Entrevista de Joana Gorjão Henriques a Alain de Botton (no jornal Público)
Depois do amor e do trabalho, o filósofo Alain de Botton
virou-se para a religião. Escreveu um livro em que propõe que o secularismo se
inspire em ideias religiosas para criar um mundo melhor. Conversa em Lisboa
Cresceu numa casa "agressivamente" ateia e acabou
por escrever Religião para Ateus (Dom Quixote).
Não se trata de um combate feroz à ideia da existência de
Deus, como outros o fizeram (o britânico Richard Dawkins, autor de A Desilusão
de Deus, é um deles).
É antes o reconhecimento de que, afinal, há vantagens em
fazer amizade com "o inimigo", o nome que aprendeu a dar à religião.
Alain de Botton (Zurique, 1969), de origem judaica,
conversou com o PÚBLICO num hotel em Lisboa, onde veio promover o seu livro
numa visita-relâmpago na semana passada.
Com uma camisa e olhos azuis claros, Botton, tantas vezes
chamado de filósofo do quotidiano por escrever sobre coisas como o amor, o
trabalho, a ansiedade, viagens, casas, felicidade, fala-nos pausadamente com um
sotaque britânico (vive em Londres há anos).
Tendo como tese principal que o mundo secular tem muito a
aprender com as religiões, o livro defende que o secularismo deveria mesmo
incorporar algumas das características fundamentais das religiões - como a
ideia de comunidade.
Botton confessa: "Não tenho qualquer sensibilidade para
o espiritual. Sou como algumas pessoas que não conseguem ouvir um som: não o
sinto."
Uma
das ideias fortes de Religião para Ateus é a "proposta" de
um templo para ateus - que chegou a ser projectado para o centro de Londres,
mas foi cancelado. Porquê um templo para ateus?É apenas uma ideia.
A minha
sugestão é que os arquitectos aprendem com a arquitectura religiosa. Uma das
coisas de que os ateus gostam é dos edifícios religiosos.
Porquê?
Não por causa de Deus, mas por causa da arquitectura.
Muitos
edifícios religiosos isolam-nos do barulho da cidade, colocam-nos num espaço
que é puro, de alguma maneira, que é mais silencioso, mais antigo, maior.
Isolam-nos
do quotidiano, ajudam-nos a ter tranquilidade e é disso que as pessoas gostam.
Como ateu que adora arquitectura, penso: porque é que só construímos estádios
de futebol ou bibliotecas ou supermercados ou aeroportos?
Porque
não temos edifícios onde vamos, não para comprar alguma coisa ou para comer,
mas para fazer qualquer coisa dentro de nós próprios, na nossa alma?
O que
é que as pessoas fariam lá? Quantas vezes por semana iriam?
Uma igreja
tem duas funções: a função da comunidade, um espaço onde as pessoas podem ir
regularmente, e uma função mais artística, por serem edifícios onde se pode
andar, ver imagens, olhar para as velas.
Há duas
formas de encarar a versão secular deste tipo de arquitectura. Uma é
construir-se um edifício cuja principal função é agregar pessoas, um centro
comunitário.
Os
edifícios comunitários deveriam ser os mais espantosos da sociedade moderna,
mas não são porque não acreditamos na ideia de comunidade. Por isso, uma das
ideias é investir tanto em centros comunitários quanto se investe numa igreja
ou num templo.
A outra
forma é usar os edifícios mais como uma obra de arte: vai-se visitar sem uma
agenda ou sem o objectivo de ir a um serviço religioso.A cidade moderna está
cheia de sítios onde as pessoas se encontram mas nunca falam umas com outras.
Há centenas de restaurantes, discotecas, concertos, espaços de conferências mas
nestes sítios nunca acontece algo fundamental que as religiões fazem: porem as
pessoas a falar umas com as outras.
Um
dos aspectos que aborda no livro é a solidão. Diz que todas as religiões
compreendem muito bem a solidão. Das três religiões que aborda - cristianismo,
judaísmo e budismo -, qual delas considera que retrata melhor a solidão?
Todas
reconhecem que uma das grandes soluções para as dificuldades da vida são as
outras pessoas.
É claro
que no mundo secular temos amigos, mas falta aquele sentimento de que não sou
apenas eu e o meu amigo mas eu e o grupo. Na grande cidade deixámos para trás a
ideia de pertencer a um grupo, e nesse aspecto as religiões são importantes,
são uma rede de apoio.
Isso é
uma das coisas poderosas que atraem as pessoas. Uma das minhas questões é: o
que é que acontece à nossa necessidade de comunidade quando ignoramos a
religião? O que é que acontece à nossa necessidade de confissão, de rituais? Em
muitos casos essa necessidade pura e simplesmente morre ou então é ignorada.
O
livro aborda nove aspectos: comunidade, bondade, educação, ternura, pessimismo,
perspectiva, arte, arquitectura, instituições. Porque é que escolheu estes como
os mais importantes?
Uma das
coisas que pensei foi: do que é que eu, como ateu, gosto nas religiões?
O que
acho útil para quem não tem qualquer interesse em tornar-se religioso mas tem
interesse em saber o que as religiões fazem bem? Não estou interessado nos
ensinamentos das religiões. É a organização das religiões que me interessa.
Há uma
organização genial no catolicismo. É extraordinário. São uma multinacional, uma
das maiores do mundo. É um negócio que tenta tocar na nossa alma e olhar por
nós.
E penso:
que negócios é que nós, ateus, temos direccionados para o nosso interior? Quem
está a tomar conta disto? Temos livros, temos museus... Mas a ambição é muito
fraca.
Houve
uma altura em que questionou o seu ateísmo, mas não a existência de Deus. Pode
descrever esse momento?
Fui
educado num ambiente agressivamente ateu. O meu pai era um pouco como Richard
Dawkins. Mas percebi que havia uma série de coisas boas à volta da religião.
Podia ser uma cantata de Bach, uma pintura de Giotto, A Cidade de Deus de
Santo Agostinho, um texto filosófico... E sentia-me culpado: é suposto eu
ser um ateu, era suposto eu odiar isto. Cresci com este sentimento tribal de
que a religião era o inimigo. Lentamente, tornou-se cada vez mais interessante
fazer amizade com o inimigo.
Era
uma forma de rebelião?
Era ao
mesmo tempo rebelião e lealdade. Lealdade para com o ateísmo e rebelião contra
alguma da visão afunilada do ateísmo em que cresci. É o percurso natural que
acontece em tantas áreas: mantemo-nos fiéis ao melhor da nossa educação mas
também tentamos abrir horizontes.
Compara
a arte com a religião e propõe que cada museu devia ter uma sala para a dor,
para o autoconhecimento, para o amor, para o medo, para o sofrimento. Que obras
de arte escolheria para cada uma dessas salas?
Pensemos
no amor. As relações amorosas são difíceis. Muitas vezes nas relações amorosas
damos connosco a pensar: "Estarei doido? O que é que se passa connosco?
Será que as pessoas discutem como nós?"
A
televisão não mostra este tipo de discussões, mas todos sabemos que dizemos
coisas sem sentido uns aos outros - mas sentimo-nos sempre muito sós nisto.
Quero que um fotógrafo moderno fotografe casais nos momentos reais da vida,
quando alguém diz: "Vai-te lixar", e bate com a porta.
Isto
acontece a pessoas muito porreiras. Quero ter numa legenda: estas duas pessoas
acabaram de dizer "vai-te lixar" mas são muito porreiras. Isso é uma
coisa que a arte nos devia ajudar a agarrar: não somos monstros por nos
comportarmos de maneira infantil e em pânico.
Devíamos
poder ir a um museu e reconhecermo-nos, para nos darmos outra oportunidade de
nos vermos a nós mesmos não como monstros. Isto é uma missão para a arte:
ajudar-nos, ser uma ferramenta, ter uma função. É como uma colher ou bicicleta.
Uma
das coisas que lhe interessa são as refeições como o momento de partilha e
comunidade. Imagina um restaurante parecido com a eucaristia - quais são as
características das comunidades religiosas que as comunidades seculares
deveriam absorver?
A mais
simples de todas é a ideia do anfitrião.
As
comunidades religiosas têm anfitriões, alguém que apresenta desconhecidos e
torna possível a comunidade. A maior parte das vezes não falamos com
desconhecidos porque lemos no jornal que são loucos, criminosos...
As
religiões dizem-nos que podemos apertar a mão a um estranho. Quando isso existe
há uma comunidade. É uma coisa tão simples, mas somos péssimos nisto. Se
viermos a Lisboa, o guia diz-nos para ir a um museu, mas não para falar com
desconhecidos.
O mundo
moderno não sabe como fazer isto. Estamos sozinhos por razões estúpidas e as
religiões têm respostas simples para isso.
Tentou
converter pessoas religiosas ao ateísmo com o seu livro?
De forma
alguma, nem por um minuto. Isso foi o que tentaram alguns como Richard Dawkins,
que acho cruel.
Parece-me
uma loucura convencer alguém a deixar de acreditar em Deus. O que quero tentar
é converter as pessoas que não acreditam em Deus a criar uma sociedade melhor.
Muitas das respostas para se criar uma sociedade melhor estão nas religiões,
mesmo que não se acredite nelas.
Já
sentiu pena de não ter fé, no sentido religioso?Não. Cresci de uma forma muito
ateia, nunca me passou pela cabeça pensar que se calhar devia ser religioso.
Sou como
alguns que não conseguem ouvir um som: não tenho sensibilidade nenhuma para o
espiritual, não o sinto. No outro dia, estava com um amigo, à noite, a olhar
para as estrelas. Ele é religioso e a dada altura pergunta-me: "Isto não
te faz pensar que há mais alguma coisa?" E eu respondi. "Não!"
Sou mesmo ateu.
Diz-se
que o milagre da fé é acreditar naquilo que não se vê, no desconhecido. Quem
não tem fé está a perder alguma experiência?
Gosto do
que os cristãos chamam o Mistério, com M grande.
É uma
categoria interessante. Gosto de muitos conceitos religiosos, mesmo que não
acredite neles, como o pecado original, que é fascinante. A ideia de que os
seres humanos têm falhas, que são imperfeitos, é muito interessante.
O
pressuposto de que as pessoas são imperfeitas e que temos de lidar com essas
imperfeições - as nossas e as dos outros - é um óptimo ponto de partida para a
vida social. Voltando ao que os cristãos chamam Mistério, a sensação da
presença de Deus: posso compreendê-lo e traduzi-lo em algo que conheço que é o
valor de estarmos em contacto com coisas que não percebemos.
Isso
pode ser matemática, as estrelas, coisas que vão além da nossa capacidade de
raciocínio. Não é um mistério religioso, mas é na mesma um mistério. Há muitos
mistérios para além dos mistérios religiosos.
Como
é que imagina Deus?
Imagino-o
como alguém que está presente, que olha por ti, que conhece a tua mente melhor
do que tu próprio. Alguém com quem se partilham problemas, que cria momentos
especiais de intensidade, e a sensação de um contacto directo com momentos de
revelação.
Imagino
que quem acredita tenha essa capacidade para admitir que está perdido e tem
esperança de que Deus o vai ajudar a encontrar o caminho. Tem a capacidade para
admitir tudo, de ser muito honesto com Deus - porque Deus vai perdoar, porque
Deus é amor e por isso nunca se está sozinho.
Imagino
que isso saiba muito bem. Simplesmente não me parece plausível.



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