias marítimas. Descreve
o seu trabalho com um pouco mais de vivacidade, é neste tempo que toma a
decisão de não voltar ao convento:
«Era levado por uma
explosão de vida, nunca antes sentida.»
E fica-se por aqui,
diz ao leitor de uma forma sacudida que havia experimentar uma nova vida:
«Sentia dentro de si
a primavera da vida a borbotar de uma forma quase imparável.»
Escandalizando a
família e as senhoras mais devotas da terra, passou a usar o traje civil,
depois escreveu ao provincial a comunicar-lhe que ia abandonar o sacerdócio.
Concluiu os seus estudos universitários e dedicou-se a muitas atividades no
Ministério da Educação. Não sente nostalgia do que deixou para trás.Casou com Emília da Assunção Silva Alves Neto Fernandes, e foram residir no Porto.
E o casal figura entre os sócios fundadores da Associação Fraternitas Movimento.
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