Imaginemos Jesus que regressou hoje e decidiu visitar uma das muitas festas religiosas organizadas
em Seu nome.
Ao aproximar-Se da igreja, ouviu a música a quilómetros de distância. Pensou que o povo estaria a cantar salmos. Afinal, era o conjunto musical a testar as colunas para garantir que ninguém, nem dentro da igreja, pudesse cometer a imprudência de rezar em silêncio.
À porta, encontrou grelhadores fumegantes, barracas de bebidas, rifas, roulotes, luzes coloridas e uma pista de dança. Na parede da igreja, um cartaz gigantesco anunciava:
GRANDIOSAS FESTAS EM HONRA DOS SANTOS!
Jesus ficou admirado:
— Em honra dos santos? Que alegria! Então vim ao lugar certo.
— Em honra dos santos? Que alegria! Então vim ao lugar certo.
Aproximou-Se de um
membro da comissão e perguntou:
— Onde posso encontrar os que têm fome?
— Nas mesas, à espera das febras.
— E os que têm sede?
— Junto à barraca das bebidas.
— E os pobres?
— Esses não sabemos. Mas comprámos um fogo de artifício caríssimo!
— Onde posso encontrar os que têm fome?
— Nas mesas, à espera das febras.
— E os que têm sede?
— Junto à barraca das bebidas.
— E os pobres?
— Esses não sabemos. Mas comprámos um fogo de artifício caríssimo!
Jesus continuou:
— E haverá tempo para escutar a Minha Palavra?
— Claro! A Missa começa às onze e, se o padre não se alongar, ao meio-dia já estamos a servir o churrasco.
— E se a homilia chamar à conversão?
— Esperemos que não. O Sr. Padre sabe que hoje é dia de festa. Não convém aborrecer as pessoas.
Jesus entrou na
igreja. Encontrou algumas pessoas a conversar, outras preocupadas com os
enfeites e várias a consultar o relógio, porque as panelas estavam ao lume. No
altar, flores em abundância. Nos corações, não se sabia.
Depois da celebração, o padre pegou no microfone. Agradeceu à comissão, elogiou o magnífico trabalho realizado, louvou a união da comunidade e declarou, solenemente:
— Tenho a certeza de que os nossos santos estão muito felizes com esta belíssima festa!
Jesus olhou para as
imagens no altar e perguntou:
— Felizes porquê?
O padre, sem O reconhecer, respondeu:
— Porque o recinto está cheio, o povo está alegre e a tradição continua viva!
— Mas alguém aprendeu a viver como eles viveram?
— Não compliquemos. Hoje é dia de alegria.
— Alguém escutou o apelo deles à santidade?
— A comissão trabalhou durante meses.
— Alguém abandonou o pecado?
— Está tudo muito bem organizado.
— Algum pobre foi acolhido?
— Nunca tivemos tantas mesas!
— Alguém se aproximou de Mim?
— O importante é que o povo participe.
— Felizes porquê?
O padre, sem O reconhecer, respondeu:
— Porque o recinto está cheio, o povo está alegre e a tradição continua viva!
— Mas alguém aprendeu a viver como eles viveram?
— Não compliquemos. Hoje é dia de alegria.
— Alguém escutou o apelo deles à santidade?
— A comissão trabalhou durante meses.
— Alguém abandonou o pecado?
— Está tudo muito bem organizado.
— Algum pobre foi acolhido?
— Nunca tivemos tantas mesas!
— Alguém se aproximou de Mim?
— O importante é que o povo participe.
Jesus percebeu que,
naquela curiosa teologia, a felicidade dos santos se media pelo número de
febras vendidas, pela potência das colunas e pelo saldo final da comissão. Os
mártires, que tinham entregado a vida para não negar Cristo, estariam agora no
Céu profundamente emocionados com o preço das senhas e com o êxito do
bailarico.
Talvez São Lourenço
contemplasse as grelhas com particular entusiasmo.
Talvez São Bento tivesse trocado a sua Regra pelo programa das festas.
Talvez São João Batista, que perdera a cabeça por denunciar o pecado, estivesse finalmente reconciliado com a ideia de não incomodar ninguém.
E talvez todos os santos tivessem passado a eternidade a aguardar aquele momento sublime: ver uma aparelhagem montada diante da igreja e uma multidão que conhecia as letras das músicas, mas desconhecia o Evangelho.
Talvez São Bento tivesse trocado a sua Regra pelo programa das festas.
Talvez São João Batista, que perdera a cabeça por denunciar o pecado, estivesse finalmente reconciliado com a ideia de não incomodar ninguém.
E talvez todos os santos tivessem passado a eternidade a aguardar aquele momento sublime: ver uma aparelhagem montada diante da igreja e uma multidão que conhecia as letras das músicas, mas desconhecia o Evangelho.
Jesus perguntou ao
padre:
— Como sabe que os santos estão felizes?
— Porque esta festa é em honra deles.
— E perguntou-lhes se desejavam ser honrados desta maneira?
— É a tradição.
— Também conhece a vida deles?
— Agora não é altura para catequeses.
— E falou ao povo daquilo que eles ensinaram?
— Não quis tornar a homilia demasiado pesada.
— Chamou alguém à conversão?
— É preciso acolher todos.
— Acolher para quê?
— Para participarem na festa.
— E depois?
O padre já começava a ficar incomodado:
— O senhor só sabe criticar? Não vê o esforço destas pessoas? Não vê a alegria? Não vê a união?
— Como sabe que os santos estão felizes?
— Porque esta festa é em honra deles.
— E perguntou-lhes se desejavam ser honrados desta maneira?
— É a tradição.
— Também conhece a vida deles?
— Agora não é altura para catequeses.
— E falou ao povo daquilo que eles ensinaram?
— Não quis tornar a homilia demasiado pesada.
— Chamou alguém à conversão?
— É preciso acolher todos.
— Acolher para quê?
— Para participarem na festa.
— E depois?
O padre já começava a ficar incomodado:
— O senhor só sabe criticar? Não vê o esforço destas pessoas? Não vê a alegria? Não vê a união?
Jesus olhou para a
igreja quase vazia e para a barraca completamente cheia:
— Vejo. Só não consigo perceber em torno de quem estão unidos.
— Vejo. Só não consigo perceber em torno de quem estão unidos.
O padre regressou ao
microfone e pediu uma salva de palmas para a comissão. O povo aplaudiu
entusiasticamente. Depois pediu outra salva de palmas para os patrocinadores.
Voltaram a aplaudir. Por fim, anunciou o início do churrasco.
Para Cristo não houve
palmas. Mas também não estavam previstas no programa.
Mais tarde, saiu a
procissão. A imagem do santo seguia coberta de ouro, flores e promessas. Atrás
dela caminhavam pessoas que não sabiam quem ele tinha sido, como vivera, o que
defendera ou por que razão entregara a vida a Deus. Mas isso pouco importava. O
essencial era que a procissão passasse depressa, porque o conjunto musical
estava contratado e o cantor não podia esperar.
Jesus aproximou-Se
novamente da comissão:
— Dizei-me: o que mudará na vossa vida depois desta festa?
Olharam uns para os outros, perplexos:
— Mudar? Nada! Fazemos isto todos os anos.
— Algum inimigo será perdoado?
— Isso já são assuntos pessoais.
— Alguma família necessitada será ajudada?
— Se sobrar dinheiro, talvez.
— Alguma pessoa afastada será convidada a regressar?
— Não tivemos tempo. Estivemos meses a preparar as barracas.
— Alguma criança aprenderá quem são os santos?
— As crianças vão dançar no palco.
— E Eu? Que lugar tenho nesta festa?
O responsável apontou para o cartaz:
— Está ali o Seu nome, em letras grandes. Não chega?
— Dizei-me: o que mudará na vossa vida depois desta festa?
Olharam uns para os outros, perplexos:
— Mudar? Nada! Fazemos isto todos os anos.
— Algum inimigo será perdoado?
— Isso já são assuntos pessoais.
— Alguma família necessitada será ajudada?
— Se sobrar dinheiro, talvez.
— Alguma pessoa afastada será convidada a regressar?
— Não tivemos tempo. Estivemos meses a preparar as barracas.
— Alguma criança aprenderá quem são os santos?
— As crianças vão dançar no palco.
— E Eu? Que lugar tenho nesta festa?
O responsável apontou para o cartaz:
— Está ali o Seu nome, em letras grandes. Não chega?
Jesus compreendeu
finalmente: o Seu nome servia como licença religiosa. Servia para ocupar a rua,
pedir donativos, contratar música, vender comida, lançar foguetes e dar
aparência cristã a um programa que funcionaria exatamente da mesma maneira sem
Cristo.
Os santos eram o pretexto.
A igreja era o cenário.
A Missa era a obrigação.
A procissão era o desfile.
O padre era o apresentador.
A fé era o patrocínio moral.
E o verdadeiro altar estava montado no recinto: uma grande mesa onde se ofereciam febras, álcool, vaidade e diversão ao deus do entretenimento.
Os santos eram o pretexto.
A igreja era o cenário.
A Missa era a obrigação.
A procissão era o desfile.
O padre era o apresentador.
A fé era o patrocínio moral.
E o verdadeiro altar estava montado no recinto: uma grande mesa onde se ofereciam febras, álcool, vaidade e diversão ao deus do entretenimento.
Entretanto, alguém
reconheceu Jesus:
— Olhem! Parece aquele homem das imagens da igreja!
O presidente da comissão aproximou-se:
— O senhor pertence a alguma banda? Está inscrito na procissão? Trouxe algum donativo?
— Não. Vim falar-vos do Reino de Deus.
O homem franziu o sobrolho:
— Hoje não é uma boa altura. Estamos muito ocupados com a festa religiosa.
Jesus tentou entrar novamente na igreja, mas encontrou a porta fechada.
— A igreja está fechada? — perguntou.
— Sim. Tivemos de fechar para ninguém entrar enquanto decorre o arraial. Há objetos valiosos lá dentro.
— E fora dela?
— Fora temos segurança privada.
— Para proteger quem?
— A receita, naturalmente.
— Olhem! Parece aquele homem das imagens da igreja!
O presidente da comissão aproximou-se:
— O senhor pertence a alguma banda? Está inscrito na procissão? Trouxe algum donativo?
— Não. Vim falar-vos do Reino de Deus.
O homem franziu o sobrolho:
— Hoje não é uma boa altura. Estamos muito ocupados com a festa religiosa.
Jesus tentou entrar novamente na igreja, mas encontrou a porta fechada.
— A igreja está fechada? — perguntou.
— Sim. Tivemos de fechar para ninguém entrar enquanto decorre o arraial. Há objetos valiosos lá dentro.
— E fora dela?
— Fora temos segurança privada.
— Para proteger quem?
— A receita, naturalmente.
Jesus sentou-Se nos
degraus. Ninguém Lhe ofereceu lugar à mesa porque não tinha comprado senha.
Ninguém O escutou porque o som estava demasiado alto. Ninguém Lhe perguntou
quem era porque todos estavam ocupadíssimos a celebrar uma festa em Sua honra.
Mais tarde, o padre
voltou a pegar no microfone:
— Foi uma festa maravilhosa! Nunca se viu tanta gente! Os nossos santos devem estar orgulhosos desta comunidade!
Jesus perguntou:
— Quantos se converteram?
— Não sabemos.
— Quantos regressaram à oração?
— Não sabemos.
— Quantos conheceram o Evangelho?
— Não sabemos.
— Quantos procuraram a Reconciliação?
— Não sabemos.
— Quantos copos venderam?
O tesoureiro abriu imediatamente o livro das contas:
— Isso sabemos ao certo!
— Foi uma festa maravilhosa! Nunca se viu tanta gente! Os nossos santos devem estar orgulhosos desta comunidade!
Jesus perguntou:
— Quantos se converteram?
— Não sabemos.
— Quantos regressaram à oração?
— Não sabemos.
— Quantos conheceram o Evangelho?
— Não sabemos.
— Quantos procuraram a Reconciliação?
— Não sabemos.
— Quantos copos venderam?
O tesoureiro abriu imediatamente o livro das contas:
— Isso sabemos ao certo!
No final, anunciaram
com orgulho que a festa fora um enorme sucesso. O recinto estivera cheio, a
música agradara, o churrasco esgotara e a receita superara a do ano anterior.
A igreja, porém, continuava vazia.
Os pobres continuavam esquecidos.
Os afastados continuavam afastados.
Os jovens continuavam sem conhecer Cristo.
E a comunidade, depois de meses de trabalho, estava exatamente como antes — apenas mais cansada e mais convencida de que tinha evangelizado.
A igreja, porém, continuava vazia.
Os pobres continuavam esquecidos.
Os afastados continuavam afastados.
Os jovens continuavam sem conhecer Cristo.
E a comunidade, depois de meses de trabalho, estava exatamente como antes — apenas mais cansada e mais convencida de que tinha evangelizado.
Jesus levantou-Se e
partiu.
Antes de desaparecer, ainda O ouviram dizer:
— Um dia expulsei os vendilhões do templo. Hoje montaram-lhes um palco à porta, entregaram-lhes o microfone e arranjaram um padre para garantir que os santos estão muito felizes.
Mas ninguém prestou atenção.
Começara o sorteio do cabaz.
Antes de desaparecer, ainda O ouviram dizer:
— Um dia expulsei os vendilhões do templo. Hoje montaram-lhes um palco à porta, entregaram-lhes o microfone e arranjaram um padre para garantir que os santos estão muito felizes.
Mas ninguém prestou atenção.
Começara o sorteio do cabaz.
Elisabete Martins, em
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