«Esta semana sentei-me
diante do André. Não era a primeira
vez que falávamos. Mas desta vez havia qualquer coisa diferente no seu olhar.
Menos revolta. Menos desculpas. Mais cansaço.
Talvez pela primeira vez, uma pergunta sincera.
— Acha que ainda posso fazer alguma coisa da minha vida?
Talvez pela primeira vez, uma pergunta sincera.
— Acha que ainda posso fazer alguma coisa da minha vida?
O André tem pouco
mais de vinte anos. Perdeu-se cedo pelos caminhos da droga. Vieram depois os
furtos, o tráfico, as más companhias, as escolhas erradas. E, como quase sempre
acontece, aquilo que parecia liberdade acabou por se transformar numa prisão muito
antes de chegar à prisão verdadeira.
Agora cumpre uma pena de seis anos.
Agora cumpre uma pena de seis anos.
Escutei-o durante
largos minutos.
Falou dos erros. Falou dos filhos que quase não vê. Falou dos amigos que desapareceram. Falou da vergonha de olhar para trás.
Falou dos erros. Falou dos filhos que quase não vê. Falou dos amigos que desapareceram. Falou da vergonha de olhar para trás.
E, a certa altura,
disse-lhe:
— André, existem três lugares onde nunca deverias voltar.
— André, existem três lugares onde nunca deverias voltar.
Olhou para mim,
surpreendido.
— O primeiro é o
lugar onde foste rejeitado. Há portas que se fecharam e ainda bem que se
fecharam. Nem toda a rejeição significa que não valias nada. Às vezes significa
apenas que aquele não era o teu lugar. Não percas a tua paz a tentar arrombar
portas que Deus já fechou.
Ficou em silêncio.
Os seus olhos baixaram.
Sabia exatamente do que eu estava a falar.
— O terceiro lugar é o lugar onde foste profundamente infeliz. O passado foi feito para ensinar, não para aprisionar. Há pessoas que passam a vida inteira a tentar regressar a capítulos que já terminaram. Mas Deus não quer que vivas preso ao ontem. Deus está sempre a preparar um amanhã.
Depois sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas verdadeiro.
Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém lhe falou de futuro.
Mas não pode tirar a liberdade dos sonhos.
Nem a capacidade de recomeçar.
Nem a possibilidade de Deus escrever uma página nova.
Acredito que o André
ainda tem estrada pela frente.
E talvez nós também.
Porque todos temos lugares onde não devemos voltar.
E todos temos portas que precisam de permanecer fechadas para que outras, muito melhores, possam finalmente abrir-se.»
E talvez nós também.
Porque todos temos lugares onde não devemos voltar.
E todos temos portas que precisam de permanecer fechadas para que outras, muito melhores, possam finalmente abrir-se.»
Padre João Torres, pároco de Priscos (Braga), em Facebook
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