Por Thomas Seiterich, teólogo, historiador e sociólogo alemão.
Publicado no sítio Publik-forum.de, 15-09-2012.
tradução de Moisés Sbardelotto.
A Igreja Católica deve sair da crise. Isso só pode acontecer
com uma nova cultura de diálogo entre o "alto" e o "baixo".
Por isso, Robert Zollitsch (na foto), arcebispo de Friburgo e presidente da Conferência
dos Bispos da Alemanha, como especialista comunicador e líder eclesiástico, deu
início a um processo de diálogo. Isso aconteceu em pleno desastre de 2011,
quando a reputação e a credibilidade da Igreja Católica estavam em seus mínimos
históricos, depois da descoberta de diversos abusos sexuais de crianças por
parte de padres, ocultados por anos pelas autoridades eclesiásticas.
O que fazer? Em Hanover, encontraram-se no último fim de
semana 16 bispos diocesanos e 17 bispos auxiliares com cerca de 300 delegados
da Alemanha católica. Os delegados, em sua maioria homens de idade madura,
muitos deles empregados de associações (incluindo algumas mulheres) já viveram
conflitos eclesiásticos e superaram crises.
Esses delegados aplaudem surpresos e felizes quando o bispo
Franz-Josef Overbeck, que acompanha o processo de diálogo como representante
dos pastores conservadores, no seu discurso de abertura, se expressa a favor da
"necessária multiplicidade das condições de vida" na Igreja e na
sociedade. Overbeck se concentra sobre a coabitação de pessoas do mesmo sexo e
fala com respeito sobre gays e lésbicas. Diz que eles são bem-vindos na Igreja.
Sobre as uniões homossexuais, ele diz: "Embora a Igreja
não possa reconhecer essa forma de vida como instituição, a Igreja proíbe
qualquer difamação e rejeição de pessoas com predisposição homossexual".
Para dar fundamentação a essa posição aberta, Overbeck cita as passagens do
catecismo católico que proíbem toda discriminação de gays e lésbicas.
Esses são novos tons. O que um bispo de província poderia
dizer de mais acolhedor? A doutrina restritiva é formulada no Vaticano. Com
relação a isso, Dom Overbeck não pode fazer nada. Mas nas rédeas da doutrina
romana, ele enfatiza o traço mais aberto e mais humano. Uma técnica de diálogo
usada também pelo novo cardeal de Berlim, Rainer Maria Woelki.
Franz-Joseph Bode, bispo de Osnabrück, um dos mais abertos
entre os pastores, recebe um aplauso espontâneo pela sua posição sobre a
questão mais urgente na Igreja, isto é, o modo de se posicionar com relação aos
divorciados em segunda união. Bode defende que a Igreja deve buscar uma maior
proximidade com as pessoas, mesmo com aquelas que não necessariamente
correspondem às normas da Igreja: "A exclusão geral e duradoura dos
divorciados em segunda união dos sacramentos parece ser a muitos dentro da
Igreja uma conclusão intolerável". Depois dos aplausos, Bode acrescenta:
"Precisamos de uma nova discussão, diferenciada e aprofundada, sobre a
doutrina sexual da Igreja".
Cento e quarenta e quatro delegados comentam – em sua maior
parte, aprovando – a intervenção de Bode, por meio dos iPads postos sobre as
suas mesas de oito. Overbeck também receb muita aprovação após o seu discurso
em 132 comentários.
Por fim, o cardeal de Munique, Reinhard Marx, salienta que o
compromisso social e político pertence "irrenunciavelmente às
características fundamentais da Igreja" e é "algo essencial, não
menos importante do que a celebração da missa e do anúncio da fé". Essa é
uma afirmação forte contra aqueles católicos tradicionalistas que querem se
retirar ao chamado "núcleo fundamental" e pavidamente dizer adeus ao
mundo, apoiados por uma interpretação incompleta do discurso da Entweltlichung
(desmundanização) do Papa Bento XVI em setembro de 2011, em Friburgo.
O que vai acontecer depois de Hanover? Cerca da metade dos
bispos diocesanos não participou – assim como no encontro de início, em
Mannheim, na metade do ano passado. Os conservadores e os desconfiados
continuam distantes. O processo de diálogo deveria, portanto, aprofundar os
conflitos dentro da Conferência Episcopal.
No entanto, metade dos pastores se empenha pela abertura ao
mundo de hoje. Isso é muito importante em uma situação de previsões
pessimistas, já que não são poucos na Igreja que têm uma ardente nostalgia pelo
"pequeno e dócil rebanho".
Com razão as mulheres e os homens que representam o povo de
Deus estão impacientes. Em Hanover, assim como no ano passado em Mannheim, eles
ouviram dos bispos palavras que soam positivamente. Mas não podemos nos limitar
às palavras. Em particular para as centenas de milhares de divorciados em
segunda união, é preciso uma sacudida – senão em toda a Igreja católica alemã,
ao menos nas dioceses mais abertas. Os bispos prometeram se ocupar intensamente
disso. Também querem organizar em 2012 uma jornada de estudos sobre a questão
da mulher na Igreja.
Até este ponto, a reunião do católicos em Hanover envia um
claro sinal de vida. No entanto, não se sabe se se chegará à necessária
sacudida, se crescerá a coragem para chegar a isso.

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