Três portas que não devemos voltar a abrir - crónica do padre João Torres

«Esta semana sentei-me diante do André. 
Não era a primeira vez que falávamos. Mas desta vez havia qualquer coisa diferente no seu olhar. Menos revolta. Menos desculpas. Mais cansaço.
Talvez pela primeira vez, uma pergunta sincera.
— Acha que ainda posso fazer alguma coisa da minha vida?

O André tem pouco mais de vinte anos. Perdeu-se cedo pelos caminhos da droga. Vieram depois os furtos, o tráfico, as más companhias, as escolhas erradas. E, como quase sempre acontece, aquilo que parecia liberdade acabou por se transformar numa prisão muito antes de chegar à prisão verdadeira.
Agora cumpre uma pena de seis anos.

Escutei-o durante largos minutos.
Falou dos erros. Falou dos filhos que quase não vê. Falou dos amigos que desapareceram. Falou da vergonha de olhar para trás.

E, a certa altura, disse-lhe:
— André, existem três lugares onde nunca deverias voltar.

Olhou para mim, surpreendido.

O primeiro é o lugar onde foste rejeitado. Há portas que se fecharam e ainda bem que se fecharam. Nem toda a rejeição significa que não valias nada. Às vezes significa apenas que aquele não era o teu lugar. Não percas a tua paz a tentar arrombar portas que Deus já fechou.

Ficou em silêncio.
 
O segundo lugar é o lugar da tua fraqueza. Tu sabes quais são as ruas, as companhias, os hábitos e os ambientes que te destruíram. A verdadeira força não está em dizer "eu consigo resistir". A verdadeira sabedoria está em reconhecer os próprios limites e proteger o coração.

Os seus olhos baixaram.
Sabia exatamente do que eu estava a falar.
 
E continuei:
O terceiro lugar é o lugar onde foste profundamente infeliz. O passado foi feito para ensinar, não para aprisionar. Há pessoas que passam a vida inteira a tentar regressar a capítulos que já terminaram. Mas Deus não quer que vivas preso ao ontem. Deus está sempre a preparar um amanhã.
 
Durante alguns segundos não disse nada.
Depois sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas verdadeiro.
Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém lhe falou de futuro.
 
A prisão tira-nos a liberdade dos passos.
Mas não pode tirar a liberdade dos sonhos.
Nem a capacidade de recomeçar.
Nem a possibilidade de Deus escrever uma página nova.


Acredito que o André ainda tem estrada pela frente.
E talvez nós também.
Porque todos temos lugares onde não devemos voltar.
E todos temos portas que precisam de permanecer fechadas para que outras, muito melhores, possam finalmente abrir-se.»

Padre João Torres, pároco de Priscos (Braga), em Facebook

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