Com Jesus no Jardim da Ressurreição

Deus, um Homem, uma Mulher, um jardim. Este é o primeiro cenário de habitação partilhada do mundo que a Bíblia nos apresenta. 

Deus, aparece-nos aí como jardineiro que cultiva e prepara um espaço para ser habitado. 

Criado o Homem, ele é convidado por Deus a continuar a Sua jardinagem. 

Deus dá ao Homem uma auxiliar, uma Mulher que é definida não em função de criadagem mas de complemento, em função da relação. A missão do Homem e da Mulher é a de cultivarem o mesmo jardim, dando continuidade ao trabalho de Deus. 

A união entre o Homem e a Mulher, no jardim, dá-se quando eles acolhem a Deus na sua carne.

A serpente rompe esta união. E é precisamente esta coabitação que Jesus vem refazer quando, após a ressurreição, se apresenta como o jardineiro que, cultivando um jardim, é reconhecido por Maria Madalena.

Em Jesus e Maria Madalena vemos Deus e a Igreja, vemos Deus e a nova Humanidade.

O jardim...
O lugar de onde somos é a referência a partir da qual nos apresentamos diante do espelho e dos outros. 

Ora, nascemos em espaços de dom: o ventre, a casa…

No Génesis, como em toda a Bíblia, é sempre Deus quem hospeda o Seu povo. Neste sentido, o jardim surge como lugar de crescimento, lento e pedagógico, de todas as coisas. 

Isso deve questionar a nossa vida cristã. Como habitamos os espaços onde o tempo nos é dado viver? Para onde se dirigem as nossas expectativas: para o que é lento e tem futuro? A qualidade dos espaços é ditada em função de nós [como faziam os fariseus] ou abrimo-nos à bondade presente em todos os espaços [como Jesus, que partilhava a mesa dos pecadores]?

.. e o Paraíso
Muitas vezes temos a impressão de que a Bíblia nos diz como é o Céu ou como é que se vai para lá. Na verdade, a Bíblia diz-nos como é que o Céu vem até nós. Ele vem pelo compromisso, assumido com outros, de dar consistência aos lugares que habitamos, ou seja transformarmos a terra num espaço habitável enquanto Reino de Justiça e de Paz.


Padre Miguel Pedro Melo, SJ

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