A solenidade de 29 de junho é oficialmente a festa conjunta dos apóstolos
São Pedro e São Paulo. Contudo, na perceção popular, parece muitas vezes que se
celebra sobretudo Pedro. As chaves, a cátedra, Roma, o papa e a dimensão
institucional da Igreja fazem com que a figura do pescador da Galileia se torne
mais visível. No entanto, sem Paulo, a Igreja dificilmente teria chegado a ser
universal. A festa é precisamente uma tentativa de recordar que a Igreja nasceu
da tensão fecunda entre estas duas grandes figuras.
Pedro representa a estabilidade. É a rocha. É a continuidade. É a
autoridade que garante a unidade da comunidade. Quando Jesus lhe diz: «Tu és
Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja» (Mateus 16, 18), não está apenas
a escolher um líder, mas a garantir um princípio de comunhão que atravessará os
séculos.
Paulo, pelo contrário, representa a missão. É o homem das fronteiras, das
estradas, dos portos e das culturas. Enquanto Pedro tende a reunir, Paulo tende
a partir. Enquanto Pedro procura preservar a identidade, Paulo procura
expandi-la. Enquanto Pedro pergunta como manter a fidelidade à tradição
recebida, Paulo pergunta como anunciar Cristo a quem nunca O conheceu.
A história dos Atos dos Apóstolos mostra que nem sempre estiveram de
acordo. O episódio de Antioquia (Gálatas 2, 11-14) revela um confronto direto entre
ambos. Paulo acusa Pedro de incoerência relativamente aos cristãos vindos do
paganismo. A Igreja primitiva não nasceu de uma uniformidade artificial, mas de
um diálogo intenso entre diferentes sensibilidades.
Se a Igreja fosse apenas petrina, correria o risco de se fechar sobre si
mesma. Teríamos uma Igreja muito organizada, muito estruturada, muito
preocupada com a doutrina e a disciplina, mas talvez menos capaz de sair ao
encontro do mundo. A segurança poderia transformar-se em conservadorismo. A
fidelidade poderia degenerar em imobilismo.
Por outro lado, se a Igreja fosse apenas paulina, correria o risco de
perder as suas referências. Teríamos uma Igreja criativa, missionária e
inovadora, mas eventualmente fragmentada. A adaptação constante poderia
enfraquecer a identidade comum. O entusiasmo missionário poderia transformar-se
numa sucessão de experiências sem raiz.
A grande sabedoria do cristianismo está precisamente em não escolher entre
Pedro e Paulo. A Igreja é petrina e paulina ao mesmo tempo. Necessita de Pedro
para não perder a comunhão. Necessita de Paulo para não perder a missão.
Necessita da rocha para permanecer. Necessita da estrada para avançar.
Ao longo da história, os grandes momentos de renovação eclesial surgiram
quando estas duas dimensões caminharam juntas. A tradição sem missão torna-se
museu. A missão sem tradição transforma-se em improvisação.
Talvez a pergunta mais importante para os cristãos de hoje não seja se
somos mais petrinos ou mais paulinos, mas se conseguimos integrar ambas as
dimensões. Precisamos de cristãos que amem a Igreja e a sua tradição como
Pedro, mas que tenham a ousadia missionária de Paulo. Precisamos de comunidades
que saibam guardar o tesouro da fé e, ao mesmo tempo, levá-lo às periferias
geográficas, culturais e digitais.
No fundo, a Igreja de Cristo não foi construída apenas sobre uma pedra. Foi
também lançada para o mundo por um missionário. Por isso, a solenidade de 29 de
junho não celebra dois santos separados. Celebra duas formas complementares de
ser Igreja: a que permanece e a que parte, a que guarda e a que anuncia, a que
constrói a casa e a que abre as portas.
Sérgio Carvalho, teólogo, especialista em assuntos religiosos, professor, jornalista e animador pastoral
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