«Educar em resiliência e pensamento crítico é a melhor vacina contra a imediaticidade e a frustração juvenil», defende José Antonio Marina, proeminente pedagogo espanhol
José Antonio Marina Torres (Toledo, 1939) é um proeminente filósofo, ensaísta e pedagogo espanhol. É amplamente reconhecido pelo seu estudo transdisciplinar sobre a inteligência humana, criatividade, ética e a importância da educação do carácter na sociedade contemporânea.
Ao jornal El Confidencial - https://www.elconfidencial.com – ele alertou: «O maior erro educativo foi dizer aos jovens: só a tua felicidade importa e consegui-la é muito fácil.»
O pedagogo chamou a atenção para o modelo educativo atual, salientando que promove uma felicidade fácil e imediata, que enfraquece a resiliência dos jovens e incentiva o surgimento de dependências emocionais e digitais.
Citou o filósofo Fernando Savater: «O segredo da felicidade é ter gostos simples e uma mente complexa, o problema é que muitas vezes a mente é simples e os gostos são complexos» (ver Fernando Savater, filósofo: "El secreto de la felicidad está en tener gustos sencillos y una mente compleja").
E alertou que «o aumento da vulnerabilidade emocional e o avanço das dependências entre os jovens estão a reabrir o debate sobre o modelo educativo atual. Cada vez mais professores, famílias e especialistas estão preocupados com a baixa tolerância à frustração e a necessidade constante de gratificação imediata na sala de aula ou em casa. Perante este panorama, as vozes de referência na pedagogia procuram explicações que vão além dos sintomas visíveis e exploram as dinâmicas culturais do presente.
Com 87 anos, o renomado pensador e pedagogo espanhol lançou um aviso direto sobre a origem desta crise de fragilidade social. No seu livro La vacuna contra las adicciones e nas diversas intervenciones públicas como o podcast El Sentido De La Birra com Ricardo Moya - acede-se em https://youtu.be/EZsyaXDD5-U - aponta diretamente para as falsas promessas de realização com que as novas gerações estão a ser educadas.
Para o ensaísta, a raiz do problema não reside exclusivamente no consumo de substâncias ou abuso de ecrãs, mas no contexto ético e cultural oferecido aos menores. Marina defende que a grande epidemia do século XXI é alimentada por um modelo parental que evita o valor do esforço consciente, substituindo a resiliência por alívio imediato, como álcool, tranquilizantes ou o uso compulsivo de plataformas digitais. «O maior erro educativo foi dizer aos jovens: só a tua felicidade importa e alcançá-la é muito fácil», diz o filósofo.
A armadilha de zero esforço
Esta premissa contundente foca-se em como a mensagem da imediaticidade colide de frente com as adversidades inevitáveis do quotidiano. Durante a entrevista concedida a Moya, o pensador alertou para a armadilha evolutiva de acomodar em excesso as mentes em desenvolvimento: «Um dos erros evolutivos do nosso cérebro é que ele é preguiçoso e, se vê o problema resolvido, então não faz esforço.» Uma inércia que, segundo o filósofo, é acentuada quando as ferramentas digitais captam a atenção involuntária e deslocam a capacidade de concentração sustentada.
O filósofo aprofundou as contradições do discurso pedagógico atual. «Se eu transmitir continuamente a mensagem à criança de que ela tem o direito de possuir o que quer, e além disso, sem esperar, e apenas estimular esse desejo, não posso dizer-lhe então que ele tem de fazer um esforço para conseguir o que quer, porque então ele me rejeitará e acabará por abraçar algo que lhe traga prazer rápido e imediato», argumentou o pedagogo para ilustrar a incapacidade dos jovens de assumirem projetos de longo prazo.
A vacina contra a imediaticidade e a frustração juvenil
Como alternativa para inverter esta espiral de dependência emocional, o professor é de opinião que educar em resiliência e pensamento crítico é a melhor vacina contra a imediaticidade e a frustração juvenil, e defende a redefinição da inteligência para uma resolução eficaz de problemas. Entre as chaves necessárias para a educação moderna estão o cultivo da atenção voluntária perante distrações, o controlo dos impulsos para gerir a frustração e a promoção do pensamento crítico capaz de separar a própria identidade das ideias debatidas.
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