O Batismo faz de nós apóstolos e apóstolas transformadores, que fazem obras de amor, a partir da lógica de Deus Amor

O Batismo não é algo que nos eleve a um estatuto superior e nos confira uma identidade mística específica. O Batismo, cujo sinal mais externo e visível é a água, mergulha-nos no ambiente em que vivemos para transformar o inerte e para comunicar e dar vida, precisamente ali onde reinam as estruturas da morte e o caos se tornou senhor e dono.

O livro do Génesis recorda-nos que «o Espírito de Deus pairava sobre as águas» (1, 2). Graças ao «Sopro divino», aquela indefinição e irracionalidade transformaram-se em clareza e em lógica impregnada de amor. Mais tarde, o próprio Jesus responderá de forma contundente aos discípulos de João: «Ide e dizei-lhe o que vistes e ouvistes: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam purificados, os surdos ouvem» (Mt 11,4-5).

Tanto a passagem do Antigo como a do Novo Testamento pretendem deixar claro que a ação e o compromisso estão acima da identificação intimista e espiritualista, que não é mística nem espiritual. Compromisso para transformar tudo o que nos rodeia, começando pelo próprio e pelo pessoal, claro!, fazendo-o a partir da lógica de Deus Amor que o Génesis apresenta e a partir da compaixão e da misericórdia do Jesus dos Evangelhos.

É um apostolado, portanto, que renuncia à doutrinação e ao proselitismo, para se colocar de frente e ao lado da dor em todas as facetas e dimensões com que esta costuma manifestar-se nos tempos em que vivemos.

Apóstolos da paz, em primeiro lugar, que denunciem de forma enérgica e contundente o uso da força e da violência como instrumentos propícios para dirimir as diferenças ou resolver os possíveis conflitos que tantas vezes podem advir da relação entre os povos ou da convivência entre as pessoas.

Apóstolos da compaixão e da misericórdia para com todos e todas aqueles e aquelas que se viram condenados a viver à margem da vida, carecendo, por isso, do essencial e do básico para poderem viver com o mínimo de dignidade que lhes pertence como pessoas.   Como consequência disso, um apostolado cuja opção preferencial sejam os pobres, a partir do compromisso com a justiça, longe do assistencialismo. Pois só a partir dela se consegue compreender e, por conseguinte, dar uma solução verdadeira às causas estruturais que geram tanta dor nos excluídos do sistema. Alimentando sempre esse apostolado com a mística que surge do fragor da vida, em oposição a estados de espírito pura e simplesmente autocomplacentes.
 
Apóstolos, em suma, que falem uma única língua: a do amor. Pois é essa a única língua que, afinal de contas, todos os homens e mulheres e todos os povos do mundo sempre compreenderam e continuam a compreender hoje em dia. «E ficavam atónitos e maravilhados, dizendo: Vejam, não são galileus todos estes que falam?  Como é que, então, os ouvimos falar cada um na nossa língua, aquela em que nascemos?»  (At 2, 7-8).

Apóstolos que busquem não tanto a «glossolalia e o dom das línguas» para convencer e ampliar o proselitismo, mas sim «fazer obras de amor» para dignificar e contagiar a «Boa Nova» aos deserdados da terra. Só assim serão verdadeiramente fiéis à mensagem de Jesus, quando Ele recomenda: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35). E, por isso, serão reconhecidos como tal.

Juan Zapatero Ballesteros, em Eclesalia

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