A Fé não se mede ao palmo do cabeção - reflexão acerca do manifesto da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, de 24 de junho de 2026

Li mais um documento 
(manifesto) da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Mais uma profissão de fé. Mais um texto enorme, cheio de certezas, notas de rodapé, condenações e a convicção de que, finalmente, alguém encontrou a fórmula exata para salvar a Igreja.

O texto, tornado público a 24 de junho de 2026, com uma carta aberta dirigida ao Papa Leão XIV e a todos os cardeais da Igreja, é uma extensa profissão de fé de 28 páginas na qual expõe de forma sistemática as suas posições doutrinais e o seu diagnóstico sobre a crise que atravessa a Igreja católica. A carta e o manifesto podem ser lidos, na íntegra e em português neste site: Carta aberta a Sua Santidade, Papa Leão XIV, e aos Cardeais da Santa Igreja

O meu comentário
Este texto responsabiliza-me apenas a mim... é apenas a opinião de um "padreco de aldeia", que raramente usa cabeção porque vive num sítio onde toda a gente sabe quem ele é. Se alguém precisar de um padre, às duas da manhã, não vai perguntar se levo colarinho romano ou camisola de lã. Bate à porta, ou liga e pronto.

Admiro, sinceramente, a seriedade — pelo menos aparente — que esta fraternidade coloca em tudo. A disciplina, o rigor litúrgico, o cuidado com as formas. Há ali muito trabalho, muito estudo e muita dedicação. Acredito até sincero amor e busca pela verdade. Seria injusto negar isso. Admiro mesmo...

Mas, às vezes, fica a sensação de que estamos perante uma capa de livro magnífica... e que se passa demasiado tempo a discutir a encadernação, esquecendo a história que está lá dentro.

Porque a fé cristã nunca foi uma competição para ver quem consegue conservar mais perfeitamente uma fotografia do século XIX. A tradição não é um museu de cera. É uma árvore com raízes profundas e ramos vivos. Quem só olha para as raízes acaba por nunca apreciar os frutos.

Há uma certa ironia nisto tudo. Os membros desta fraternidade dizem defender a obediência a Roma... enquanto anunciam novas consagrações episcopais sem mandato pontifício. Proclamam a unidade da Igreja... mas vivem permanentemente em tensão com ela. Invocam a tradição dos santos... esquecendo que muitos santos foram profundamente obedientes a papas com quem nem sempre concordavam.

Santa Catarina de Sena corrigia o Papa, mas não fundou uma igreja paralela. São Francisco renovou a Igreja, mas nunca a abandonou. São João XXIII abriu janelas, mas não deitou a casa abaixo.

A Igreja sempre viveu entre a fidelidade e a renovação. Quem escolhe apenas uma das duas acaba por perder ambas.

Por vezes, dá a impressão de que a solução para todos os problemas do século XXI seria colocar toda a gente a rezar em latim, virar os altares para a parede e vestir batinas até em agosto. Como se a secularização, a crise da família, a indiferença religiosa ou a falta de vocações fossem derrotadas por uma questão de alfaiataria e de estética litúrgica.
Não são.

Conheço comunidades muito tradicionais e profundamente vivas. E conheço outras onde a tradição se transformou numa espécie de arqueologia religiosa: tudo impecável, tudo perfeito, tudo solene... mas cada vez com menos gente e menos esperança.

O Evangelho é exigente, mas não é uma peça de museu.
Jesus nunca perguntou a Pedro se a túnica estava conforme o costume dos antigos. Perguntou-lhe apenas: "Tu amas-me?"
Talvez seja essa a pergunta decisiva.

No fim do dia, a Igreja não vive porque alguns acreditam possuir toda a verdade em exclusivo. Vive porque milhões de pessoas imperfeitas continuam a caminhar juntas, com paciência, com obediência, com discussão, com reconciliação e, sobretudo, com a humildade de perceber que ninguém, por muito santo ou muito tradicional que seja, consegue guardar Cristo dentro da sua própria caixa de certezas.

A tradição autêntica não é conservar as cinzas.
É manter aceso o fogo.
Padre António Martins, diocese da Guarda, em Facebook

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