Estudo culpa falta de preparação e revolução sexual por abusos na Igreja

Nem celibato nem padres homossexuais. As verdadeiras causas da ocorrência de abusos sexuais no seio da Igreja, pelo menos nos Estados Unidos, relacionaram-se com a falta de preparação dos seminaristas, que se viram a braços com uma revolução sexual e cultural nas décadas 60 e 70 do século XX. Esta é a conclusão do estudo mais abrangente sobre a questão já levado a cabo, que é hoje publicado nos EUA.

Efectuado pela John Jay College of Criminal Justice, a pedido da Conferência Episcopal dos EUA, o estudo demorou cinco anos e tem como título “As causas e o Contexto do Abuso Sexual de Menores por Padres Católicos nos Estados Unidos, 1950-2010”.
A investigação conclui que as regras de celibato para padres não são a raiz do problema, ao contrário do que têm defendido certos elementos mais liberais da Igreja. Ao mesmo tempo, o trabalho refere que não há qualquer prova que sustente que a culpa é da presença de padres homossexuais na Igreja, como defendem alguns conservadores. A maior proporção de vítimas masculinas deve-se a uma questão de oportunidade e de acesso e não de preferência dos criminosos.
O documento conclui, até, que o período em que se deu a maior entrada de homossexuais no sacerdócio coincide com uma diminuição significativa de casos de abuso, embora não estabeleça uma relação de causa efeito entre as duas realidades.
Nem a Igreja nem mais ninguém poderia ter identificado de antemão os potenciais abusadores, dizem os autores. “As características individuais não servem para prever se um padre vai abusar de menores. Antes, é uma combinação de vulnerabilidades, oportunidades e situações de stress que aumentam o risco de abusos”, pode-se ler.



Num ponto que promete gerar alguma controvérsia, o estudo afirma que é incorrecto falar-se de padres pedófilos, uma vez que a pedofilia é uma “desordem psiquiátrica caracterizada por fantasias recorrentes, desejos e comportamentos com crianças prepubescentes”, o que apenas corresponde a uma fracção dos padres acusados de abusos.
Contudo, os autores defi nem uma criança prepubuscente como tendo menos de 10 anos. Caso se utilizasse a idade-limite de 13 anos, utilizada pela Associação Americana de Psiquiatras, a proporção seria diferente.

Novos casos diminuíram desde os anos 80
O relatório reserva fortes críticas aos bispos norte-americanos, sobretudo, pelas ocasiões em que responderam aos casos de abuso mostrando mais preocupação pelos agressores do que pelas vítimas e procurando encobrir os acontecimentos.
Segundo os autores, este é, todavia, um comportamento típico de grandes instituições, comparável à cultura das forças de segurança, no que diz respeito a brutalidade policial. Ambas as instituições são fortemente hierarquizadas e centralizadas e resistem a supervisão externa.
Apesar destas críticas o relatório sublinha que “nenhuma organização procedeu a um estudo de si mesma como a Igreja Católica”, recorda que as melhorias conseguidas desde a década de 80 têm levado a um decréscimo acentuado de novos casos e recomenda que a conferência episcopal adopte, agora, uma política uniforme e transparente para lidar com novas situações que possam emergir.

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