A dúvida dos Apóstolos e as nossas dúvidas - comentário ao Evangelho de São Mateus 28, 16-20

Surpreende-nos que em algumas cenas do final do Evangelho, como a que nos relata a Conclusão do santo Evangelho segundo São Mateus (Mt 28, 16-20), se diga explicitamente que ALGUNS DUVIDAVAM.

«Naquele tempo, os Onze discípulos partiram para a Galileia, em direção ao monte que Jesus lhes indicara. Quando O viram, adoraram-n’O; mas alguns ainda duvidaram. Jesus aproximou-Se e disse-lhes: "Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos."»

A beleza da ressurreição não conseguia afastar a sombra da dúvida. O esplendor do Ressuscitado não ofuscava a perplexidade do coração.

De facto, a dúvida está nas origens da comunidade cristã porque se aninha nas dobras da alma humana.

A dúvida pode levar à angústia total, ao abandono do caminho cristão. Mas também pode levar a tornar mais forte e decidida a opção por Jesus. Das tempestades surge, por vezes, a fortaleza. Por isso, não devemos temer tanto a dúvida como a rotina que leva ao empobrecimento.

Como lidar com elegância com as dúvidas da fé para que elas conduzam a uma adesão mais firme a Jesus?

Pode-se considerar:
· Que a dúvida é boa quando estimula a busca: a dúvida não nos deixa contentar-nos com uma fé repetitiva e rotineira. A dúvida derruba os ídolos que a rotina constrói.

· Que a dúvida é boa quando nos leva ao grupo cristão: as dúvidas trabalhadas em comum levam sempre à luz, fortalecem a relação e abrem horizontes insuspeitados.

· Que a dúvida nos torna mais empáticos com quem caminha na fraqueza: porque se descobre, como dizia São Paulo, que na fraqueza se encerra uma força muito potente.

Na nossa juventude, tivemos como professor de Bíblia um bispo (Monsenhor Descamps) que nos dizia que a fé, para ser boa, tem de ser um pouco escura, como o café. Se este for claro, é mau. Uma fé excessivamente «clara» corre o risco de colocar o ênfase em coisas que não têm importância e de nos situar em ambientes de fanatismo.

No filme «Conclave» é cunhada uma frase poderosa: «A nossa fé é algo vivo porque caminha precisamente de mãos dadas com a dúvida. Se existisse apenas a certeza e nenhuma dúvida, não haveria mistério». Isto é verdade. Mistério e dúvida estão interligados. Não procuramos a dúvida, mas quando ela vem com a fé, integramo-la no processo cristão. Assim acreditamos, assim caminhamos.

Fidel Aizpurúa Donazar, em Fé Adulta

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