D. Demétrio Valentini
(Conferência
feita no dia 11 de maio de 2012, na Semana Teológica de Recife)
Introdução
Para desenvolver a reflexão de hoje, proponho que
façamos como os discípulos de Emaús. Vamos percorrer o processo conciliar. Ao
longo do caminho irá emergindo a eclesiologia do Vaticano Segundo, com a
vantagem de percebermos suas diversas dimensões, contextualizadas na dinâmica
conciliar, para assim captar melhor o impacto que tiveram.
Ao longo do caminho, como os discípulos de Emaús,
nosso coração também poderá arder de entusiasmo pela Igreja imaginada pelo
Concílio. Sem esquecer que ela é chamada a viver o mistério pascal, em que nem
tudo acontece de acordo com as nossas expectativas, como os discípulos de Emaús
experimentaram vivamente.
I - A Igreja sonhada por João XXIII
Vamos iniciar nossa caminhada, conferindo os sonhos de
João 23. Para isto, vamos recuperar algumas breves passagens do seu famoso
discurso de abertura do Concílio no dia 11 de outubro de 1962. Começamos por
captar sua alegria, seu entusiasmo, e sua confiança, com as palavras iniciais,
que ainda parecem ecoar sonoras na basílica do Vaticano: “Gaudet Mater
Ecclesia”:
“Alegra-se a Mãe Igreja, porque, por singular dom da Providência
divina, amanheceu o dia tão ansiosamente esperado em que solenemente se
inaugura o Concílio Ecumênico Vaticano II, aqui, junto do túmulo de São Pedro,
com a proteção da Santíssima Virgem, de quem celebramos hoje a dignidade de Mãe
de Deus.”
Como não se cansava de dizer, João 23 fazia questão de
deixar registrada sua convicção de que o Concilio era obra de Deus, tinha sido
inspirado pelo Espírito Santo:
“Foi
algo de inesperado: uma irradiação de luz sobrenatural, uma grande suavidade
nos olhos e no coração. E, ao mesmo tempo, um fervor, um grande fervor que se
despertou, de repente, em todo o mundo, na expectativa da celebração do
Concílio.”
A Igreja sonhada por João 23 devia ser um sinal de
alegria e de esperança para toda a humanidade.
Calaram fundo as palavras do Papa sobre a nova postura
que a Igreja devia ter diante dos erros que podem surgir. Disse ele
textualmente:
“A Igreja sempre
se opôs aos erros; muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Agora,
porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o
da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a
validez da sua doutrina do que renovando condenações.”
Então o Papa pronuncia estas palavras
proféticas, que de certa maneira identificavam a Igreja que o Concílio iria
definir. Disse ele:
“Assim sendo, a
Igreja Católica, levantando por meio deste Concílio Ecumênico o facho da
verdade religiosa, deseja mostrar-se mãe
amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade também com
os filhos dela separados.”
E conclui seu discurso propondo o cenário
que envolvia o céu e a terra, convergindo para os bispos reunidos em concílio,
a quem ele transmitia suas sábias recomendações:
“
Pode dizer-se que o céu e a terra se unem na celebração do Concílio: os santos
do céu, para proteger o nosso trabalho; os fiéis da terra, continuando a rezar
a Deus; e vós, fiéis às inspirações do Espírito Santo, para procurardes que o
trabalho comum corresponda às esperanças e às necessidades dos vários povos. Isto requer da vossa parte serenidade de
espírito, concórdia fraterna, moderação nos projetos, dignidade nas discussões
e prudência nas deliberações.
Já no discurso de abertura podemos
identificar os traços característicos da visão de Igreja proposta pelo
concilio: uma Igreja sacramento de
salvação da humanidade, misericordiosa, mãe amorosa de todos, pronta e atenta
para agir com prudência e bondade.
Mas iniciemos agora o percurso do Concílio,
aberto com este discurso tão animador.
II
– A emergência do tema no Concílio
Ao longo da preparação, e mesmo nos
primeiros debates, não estava claro qual deveria ser o núcleo central deste Concílio,
sua mensagem principal, afinal o seu perfil, o seu recado, a sua razão de ser.
A dispersão temática podia ser flagrada na
multiplicidade de esquemas preparatórios. Passavam de 70. Este número generoso,
de um lado, refletia o grande interesse suscitado pelo anúncio do concílio, e o
intenso envolvimento eclesial, estimulado pelo pedido de sugestões, que foram
dadas com generosidade, e recolhidas em doze volumes. Mas denotava falta de
articulação, de um fio condutor, que só seria identificado através dos debates
conciliares.
Foi providencial a escolha do esquema sobre
a Liturgia para dar início aos trabalhos. Era o esquema mais maduro, com boa
fundamentação teológica, e com propostas bem concretas, em torno de um assunto
de evidente proximidade de todos os padres conciliares.. A discussão deste
esquema permitiu aproximar os bispos, atualizar o seu latim, que se tornou uma
espécie de “koiné diálectos” para o suficiente entendimento entre eles. E
mostrou com muita evidência a necessidade da renovação, idéia inspiradora de
todo o Concílio, proposta com insistência por João 23.
Terminada a primeira abordagem do esquema
sobre a Liturgia, aconteceu um fato muito importante, que de certa maneira
traçou os rumos do Concílio.
Foi a rejeição do esquema “De fontibus
revelationis”. Era o segundo esquema proposto para estudo. Suscitou logo muitas
resistências, por expressar ainda atitude condenatória frente aos protestantes,
em contraste com o espírito proposto no discurso de abertura, e com as
expectativas de aproximação ecumênica que o anúncio do Concílio tinha despertado.
Levado à votação, expressiva maioria se
mostrou contrária ao documento, pedindo sua substituição. Mas faltaram poucos
votos para atingir os dois terços necessários para rejeitar um esquema, de
acordo com o regulamento.
Foi então que João 23 interveio pela
primeira vez nos trabalhos conciliares, mandando substituir o esquema por outro
mais de acordo com as expectativas ecumênicas.
O fato teve grande repercussão, e
conseqüências práticas muito determinantes, pois de certa maneira conformou uma
expressiva maioria conciliar, feita dos que tinham votado contra o documento, e
acrescida de muitos outros bispos que no gesto do Papa perceberam que ele não
se prendia aos esquemas preparatórios, muitos deles vazados ainda em linguagem
da contra-reforma. A partir daí, as votações encontraram um claro critério de
posicionamento, que atravessou todo o concílio.
Alguns historiadores chegam a identificar naquele
gesto do Papa o término do período histórico da “contra-reforma”. Ela teria se
encerrado no dia 20 de novembro de 1962, data da decisão de João 23 de mandar
retirar o polêmico esquema sobre “as fontes da revelação”.
Aí entrou para a análise o esquema sobre a
Igreja. Foi então que à luz do clima conciliar já consolidado, emergiu com
muita clareza que o Concílio tinha chegado ao “poço de Jacó”, tinha
identificado o tema que o justificava, o assunto articulador de todos os outros,
o fio condutor que estava faltando.
Entre as diversas vozes dos padres
conciliares que ressaltavam a importância de uma nova abordagem da Igreja, se
destacou a intervenção do Cardeal Montini, o futuro Paulo VI. Ele sublinhou a
centralidade do tema, cujos debates estavam iniciando.
Àquela altura, já não havia mais tempo
para aprofundar o assunto, pois se esgotava o período previsto para a primeira
sessão. Mas se conseguiu uma clareza meridiana sobre as temáticas a serem abordadas
pelo Concílio. Elas deveriam girar em torno deste tema central.
De modo que a primeira sessão conciliar
terminava sem nenhum documento, mas com os objetivos do Concílio definidos mais
claramente.
E´ muito importante perceber o contexto em
que o tema “Igreja” emergiu, num clima de ecumenismo, e na esperança de uma
grande renovação da Igreja.
Portanto, já iam se definindo os contornos
da Igreja que o nosso tempo pedia: engajada na renovação, aberta à causa
ecumênica, comprometida com a unidade dos cristãos.
Antes do debate sobre a Igreja, o Concílio
já balizava os seus contornos, que depois seriam explicitados pelos documentos
redigidos e aprovados.
A Igreja pensada pelo Concílio deveria ser
uma Igreja comprometida com sua renovação, e engajada na causa ecumênica.
III – A
centralidade do tema Igreja - A constelação eclesial
No intervalo entre a primeira e a segunda
sessão, enquanto João 23 ainda estava vivo, foram tomadas decisões muito
importantes. A principal delas consistiu na reformulação completa de todos os
esquemas preparatórios, no sentido de aglutinar as temáticas semelhantes,
reduzir sua extensão, clarear sua organicidade.
De tal modo se reduziu o número de
esquemas, que de setenta passaram a pouco mais de dez, ficando em aberto a
emergência de temas novos, que poderiam ainda surgir.
Da reformulação dos esquemas resultou
evidente a centralidade do tema Igreja. De tal modo que se desenhou uma espécie
de “constelação solar”, em que o assunto IGREJA estaria no centro do sistema,
com seus diversos satélites girando ao seu redor.
Antecipando agora um breve olhar sobre esta
constelação, e apresentando-a na forma dos títulos dos 16 documentos
conciliares, temos a Lúmen Gentium como centro do sistema, em seguida as outras
três “constituições”, os nove “decretos”, e as três “declarações”, como os
quinze satélites girando em torno da grande estrela solar, que é a Lúmen
Gentium, o documento conciliar sobre a natureza e a missão da Igreja.
Assim, o Concílio Vaticano Segundo se
caracteriza, claramente, como um concílio “eclesiológico”,
como os primeiros quatro grandes concílios foram claramente “cristológicos”: o
Concilio de Nicéia em 325, o de Constantinopla em 380, o de Éfeso em 431, e o
de Calcedônia em 451.
Neste contexto podemos antecipar uma
observação importante sobre a validade e a vigência deste concílio. Se os
primeiros quatro abordaram um tema bem mais unitário, e assim mesmo retomado
quatro vezes, em quatro concílios subseqüentes, mais compreensível se torna
agora a necessidade de retomar os temas abordados pelo Vaticano Segundo, para aprofundar
sua compreensão, e sobretudo perceber os enfoques diferenciados que o tema
Igreja pode assumir, dependendo dos diferentes contextos em que a Igreja pode
se concretizar.
O fato evidente é que este Concílio abordou
um tema muito vasto, profundo, dinâmico, e multi-facetado.
O Vaticano II colocou em questão a Igreja.
Em torno dela, colocou os fundamentos sólidos, expressos pela Lúmen Gentium. Agora,
“cada um veja como constrói sobre este fundamento” (1Cor 3, 10).
Tendo nascido sob o impulso do ecumenismo,
que apela para a unidade, ao mesmo tempo este Concílio coloca, como decorrência
de sua opção ecumênica, a importância de acolher dentro da unidade fundamental,
a indispensável diversidade eclesial, a ser corretamente entendida e
concretizada.
IV - Igreja Povo
de Deus – a revolução copernicana na eclesiologia
Iniciado
na primeira sessão, o tema “ Igreja” foi estudado na segunda, em 1963. Aí ele
foi adquirindo aos poucos a fisionomia que o documento Lúmen Gentium agora
apresenta, e que seria aprovado no final da terceira sessão.
A forma inicial do esquema era bem
tradicional e estreito. Apresentava a Igreja de forma piramidal, com três
capítulos centrais: a hierarquia, os religiosos, os leigos.
Era
evidente a estreiteza do esquema, que precisava ser superada, para acolher uma
visão de Igreja mais abrangente. Era forçoso, sobretudo, desfazer a visão
piramidal, que já não se coadunava com a crescente compreensão da hierarquia
como um serviço feito aos irmãos na fé.
Foi
neste contexto de busca de uma Igreja mais fraterna, mais humana, mais simples,
mais comunitária, e ao mesmo tempo mais evangélica, mais autêntica, mais de
acordo com o testemunho positivo das primeiras comunidades cristãs descritas
nos Atos dos Apóstolos, que surgiu a idéia luminosa, de descrever a Igreja como
Povo de Deus.
Entre diversos Padres Conciliares que
intervieram, destacou-se a intuição apresentada pelo Cardeal Döpfner, de
Munique. Ele propôs muito simplesmente que antes de falar de categorias
especiais dos membros da Igreja, se falasse de modo abrangente de todos os
membros, em sua igualdade fundamental e na mesma dignidade de filhos de Deus.
Propôs então que se introduzisse um novo
capítulo, precedendo aos três tradicionais, apresentando a Igreja na categoria
bíblica de Povo de Deus.
A idéia foi prontamente assumida, e o
gesto foi interpretado como expressão concreta, assumida pelo Concílio, para
fundamentar uma visão de Igreja que superasse todas as discriminações, e
viabilizasse a integração de outros valores evangélicos, que a vivencia cristã
iria apresentando.
Esta
opção de privilegiar a visão de Igreja como Povo de Deus teve tanta repercussão
do Concílio, que ela se assemelhou à famosa “revolução copernicana”, quando a
humanidade se deu conta, ajudada por Copérnico, que não era o sol que girava ao
redor da terra, mas a terra que girava ao redor do sol.
Assim a centralidade da Igreja não estava na
hierarquia, mas no Povo de Deus, que inclui todos os membros da Igreja, de
maneira igualitária e fundamental, e a serviço do qual está a hierarquia.
Com a introdução do capítulo sobre o Povo
de Deus, o Concílio fazia a clara opção de uma visão bíblica e ao mesmo tempo
histórica da Igreja, possibilitando situar a Igreja no contexto da caminhada da
humanidade, no leque amplo de relacionamentos diversos e concretos que podem
ser suscitados.
A visão de Igreja Povo de Deus possui no
Vaticano Segundo uma centralidade, cujo alcance pode escapar a uma análise
superficial da eclesiologia do Vaticano Segundo.
É a partir da visão da Igreja como Povo de
Deus que se situam, de maneira integrada, as outras dimensões da Igreja, que
são colocadas ao longo dos atuais oito capítulos da Lúmen Gentium. O Capítulo
Segundo tem uma centralidade dinâmica. Possibilita situar a Igreja no seu
relacionamento histórico com a diversidade de “povos, línguas e nações”, afinal,
na sua encarnação concreta e na sua vizinhança com a realidade histórica da
humanidade.
Por isto, parece equivocada a
interpretação divulgada a partir do Sínodo especial comemorativo dos 20 anos do
Concílio, em 1985, que teria relativizado a visão de Igreja Povo de Deus, para
ressaltar a dimensão de Igreja como mistério de comunhão.
A afirmação do Concílio, para ser bem
entendida, precisa ser situada no contexto histórico em que foi formulada. Ela
serviu para fundamentar uma nova visão de Igreja, que vinha ao encontro das
grandes expectativas de renovação eclesial, que o Concílio tinha desencadeado.
Por
isto, a importância da visão de Igreja como “Povo de Deus”, vai além do
conteúdo desta afirmação, pois era vista e tida como símbolo da nova visão de Igreja
que estava surgindo do Concílio. O Concílio estava propondo uma Igreja “Povo de
Deus”!
V – Visão includente
de Igreja
A visão de Igreja Povo de Deus atravessa
todos os documentos conciliares, e revela uma insistência proposital. Sempre
que se fala de Igreja, ou de uma dimensão relativa à vida da Igreja, logo se
ressalta a universalidade eclesial, que a visão de Povo de Deus facilita.
Disto resulta uma espécie de precaução do
Concílio, para expressar claramente que “todos somos Igreja”, e que os dons
concedidos à Igreja são destinados a todo o povo de Deus.
Assim, por exemplo, na própria Lúmen
Gentium, antes de falar dos religiosos, que possuem a vocação de testemunhar a
santidade da Igreja, o Concílio tomou a providência de anteceder ao capítulo
sobre os religiosos, o capítulo sobre a vocação universal à santidade
Na Presbyterorum Ordinis, ao falar do
“sacerdócio ministerial”, concedido a alguns, faz questão de ressaltar a
importância do “sacerdócio comum” a todos os fiéis, ao serviço do qual está o
sacerdócio ministerial.
De tal maneira que a afirmação da Igreja
como Povo de Deus, precedendo o capítulo sobre a hierarquia, se tornou paradigma
da abordagem de todas as outras dimensões eclesiais, para enfatizar sua
destinação a todos os membros da Igreja.
À
luz desta opção, compreende-se melhor a decisão tomada pelo Concílio, por votação,
de incluir na Lúmen Gentium o documento sobre a Virgem Maria Mãe de Deus. Em
vez de um documento especial, aguardado por alguns com grande expectativa, o
Concílio preferiu insistir também a propósito de Nossa Senhora, enfatizando que
ela também está situada no “mistério de Cristo e da Igreja”.
VI – Colegialidade
Episcopal: uma Igreja corresponsável e participativa
Ao lado da importância da visão de Igreja
como Povo de Deus, o Vaticano II enfrentou a questão da Colegialidade
Episcopal, de grande peso teológico, que estava pendente desde o Vaticano
Primeiro.
Colocado
o capítulo sobre a hierarquia depois do capitulo sobre o Povo de Deus, ficou
mais fácil de compreender a hierarquia como um serviço ao Povo de Deus, e
partir daí entender sua importância, e sua missão específica.
Neste
Capitulo, de maneira mais destacada, o Concílio analisa e define a natureza e a
missão do Episcopado, entendido como um sacramento com dimensão eclesial muito
clara e fundamental.
Atenta ao formato que Cristo deu ao seu
grupo de Apóstolos, a Igreja faz questão de ressaltar sua continuidade, na
mesma comunhão e na mesma missão. A missão confiada aos doze, comporta a
comunhão e a igualdade entre eles, e ao mesmo tempo a missão própria confiada a
um deles, Pedro, a serviço da unidade e da fidelidade de todos os outros.
E´ o que a Igreja professa em forma de
“primado e colegialidade”, que o Vaticano Segundo expressou e definiu
claramente.
Para a vida da Igreja são indispensáveis
tanto a dimensão de colegialidade, como a dimensão de primado. Ambas estão a
serviço da comunhão eclesial e da fidelidade a Cristo.
Quando se rompe este equilíbrio entre
Primado e Colegialidade, a Igreja fica exposta a rupturas, fáceis de irromper e
muito difíceis de superar depois de implantadas.
Durante o Concílio, um bispo ortodoxo
católico apresentou sua leitura histórica das grandes divisões acontecidas na
Igreja, como decorrentes do exercício inadequado da colegialidade episcopal e
do primado. Segundo ele, a ruptura com os ortodoxos, em 1054, se deu por não
terem valorizado o primado. Foi enfatizada demais a colegialidade.
Depois, o Ocidente, deixado só como o
exercício do primado, levou à ruptura protestante, pela carência de uma
colegialidade vivida a serviço da salutar descentralização da Igreja, que
poderia ter acontecido sem a ruptura protestante.
Não é o caso de discorrer aqui sobre as
múltiplas decorrências que poderiam advir de uma prática mais adequada da
Colegialidade Episcopal. Ela simboliza a corresponsabilidade eclesial, com o
incentivo para a participação de todos na vida e na missão da Igreja.
Mas no mínimo é conveniente ressaltar que
da reta visão da colegialidade, e da visão da Igreja como Povo de Deus, derivam
as grandes intuições pastorais do Concilio Vaticano Segundo.
Em especial, a importância das Igrejas
Locais, como concretizações da Igreja nas realidades onde ela se insere, na
diversidade de raças e culturas.
Igualmente a importância das comunidades
eclesiais, onde o Evangelho pode ser vivido na prática da convivência cotidiana
e da inserção no mundo.
Sem dúvida, um bom ponto de partida para
uma avaliação do Concílio, seria conferir como é praticada a colegialidade
episcopal.
VII – Uma Igreja
inserida no mundo
No intervalo entre a primeira e a segunda
sessão foi feita a drástica redução dos esquemas, integrando seus assuntos em torno
do tema central da Igreja. Mas logo foi se percebendo que faltavam alguns
assuntos importantes, relativos a realidades de ordem econômica, social e
cultural.
Na medida que estas questões emergiam, foi
se percebendo a necessidade de agrupá-las, num esquema especial, que recebeu o
nome de “esquema treze”, em vista do número de esquemas já consolidados.
Assim é que os assuntos, que a partir da
Rerum Novarum vinham sendo integrados no patrimônio da “Doutrina Social da
Igreja”, foram retomados pelo Concílio, num esquema especial, na tentativa de
atualizá-los e colocá-los em sintonia com contexto conciliar. Destes assuntos
resultou o documento Gaudium et Spes, sobre “A Igreja no mundo de hoje”.
Com isto, a visão de Igreja do Vaticano
Segundo, ficou enriquecida com a descrição de suas relações com a comunidade
humana.
Com este documento o Concílio propõe uma
Igreja servidora da humanidade, inserida na sociedade, e solidária com as
causas da justiça e da paz.
A solidariedade da Igreja com o empenho
pelo desenvolvimento integral “do homem todo e de todos os homens”, iria ficar
para a encíclica pós-conciliar Populorum Progressio, seguindo o conselho levado
a Paulo VI por Dom Helder e outros bispos. Pois já não havia, na quarta sessão,
clima favorável para incluir na Gaudium et Spes todas as dimensões que seria
conveniente ponderar com mais calma, passado o sufoco dos intensos trabalhos da
última sessão conciliar.
Conclusão
Olhar o Concílio na perspectiva de sua
eclesiologia, é mergulhar no seu caudal mais rico e mais profundo. Depois de
vinte séculos, a Igreja se reuniu em concílio, para reencontrar sua identidade,
à luz do Evangelho de Cristo e do testemunho da Igreja Primitiva, e reassumir
sua missão diante do mundo para o qual Cristo a envia hoje.
Dom Helder foi talvez a pessoa que
vivenciou mais intensamente este vasto acontecimento. Tendo vivido intensamente
o Vaticano Segundo, ele sonhava com o Jerusalém Segundo para atualizar a Igreja
de Cristo na virada do milênio.
O jubileu do milênio já aconteceu. Mas não
aconteceram certamente, todos os sonhos de uma Igreja renovada, fraterna,
despojada de superficialidades, e pronta para a missão.
Estamos celebrando os 50 anos da abertura
do Concílio. Ele desencadeou um clima de intensa participação e protagonismo de
todos. Como retomar este protagonismo, e como nos sentir de novo envolvidos na
renovação da Igreja?
Quem sabe poderemos partilhar um pouco
nossas esperanças e nossas apreensões, prosseguindo agora nossa conversa de
maneira aberta e participativa.

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