Ex-sacerdote e teólogo tem um pensamento crítico face à Igreja de hoje: “Madalena não era pecadora. Jesus teve irmãos e não casou”
Artur Cunha de Oliveira, ex-sacerdote, casado e com uma vida muita activa tanto na política como na sociedade, diz que o que “eu escrevo não é para as gerações actuais, porque estas nunca acolheram bem o que eu pregava quando podia pregar no exercício do sacerdócio, mas é fundamentalmente para os nossos filhos e netos, a geração futura que não se acomoda. A geração actual é mais preparada, mais crítica”.
Diz também que a igreja hoje tem de ser repensada e que o celibato devia ser opcional como o era no início do cristianismo.
Que razões estão subjacentes à escrita deste livro “Jesus de Nazaré e as Mulheres”?
A razão primária porque escrevi este livro foi para, de certo modo, esclarecer a usufruição de duas personagens, Jesus de Nazaré e Maria Madalena, por Dawn Brown, mas que na altura ninguém quis publicar. E só agora é que o fiz numa edição do IAC. Esta obra primeiro foi entregue a uma editora que faliu, depois foi entregue a uma editora católica que o rejeitou, com argumentos infantis. Mas o meu único propósito é o de reabilitar a pessoa digníssima de Madalena e salientar a pessoa do Senhor Jesus, que até no trato com as mulheres é, para nós, um exemplo de delicadeza, de atenção, de carinho, e até de afecto, e não sexual. Hoje é que os homens olham para as mulheres com cariz sexual, isso é bestialidade. Não há espiritualidade.
A senhora não é uma qualquer, não a Madalena das lágrimas, a pecadora, mas sim uma senhora de linhagem, da alta sociedade da altura e que se dedicou a Jesus, tal como Joana, a mulher de Cusa, que era administrador do Rei Herodes, e Susana. As três mulheres, com os seus bens, acompanhavam o senhor Jesus que era o profeta itinerante, assim como os discípulos que o seguiam mais de perto. Primeiramente, foi minha intenção restaurar, de certo modo, e acabar com essa lenda de Maria Madalena.
Mas a imagem de Maria Madalena, pecadora, é-nos transportada pela própria Igreja?
Isso quer dizer apenas que nem tudo o que a Igreja transporta está certo. No livro verifica-se que essa lenda começou com uma infeliz homília do Papa Gregório Magno que na Basílica de S. Clemente, em Roma, confundiu Maria Madalena com a “pecadora arrependida” do evangelista Lucas (7,36-50). A partir de então terminou a história e principiou a lenda. Agora tenta-se criar o Mito. Desde essa homília por diante houve que explorar este equívoco para satisfação das pecadoras, tendo em Madalena um exemplo, pois poderiam viver consoladas.
Mas se esse foi um equívoco, porque razão se continua a passar esta mensagem na catequese, por exemplo?
Isso é um erro, e é justamente para desfazer este equívoco que escrevi. Na Igreja católica há uma necessidade absoluta de repensar muitas coisas e de colocar a verdade acima de tudo. Uma coisa é a lenda, a crença, a fé, e outra é a história e a verdade. Se ninguém disse isso vai continuar-se no equívoco e há que acabar com isso.
Está preparado para que outros teólogos divirjam da sua posição mesmo que diga que assenta em factos históricos?
Com certeza que estou preparadíssimo. Não acredito que haja um só teólogo que mereça este nome que divirja da minha posição. Eu desafio todos os teólogos, com T maiúsculo, a desfazer a minha posição.
Se se der ao trabalho de verificar a bibliografia que é citada no meu livro verificará que os teólogos e biblistas, os que merecem este nome, não podem ir contra isso, porque isso está provado historicamente.
Também chega à conclusão, ao contrário do que é ventilado, segundo diz, de que Maria Madalena não casou com Jesus?
Não, não casou. Jesus poderia ter casado e daí não viria mal ao mundo, como eu digo, mas efectivamente Jesus não casou. Há muitos argumentos de que ele não casou. Se nos evangelhos se fala da mãe, do pai, dos irmãos e das irmãs como é que não há uma única referência, nem sequer indirecta, à eventual esposa. Ele estava na linha da espiritualidade joanica, ou seja, de João Baptista que era um celibatário, ele foi celibatário e não foi o único. Os profetas daquela altura, como Jesus foi, eram celibatários. Havia uma facção da altura, chamados de arsénios, e muitos dos quais eram celibatários. O celibato já nesta altura era algo que podia ser opção de vida. Em nenhum documento histórico do cristianismo que diga que Jesus casou. É um dado histórico.
É a favor do celibato, ou não?
Sou a favor do celibato como opção de vida. Os sacerdotes deviam poder optar, mas se quisessem casar deviam podê-lo fazer.
De acordo com a imagem que a Igreja transmite, os católicos não fazem a ideia de Jesus com irmãos…
Mas isso está na Bíblia e até tem o nome dos irmãos e só não tem o nome das irmãs porque na cultura semítica a mulher era sempre secundarizada.
Se me permite a pergunta, das suas palavras posso depreender que a Igreja de geração em geração tem passado ideias confusas e pouco fidedignas? Que razões estão subjacentes a isso?
Para sermos muito sinceros e abertos, isso tem a ver com o erro sobre a sexualidade de Jesus que se lançou desde o princípio do cristianismo. Isso tem a sua explicação. A primitiva comunidade cristã – e isso está na Bíblia – esperava que durasse pouco tempo a existência d´Ele sobre a terra. Estavam na expectativa da vinda do Senhor Jesus, como Ele desapareceu, Ele viria e acabaria o mundo. É curioso que o primeiro documento bíblico, a epístola primeira de S. Paulo aos tessalonicenses, diz que estavam todos na expectativa do fim do mundo. Então para que devia haver casamentos, filhos, riqueza, bens. Aquela geração do princípio foi de muita expectativa e não havia nada que estar ligado às coisas mundanas. Por outro lado, quando isso se verificou e S. Paulo rectificou a sua ilusão, na segunda carta aos mesmos tessalonicences, de que poderíamos continuar a viver, então perdeu-se, de certo modo, infelizmente, o exemplo do Senhor Jesus de Nazaré e os que não quiseram esperar pelo fim do mundo mas quiseram dar um testemunho de vida muito especial, foram para o deserto, os chamados eremitas e começaram a vida monástica, e a partir daí houve uma tendência – não foi a única – para tomar como protótipo de cristianismo a vida monástica, a vida religiosa, em que há os tais votos da caridade perpétua, da obediência e da pobreza. Ora, o exemplo do Senhor Jesus não é esse e a essência do cristianismo não é essa, é ser-se humanidade normalmente, embora não só humanidade mas também espiritualidade. Houve uma grande desafectação em relação ao estudo e à civilidade, nomeadamente à sagrada escritura. Há muita gente que facilita e não faz um estudo afincado às fontes do cristianismo, daí a necessidade de se repensar muita coisa em relação aquilo em que se se acredita.
Nesta altura de que crise o que é importa mais em relação à figura de Jesus?
É apresentá-lo como alguém que foi preso, vergastado, coroado de espinhos e morreu na cruz, e portanto sofreu, sofreu, sofreu, ou apresentá-Lo como a pessoa que Ele foi na história que matou a fome, consolou os triste e sarou aquilo que era possível sarar ou curar. Isto é, alguém que fez algo de beneficio para a humanidade. Isso é que faz sentido apresentar hoje.
Portanto, o importante para si é dar a Jesus a humanidade?
Sim, porque foi e é. Nós, os açorianos, devemos muito aos franciscanos mas também devemos esta peça que Ele nos trouxe da prevalência do Mistério da Paixão. Jesus morreu porque efectivamente teve uma vida que não agradou às autoridades por isso o condenaram. Mas quando viveu foi activo, foi benéfico, serviu o próximo e a nossa Igreja. Eu sou membro desta Igreja, eu amo-a e sirvo-a, mas esta Igreja em vez de ser tanto instituição, como o é, devia ser mais comunidade como o foi no princípio. Em vez de ser tanto afirmativa devia ser mais estudiosa, mais testemunho, em vez de a Igreja ser tanto poder devia ser mais serviço. E o Senhor em vez de ser tão conhecido e proclamado como exemplo devia ser o primeiro. Nós temos as igrejas cheias de santos, mas a mim o que é que me interessa um santo que não é como eu: um homem, casado, que teve uma profissão, que teve de responder, que teve de produzir. Lembre-se a quantidade de pessoas que foram canonizadas pela Igreja nestes últimos anos, vieram sempre de ordens religiosas femininas ou masculinas, onde é que encontrou um (a) jornalista, um (a) operário(a), um (a) investigador (a), um (a) artista, ou seja, aquilo que é a vida das pessoas actualmente, será que não há ninguém entre as várias profissões que seja digno de ser santo.
Isso quer dizer que a Igreja olha só para o seu interior?
Quer dizer que a Igreja é muita instituição em vez de ser comunidade, é muito poder em vez de ser serviço. E na instituição aqueles que têm poder é que se impõem, veja-se o que acontece com o Estado. Quem é poder no Estado impõe-se. E toda a minha vida tem sido uma luta constante, não tanto como agora, contra isso, por isso é que os meus livros quando me refiro ao início do cristianismo nunca digo Igreja mas digo comunidade cristã, porque o era, e era mais serviço e testemunho do que poder. Quando no século IV, com o conluio da Igreja com Constantino, no primeiro concílio de Niceia a Igreja se subordinou ao poder temporal perdeu-se a genuidade do cristianismo e passou a ser a Igreja católica, apostólica, romana.
Agora não vamos todos reverenciar o Núncio Apostólico, mas o que é que é o Núncio Apostólico em Portugal? Senão um diplomata ao serviço de um Estado, de uma organização que tem interesses temporais em vez de interesses espirituais. Porque é que não vem um eremita qualquer, de qualquer parte do mundo, cristão ou não cristão, e nos vem dar o seu testemunho. O que é que nos faz mais falta no nosso testemunho de fé, senão um exemplo não violento como foi Ghandi.
Portanto, há muito a repensar?
Há muita coisa que tem de ser repensada, por isso não conformo. O que eu escrevo não é para as gerações actuais, porque estas nunca acolheram bem o que eu pregava quando podia pregar no exercício do sacerdócio, mas é fundamentalmente para os nossos filhos e netos, a geração futura que não se acomoda. A geração actual é mais preparada, mais crítica. Basta abrir a televisão para ver que quando há missa lá estão pessoas com mais de 40 anos. Mesmo os cristãos anónimos, aqueles que não vão à igreja, são importantes porque o importante é que coloquem no cerne da questão a mensagem cristã, daquilo que o Senhor Jesus nos veio trazer, mas que não pertencem à tal instituição Igreja, pelo menos de uma maneira visível.
Mas o facto de dizer que nas igrejas só há gente de meia-idade, isso também pode ser lido com o facto de a mensagem dos sacerdotes não passar?
Claro que as gerações de sacerdotes tem muito que se lhe diga, bem como a de Papas, dai que os grandes teólogos utilizavam em latim ecclesia reformatum que quer dizer a igreja continuamnete a precisar de ser reformada, não há dúvida que sim. Hoje há grandes movimentos na Igreja apostólica, católica, romana de pessoas (sacerdotes, leigos, homens e mulheres) que querem ver reformada a Igreja sem terem de sair da Igreja como antigamente aconteceu com os protestantes. Porque é que saíram na altura de Lutero? Pela necessidade de procurar autenticidade na Igreja. Hoje, o movimento é contrário a isso. Não é sair, é estar dentro dela e reformá-la por dentro.
Quem é Artur Cunha de Oliveira?
Numa edição do Instituto Açoriano de Cultura: a obra foi apresentada ao público na Galeria do IAC, e a apresentação esteve a cargo do Padre Júlio Rocha (Professor do Seminário Episcopal de Angra).
Artur Cunha Oliveira, Sacerdote católico dispensado do ministério e casado, licenciado em Teologia Dogmática e em Ciências Bíblicas, foi professor no Seminário Episcopal de Angra, cónego da Sé, assistente diocesano de vários movimentos, organismos e associações de apostolado e, na sociedade civil, director do diário A União, co-fundador do Instituto Açoriano de Cultura de cujas Semanas de Estudo dos Açores foi secretário permanente durante vários anos, conselheiro de orientação profissional e director de Centro de Emprego de Angra do Heroísmo, vogal da Comissão Regional de Planeamento e, depois do “25 de Abril”, presidente da Comissão Administrativa da Junta Geral do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo, Director do Departamento Regional de Estudos e Planeamento dos Açores (DREPA), que fundou, deputado ao Parlamento Europeu, presidente da Comissão Diocesana de Justiça e Paz e da Assembleia Municipal de Angra do Heroísmo, vogal da Comissão Instaladora do instituto universitário dos Açores.

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