Como soaria se começássemos a Eucaristia desta forma: «Em nome do Pai, do Filho e da Espírita Santa (ou Santa Ruah). Ámen»? Pode parecer caricato, mas tem o seu porquê

O evangelho de João 20, 19-23 afirma que Jesus soprou sobre o grupo de discípulos, dizendo-lhes: «Recebei o Espírito Santo.» Em grego, o Espírito Santo é pneuma (substantivo neutro), adaptado ao português como substantivo masculino pneuma. Em hebraico ou aramaico, porém, é feminino (ruach ou ruha). Por isso, a frase de Jesus soa assim na sua língua: RECEBEI A ESPÍRITA SANTA. Isto pode parecer algo caricato, mas tem o seu porquê.

Por influência da mentalidade patriarcal e do consequente machismo, na Igreja, tal como na sociedade, tudo se masculinizou, inclusive o vocabulário. Como soaria se começássemos a Eucaristia desta forma: «Em nome do Pai, do Filho e da Espírita Santa (ou Santa Ruah). Ámen»? É assim que algumas comunidades cristãs a iniciam.

Isto leva-nos a colocar a questão da mulher na Igreja, mais uma vez, não só do ponto de vista do vocabulário, mas também da espiritualidade e da justiça:
· É legítima e compreensível a «revolta» das mulheres na Igreja: aquele protesto público que se realiza todos os anos no início de março à porta das catedrais para dar visibilidade à situação de desigualdade das mulheres na Igreja.
· É legítima a sua aspiração ao ministério sacerdotal: não apenas por razões espirituais, mas também porque essa é a porta principal para a gestão em igualdade.
· É legítimo o seu anseio de participar mais na gestão eclesial: não apenas em cargos de gestão ou em tarefas de colaboração, mas também nos âmbitos em que se decide o futuro da Igreja.

Muitas vezes surpreende-nos a fidelidade das mulheres a uma Igreja que as ignora. Talvez seja pela sua tenacidade em querer seguir Jesus na fé comum. Temos de agradecer essa fidelidade e isso deveria ser um argumento para lhes fazer justiça, para sair desse «pecado histórico» que a Igreja parece não saber como reparar.

Os relatos evangélicos da multiplicação dos pães dizem que comeram vários milhares de pessoas, «sem contar as mulheres e as crianças» (Mt 14,21). Pois bem, é preciso contar com as mulheres e as crianças. Uma Igreja que tem um défice em matéria de igualdade, nessa medida, não é a Igreja de Jesus. Temos de olhar muitas vezes para a imagem do Papa Leão sentado em pé de igualdade com a arcebispa de Canterbury na sua visita ao Vaticano. É uma imagem saudável.
Fidel Aizpurúa Donazar, em Fé Adulta

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