Hoje, Jesus sentou-se nas margens do Mediterrâneo e começou a dizer: – Um semeador saiu para semear humanidade...
Hoje voltaria a
fazê-lo. Não junto a um lago tranquilo, mas nas margens do Mediterrâneo. Um mar
que foi berço de civilizações e que, demasiadas vezes, se transformou em
fronteira, vala comum e arquivo de nomes que nunca chegaram a ser pronunciados.
E começou a dizer:
Um semeador saiu para semear humanidade.
Enquanto semeava,
algumas sementes caíram sobre as águas do medo. Ali onde as políticas ergueram
mais muros do que pontes, onde o silêncio foi mais forte do que o direito e
onde o cálculo político pesou mais do que uma vida humana. As ondas
cobriram-nas rapidamente e ninguém quis perguntar quem eram.
Outras sementes
caíram sobre os conveses de embarcações de salvamento. Lá encontraram mãos que
não perguntavam primeiro de onde vinham, mas sim se ainda respiravam.
Encontraram cobertores antes de interrogatórios, água antes de suspeitas, nomes
antes de números. E começaram a germinar.
Outras sementes
caíram no meio da indiferença. Cresceram durante algumas horas nas manchetes
dos jornais, mas os discursos do medo e o cansaço das consciências acabaram por
sufocá-las.
Mas muitas outras
caíram em solo fértil.
Caíram naqueles que
continuam a lançar-se ao mar quando outros desviam o olhar.
Naqueles que mantêm
uma linha de emergência aberta durante a noite.
Naqueles que oferecem
um porto seguro.
Naqueles que
acompanham, durante anos, um menor estrangeiro para reconstruir uma vida.
Naqueles que abrem
uma casa onde antes só havia incerteza.
Naqueles que
acreditam que nenhuma pessoa é ilegal.
E deram fruto.
Não porque o mar
tenha deixado de ser perigoso. Não porque as guerras tenham desaparecido. Não
porque as máfias tenham acabado. Mas porque alguém decidiu não deixar a
humanidade morrer.
Então, Jesus
acrescentou:
Quem olha para o
Mediterrâneo e vê apenas uma fronteira, ainda não compreendeu o Reino. Quem
olhar para uma embarcação de refugiados e só vir um problema administrativo,
ainda não ouve a voz do Evangelho.
Quem contemplar uma
operação de resgate e descobrir um sacramento da compaixão, começa a
compreender como Deus continua a semear.
Porque o Reino não
germina nos gabinetes onde se calcula quantas vidas são aceitáveis.
O Reino germina ali
onde alguém se recusa a aceitar que o mar seja um cemitério.
O Mediterrâneo não
pode continuar a ser um cemitério de histórias, de nomes esquecidos e de vidas
silenciadas.
Está chamado a voltar
a ser uma ponte entre os povos, um lugar onde a dignidade prevaleça sobre as
fronteiras e onde a solidariedade tenha sempre a última palavra.
Cada resgate é uma
semente.
Cada abraço ao
desembarcar é uma semente.
Cada voluntário. Cada
educador. Cada tripulante.
Cada família que
acolhe. Cada cidadão que se recusa a habituar-se.
Tudo tem o seu
momento de germinar.
Também a humanidade.
E talvez o Reino de
Deus já esteja a brotar silenciosamente no convés de uma embarcação que leva um
nome profundamente evangélico: SOS Humanity.
Iñigo García Blanco, irmão
Marista, em Eclesalia
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