O Evangelho de João 14, 15-21 fala da presença do Pai, de Jesus e do Espírito nos membros da comunidade cristã, pelo vínculo do amor

O Evangelho de João 14, 15-21 fala da presença do Pai, de Jesus e do Espírito nos membros da comunidade cristã. O objetivo é mostrar que eles não estavam em desvantagem em relação àqueles que tinham conhecido Jesus; por isso é tão importante para nós hoje. Coloca-nos perante a realidade de Jesus vivo, que nos faz viver com a mesma Vida que Ele tinha.

1. Não devemos deixar-nos confundir pela forma como estas ideias sobre a relação entre Jesus, o Pai e o Espírito são formuladas. Não se trata de uma relação com alguma entidade exterior ao ser humano. Também não se está a falar de três realidades separadas: Pai, Jesus, Espírito. Fala-se da mesma realidade com nomes distintos. Insiste-se na identidade dos três.

2. Se me amardes, guardareis os meus mandamentos. No capítulo seguinte, estes reduzem-se a um só: amar. Quem não ama os outros não ama Jesus, nem o Pai, porque eles estão em cada ser humano. O que é mandado é o amor. As «exigências» não são obrigações impostas de fora, mas uma urgência que vem de dentro e que se manifesta em obras.

3. Eu pedirei ao Pai que vos envie outro consolador para que esteja sempre convosco. Ele não está a falar de uma realidade distinta daquilo que ele ou o Pai são. Será uma nova maneira de experimentar o amor. Ele diz que enviará o Espírito, depois que ele voltar e, finalmente, que o Pai e ele virão e permanecerão. Trata-se de uma realidade múltipla e, ao mesmo tempo, única.

4. Defensor (paraklêtos) é aquele que ajuda em qualquer circunstância; advogado, defensor num julgamento. Tem um duplo papel: interpretar a mensagem de Jesus e dar segurança e guiar os discípulos. Enquanto estava com eles, era o próprio Jesus quem os defendia. Agora, será o Espírito o único defensor, mas mais eficaz, porque os defenderá a partir de dentro.

5. Não vos deixarei desamparados. No Antigo Testamento, o órfão era o protótipo daquele contra quem se podem cometer impunemente todo o tipo de injustiças. Jesus não vai deixar os seus indefesos perante o poder do mal. Essa força não se manifestará eliminando o inimigo, mas fortalecendo o agredido, de modo a que ele a supere sem que isso o afete de forma alguma.

6. O mundo deixará de me ver; vós, pelo contrário, vereis-me, porque eu tenho Vida e também vós a tereis. Não se trata da visão sensorial, mas de descobrir que Ele continua a dar-vos Vida. O mundo deixará de O ver. Aqueles que, durante a vida terrena, O tinham visto como o mundo, agora serão capazes de O ver de uma maneira nova.

7. Naquele dia, experimentareis que eu estou identificado com o meu Pai, vós comigo e eu convosco. Ao participar da Vida do Pai, experimentareis a unidade com Jesus e com o Pai. É o sentido mais profundo do amor, a unidade (ágape). Já não há sujeito que ama nem objeto amado. É uma experiência de unidade tão viva que ninguém vos poderá tirar.

8. «Quem aceita os meus mandamentos e os guarda, esse ama-me». A sua mensagem é a do amor ao homem e não a da submissão. A presença de Jesus e de Deus é vivida como uma proximidade interior, não exterior. No domingo passado, Ele foi preparar lugar na casa do Pai. Aqui são o Pai e Jesus que vêm viver com o discípulo.

9. Um versículo depois diz: quem me ama cumprirá a minha mensagem e o meu Pai demonstrar-lhe-á o seu amor: iremos ter com ele e permaneceremos com ele. Têm garantida a presença do Pai de Jesus e do Espírito. Deus não tem de vir de lado nenhum porque está em nós antes de começarmos a existir. Fica confirmada a identidade de Jesus e do Pai.

10. Jesus viveu uma identificação com Deus que não podemos expressar com palavras. A essa mesma identificação somos chamados nós. Tornarmo-nos uma só coisa com Deus, que é espírito e que não está em nós como parte integrante de um todo que sou eu, mas como fundamento do meu ser, sem o qual nada pode existir de mim mesmo. Eu sou totalmente humano e divino.
 
Fray Marcos, em Fé Adulta

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