acerca da Pfarren-Initiative – conhecida como a Iniciativa dos Párocos Austríacos
"Não me reconheço nem como dissidente, nem como revolucionário. Estamos todos envolvidos todos os dias na pastoral paroquial. Muitos de nós são decanos que coordenam, reúnem e ajudam os bispos a resolver os problemas cotidianos da base".
É uma imagem muito diferente da que muitos, não o conhecendo, construíram nesses meses com base nas notícias que chegavam em Brenner acerca da Pfarren-Initiative – conhecida como a Iniciatica dos Párocos austríacos –, dos quais o Pe. Helmut Schüller é a referência e um dos primeiros signatários e à qual – mesmo sem citar nomes nem o país – até Bento XVI se referiu por ocasião da homilia pronunciada na Quinta-Feira Santa.
Entrevistado pelo Pe. Lorenzo Prezzi, diretor da Settimana, revista de atualidade pastoral das edições dehonianas, o idealizador daquele que passou a ser chamado de Apelo à desobediência, limpa o campo principalmente do fato de ter usado uma "formulação tão discutível".
Como muitas vezes acontece, essa é uma questão de tradução de termos entre línguas com raízes diferentes. Isso também havia acontecido com o documento Kirche 2011, dos teólogos alemães (mais articulado, mas semelhante quanto às demandas), que passou pela Itália como "uma reviravolta é necessária", enquanto o alemão diz "Ein notwendiger Aufbruch", ou seja, "começar novamente é necessário", entendido como imobilismo a ser movido, mais do que revolução em si mesma.
"O uso do conceito de ´desobediência´ no título do nosso apelo tem muitas razões", explica Schüller. "Obediência (em alemão, Gehorsam, e desobediência, Ungehorsam) tem a ver com ´encontrar ouvidos´ (em alemão, Gehör finden, e hören, escutar). Mas as demandas da nossa Igreja não encontram ouvidos na cúpula da Igreja há muitos anos. Em segundo lugar, a nossa práxis pastoral, mediante a qual queremos encontrar as pessoas no espírito do Evangelho, significa às vezes desobedecer as indicações oficiais da Igreja (tolerada quando é "desobediência silenciosa", mas não quando é declarada). Em terceiro lugar, pretendemos expressar desobediência com relação a uma evolução na Igreja que se distancia das perspectivas do Concílio Vaticano II", afirma.
Helmut Schüller, 59 anos – pároco de St. Stephan, na cidadezinha de Probstdorf, nos arredores de Viena – foi diretor da Cáritas austríaca e vigário-geral da arquidiocese da capital ainda sob a liderança de Christoph Schönborn. À pergunta sobre a referência do papa na Quinta-Feira Santa, ele responde que achou o seu discurso "surpreendentemente articulado, porque se aproxima das nossas demandas na forma de pergunta, e não como alguns bispos fizeram, com a acusação infundada segundo a qual colocaremos em risco o nosso pertencimento à Igreja e buscaremos a tentativa de um cisma". E ele também declara ter percebido "um acento crítico acerca dos perigos de estruturas imóveis e inertes".
O Pe. Prezzi – que, além disso, define como "equivocado" o apelo (como já fizera em julho do ano passado, cf. Settimana n. 28-29/2011), "mas não isento de alguma razão" – entra depois no mérito da oportunidade, ou da eficácia, de uma "preocupação somente institucional", com o objetivo de uma reforma autêntica da Igreja. "Nós também estamos conscientes de que a dimensão institucional é apenas uma dentre as muitas dimensões eclesiais – responde Schüller –, mas nas estruturas da Igreja pode-se reconhecer uma espécie de ´língua dos corpos´, uma linguagem não verbal, que às vezes pode se manifestar contraditória com relação ao que a Igreja quer anunciar".
Acerca do seu posicionamento em relação a um polo oposto que seria constituído pelos movimentos tradicionalistas, Schüller não tem dúvidas: "Precisamos permanecer em medidas realistas. O grupo dos tradicionalistas é pequeno e superestimado. Deve-se buscar e encontrar um lugar para eles na Igreja. Mas eles também devem compreender que não podem esperar que irão determinar o caminho da Igreja como um todo. Para isso, deve ser decisivo o consensum fidelium do povo de Deus e das pessoas comprometidas com a Igreja. Não nos reconhecemos como polo oposto aos lefebvrianos, mas dentro de uma comunidade mais ampla com os batizados e com os sacerdotes que trabalham para o cumprimento da Igreja hoje".
A argumentação é a mesma acerca do seu posicionamento pessoal ou do grupo dos signatários: "Nem dissidente, nem revolucionário. Todos nós, da Pfarren-Initiative, estamos envolvidos todos os dias na pastoral paroquial. Muitos de nós são decanos que coordenam, reúnem e ajudam os bispos a resolver os problemas cotidianos da base. Pode ser que a mídia projete uma imagem diferente e conflitiva sobre nós. Mas, por causa de uma falta de diálogo aberto na Igreja e nos seus meios de comunicação, onde não há espaço para um verdadeiro debate recíproco sobre as questões emergentes, a discussão regularmente migra para a mídia secular, que, naturalmente, segue os seus interesses específicos".
Schüller se mostra satisfeito, além disso, com o consenso recebido pelo apelo – que se estendeu para diversos grupos de padres (e também de leigos) um pouco por toda a Europa, apesar das pressões contrárias de alguns bispos, como na Irlanda ou na Eslováquia –, que muitas vezes foi retomado nos seus conteúdos de exigências, "mas, como se vê, a razão do escândalo na nossa palavra ´desobediência´ é só um pretexto".
Por esse motivo, a rede dos párocos – que não aceitam nem o apelativo de "rebeldes" – irá continuar o "reforço em nível internacional e o seu diálogo em nível de Igreja mundial". Além disso, "queremos encorajar todos aqueles que estão envolvidos nas suas comunidades a formular mais direta e indistintamente as suas demandas. Estamos sempre abertos ao diálogo com os bispos locais e com as conferências episcopais. Mas deveríamos superar o simples ´ser gentilmente escutados´. Os bispos devem esclarecer as suas posições como pastores (sem remeter às competências de Roma) e devem esclarecer como querem expressar a sua corresponsabilidade com relação à liderança da Igreja inteira".
Palavras claras que remetem, de um lado, às mesmas demandas contidas em um documento de 1970 – que Bento XVI conhece bem, porque foi assinado por uma série de teólogos alemães, dentre os quais Joseph Ratzinger, Walter Kasper e Karl Rahner –, de outro, às palavras de um grande arcebispo de Viena, o cardeal Franz König, que, nos anos do Concílio, do qual foi um dos protagonistas, recomendava aos seus fiéis leigos e aos que encontrava frequentemente ao sul de Brenner: "Quando tiverem qualquer coisa a dizer a respeito da Igreja, não esperem pelo bispo. Não esperem uma palavra de Roma. Falem quando acharem que devem fazê-lo, pressionem quando tiverem que fazê-lo. Todas as vezes em que tiverem oportunidade, informem o mundo e os católicos. Além disso, digam também tudo o que o povo e os fiéis esperam da Igreja. Desse modo, esse processo [o Concílio], que nasceu na esperança, não cairá na desilusão, mas terá uma realização magnífica".
A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada no sítio Vatican Insider, 10-05-2012.
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