Esta foi a recomendação mais estranha de Jesus Cristo aos seus apóstolos e discípulos: «Não tomeis o caminho dos pagãos» (Mt 10, 5). Uma reflexão...

Entre as recomendações que Jesus dá aos seus discípulos quando partem em missão, há uma que nos surpreende: «Não tomeis o caminho dos pagãos» (Mateus 10, 5). O próprio Jesus irá contrariar esta orientação: ele foi à terra dos pagãos (à Fenícia, à Decápolis).

A primeira comunidade cristã terá dificuldade em compreender algo muito simples: que a oferta do reino que Jesus faz é para todos, inclusive para aqueles pagãos que acreditávamos estar destinados ao inferno. Também eles trazem o «sopro incorruptível» de Deus, o seu espírito, como diria, muitos anos antes, o Livro da Sabedoria (Sab 12,1).
 
Como é que nós podemos ir a terras de pagãos? Muitos dirão que já estamos nelas. A incredulidade rodeia-nos, a prática religiosa é escassa, o cumprimento da moral religiosa está enfraquecido. Como viver a fé num ambiente assim?
 
· Com equilíbrio: a nossa época não é nem melhor nem pior do que outras. Há coisas questionáveis e outras muito boas. Devemos amar o tempo em que nos coube viver.
 
· Com empatia: sem orgulho desnecessário por sermos cristãos e sem complexo de inferioridade. Podemos viver a fé como cidadãos normais que possuem valores que humanizam.
 
· Com colaboração: demonstrando que nos interessamos pelas situações sociais e que estamos dispostos a contribuir com o que todo bom cidadão deve contribuir.
 
Diz-se que estamos a viver um renascimento religioso. Se assim for, ficamos contentes. Mas se não for assim, nós, seguidores e seguidoras de Jesus, sabemos que temos um lugar na sociedade, desde que sejamos bons vizinhos — algo simples, mas não fácil. A partir daí, poderemos oferecer o Evangelho de formas acessíveis e convincentes.
 
Numa sociedade mergulhada na incerteza, Leão XIV decidiu resgatar a esperança. Talvez por isso as suas palavras encontrem eco muito para além dos crentes. Porque onde outros oferecem medo, ódio ou ressentimento, ele recorda uma verdade elementar: que nenhuma época nem nenhuma geração está condenada para sempre se houver homens e mulheres bondosos. E que o mal, por mais poderoso que pareça, nunca deve ter a última palavra.

Fidel Aizpurúa Donazar, em Fé Adulta

Comentários