«Substituímos o Evangelho pelo bom senso. É tão surpreendente o que Jesus nos diz, que nunca acreditámos nisso.»

No Evangelho de Mateus 11, 25-30, há três parágrafos bem definidos.
O primeiro refere-se a Deus.
O segundo, à interdependência total entre Jesus e Deus.
O terceiro refere-se à relação entre nós e Jesus. Na primeira comunidade cristã, todos eram pessoas simples. O que teria dito Jesus depois de Constantino?

«Dou-Te graças, Pai, porque…» O importante não é a ação de graças, mas sim o motivo. Jesus não pode afirmar que Deus dá a uns o que nega a outros. O que Ele quer dizer é que o verdadeiro Deus só pode ser aceite pelas pessoas simples, sem preconceitos. Os sábios são capazes de criar o seu próprio Deus.

Quem eram os simples? O termo grego «nepios» tem muitos significados, mas todos apontam na mesma direção: infantil, criança, menor de idade, incapaz de falar; e também: tolo, infeliz, ingénuo, fraco. Para a elite religiosa, os simples eram uns malditos, porque não conheciam a Lei e, por isso, não podiam cumpri-la.

As coisas não são conhecimentos, mas sim as experiências de Deus que Jesus viveu e que nos quer transmitir. Não se trata de saber mais coisas, mas sim de uma experiência mais profunda. «Tudo me foi entregue pelo meu Pai…» Esse conhecimento de Deus não é fruto do esforço humano, mas sim puro dom; embora não seja negado a ninguém.

O erro da teologia foi acreditar que conhecíamos Jesus porque conhecíamos Deus; se Jesus era Deus, sabíamos quem era Jesus. O texto diz o contrário: a maneira de conhecer Deus é conhecer Jesus, fazendo nossa a sua experiência de Deus.

Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos. O jugo era a Lei, que era certamente insuportável. O homem desaparecia sob o peso de mais de 600 preceitos e 5 000 prescrições. Para os fariseus, a Lei era a única coisa absoluta. A tarefa de Jesus foi libertar o homem de todas as amarras religiosas.

O meu jugo é suave. Jesus liberta do jugo que oprime as pessoas. Não propõe um caminho de rosas. Sem esforço não há verdadeira humanidade. Não é o trabalho árduo que estraga uma vida, mas sim os esforços que não conduzem à plenitude.

Jesus quer ajudar-nos a desdobrar o nosso ser sem opressões. O jugo e o fardo seriam como o peso das asas para a ave. As asas têm o seu peso, mas se lhas tirares, com que voarão? O motor de um avião é uma carga tremenda, mas graças a esse peso o avião voa. As nossas limitações permitem-nos avançar.

Não demos ouvidos a esta mensagem. Assim que os primeiros séculos do cristianismo passaram, este evangelho foi esquecido e recuperou-se o «bom senso». Nunca mais se reconheceu que Deus se pudesse revelar às pessoas simples. É tão surpreendente o que Jesus nos diz, que nunca acreditámos nisso.

Cometemos um erro quando nos deixamos guiar por especialistas. A todos os níveis, estamos nas mãos de especialistas. Na religião, a dependência é absoluta, ao ponto de nos impedir de pensar por nós próprios. A Igreja tem os seus doutores…

Pio IX disse: «Só há dois tipos de cristãos: aqueles que têm o direito de mandar e aqueles que têm a obrigação de obedecer.» Hoje em dia, nenhum hierarca se atreveria a repetir essas palavras, mas, na prática, todos agem a partir dessa perspetiva.

Jesus propõe uma forma de viver a proximidade de Deus, tal como Ele a viveu. É essa Vida profunda que dá sentido à existência, tanto do sábio como do ignorante, tanto do rico como do pobre. O que nos conduz à plenitude será leve.
Fray Marcos, em Fé Adulta

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