Catarina Carvalho | Notícias Magazine | 26.02.2012
Na semana passada, o novo cardeal português em Roma, D. Manuel Monteiro de Castro, mostrou-se ao mundo. Foi entrevistado e teve imenso tempo de antena. Um tempo de antena justo. Ter um cardeal em Roma é um feito importante para um país - católico ou ímpio. O nosso terá o cargo de penitenciário-mor da Santa Sé e será responsável pela Igreja de São Domingos de Gusmão.
Pois com tanto espaço mediático à sua disposição, o novo cardeal escolheu um tema para dar nas vistas: as mulheres. Não na Igreja, mas na sociedade em geral. E disse tudo o que queria dizer. Que «a mulher deve poder ficar em casa ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos». Que «devíamos dar muito mais valor à família e ao valor da mulher em casa. O trabalho da mulher a tempo completo, creio que não é útil para país. Trabalhar em casa sim, mas que tenham de trabalhar pela manhã até à noite, creio que para um país é negativo. A melhor formadora é a mãe, e se a mãe não tem tempo para respirar, como vai ter tempo para formar?». Que «a mulher perdeu muito do valor que tinha. Um país depende muito, muito das mães, pois são elas que formam os filhos. Não há melhor educadora do que a mãe». Pus aqui as frases todas das entrevistas que deu ao Correio da Manhã e ao Jornal de Notícias, para que quem não leu tenha oportunidade de o fazer agora.
Que estas sejam frases ditas por um alto representante da Igreja Católica, em princípio um dos seus mais preparados membros, fica com a Igreja e o lugar que pretende ter no mundo. A mim preocupa que um ser humano, no século XXI, as profira. Não por receio de consequências práticas. Todas essas estão naturalmente resolvidas, não há volta a dar, não há forma de reenviar as mulheres para casa - nem económica nem socialmente. Nenhuma família de classe média portuguesa o comportaria. E ainda bem: livre-nos o destino de filhos apenas criados e educados pelas mães, com pais ausentes. Essa é a tradição que deu origem a várias gerações de deficientes sociais.
Ideologicamente falando, nada do que venha como consequência do que foi dito pelo cardeal pode ser benéfico. Nem para as mulheres nem para a sociedade. E por várias razões. O que está por detrás das frases do cardeal é a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens - mesmo que ele disfarce com o valor maternal que lhes atribui. E essa ideia é a mesma que preside à imposição de burkas, algo que nos é distante, mas também de algo que nos é muito próximo, como a violência doméstica.
É estranho que o que o cardeal disse não tenha provocado um escândalo nacional. Mas também pode ser sinal dos tempos. Tenho receio destes pensamentos nestes tempos difíceis, quando é prático encontrar bodes expiatórios. E nem são as mulheres de carreira, com alto cargos e poder, que me afligem. Essas têm meios e defesas. Estão habituadas à luta. As que me preocupam são as que mais sofrem por o serem - as que trabalham por opção, brio, dinheiro ou simplesmente porque não podem fazer outra coisa, e ainda têm de levar com os problemas de consciência e as meias sujas do marido espalhadas pelo chão do quarto.
Porque, ao contrário do que diz o cardeal, o tempo de que as mulheres precisam para ser mães não lhes é retirado no trabalho - onde têm horários normais. É-lhes retirado em casa. Na maior parte dos lares portugueses onde não há partilha de tarefas, dessas que nada têm que ver com a função de ser mãe e roubam o tempo para sê-lo. Como lavar a loiça, passar a ferro ou pensar no que vai comer-se no dia seguinte. Aliás, em Portugal, em média, os homens têm muito mais tempo para ser pais do que as mulheres para serem mães. É uma sociedade que frases como a do cardeal D. Manuel perpetua e impede que a vida das famílias seja mais valiosa, prazenteira, vivida. E que a natalidade seja, do ângulo doméstico, vista muitas vezes como um pesadelo.

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