Sou padre há quase 21 anos e, ao longo deste tempo, habituei-me a dizer uma frase que repito com grande convicção:
— A segunda-feira é o meu dia de folga.
Quem me ouve de fora até imagina um cenário tranquilo: acordar sem despertador, ler um livro, passear, descansar e talvez fazer aquilo que as pessoas ditas "normais" fazem nos seus dias livres.
A realidade é ligeiramente diferente.
Claro que não folgo da Eucaristia diária. Também não há folga quando uma família liga a pedir a presença do padre para um funeral. A dor não consulta agendas nem respeita dias de descanso.
Depois há as tarefas menos espirituais, mas igualmente inevitáveis: o carro precisa de revisão, os pneus lembram que a eternidade não é para todos, a casa pede arrumação e as plantas olham para mim com um ar acusador.
Há sempre papéis em atraso. Há sempre aqueles emails que se multiplicam misteriosamente durante o fim de semana. E há sempre a promessa ingénua de que «é só uma horinha para organizar isto tudo».
Também já percebi que os almoços e jantares de folga têm um dom especial: começam com a frase «Hoje não falamos de trabalho» e terminam com decisões pastorais mais produtivas do que muitas reuniões.
A segunda-feira é ainda o dia de arrumar as tralhas do fim de semana, fazer balanços, reorganizar agendas e tentar perceber como é possível uma folha A4 gerar tanta papelada.
Gostava de ter mais tempo para parar. Para rever. Para avaliar melhor. Para refletir antes de correr para a tarefa seguinte.
Porque, às vezes, fazemos muito e pensamos pouco. Resolvemos, avançamos e seguimos para a próxima urgência.
E devemos mais aos mais novos. Não basta semear e esperar que cresçam sozinhos. As pessoas precisam de tempo, de presença e de alguém que caminhe ao lado delas.
Ao fim do dia, olho para a agenda, para as tarefas feitas e para as que ficaram por fazer e penso, quase sempre com um sorriso:
— Que bela folga eu tive.
E ainda bem que é assim.
Ainda bem que a vida de um padre não cabe num horário de escritório. Ainda bem que as pessoas interrompem os nossos planos. Ainda bem que há encontros inesperados, conversas demoradas e pedidos que não podem esperar.
Porque, no fundo, a folga do padre talvez não seja fazer menos.
Talvez seja ter a graça de recordar, no meio de tanta correria, porque é que um dia disse «sim».
Padre António Martins, diocese da Guarda, em Facebook
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