Festejar os 50 anos do Concílio com Carlo Maria Martini no coração


 

"“Como se podem libertar as brasas das cinzas de modo a fazer renascer a chama do amor? Em primeiro lugar, devemos procurar essa brasa", escreve Giacomo Costa, jesuíta, diretor da revista Aggiornamenti Sociali, em editorial publicado na edição setembro/outubro 2012, ao recordar o 50º aniversário do início do Concílio Vaticano II e a morte de Carlo Maria Martini.
A tradução é de Benno Dischinger.
A um mês da ocorrência do quinquagésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II (11 de outubro de 1962), a morte do cardeal Carlo Maria Martini envolveu-nos profundamente. Martini que, na época do Concílio, tinha aproximadamente 35 anos, não foi um padre conciliar. Iniciado na fé e ordenado sacerdote antes do Vaticano II, todavia, viveu profundamente o espírito. Soube, com suas maneiras sóbrias e autênticas, tocar-nos profundamente e deixar-nos um estímulo sobre como lidar com a vida da Igreja e sua relação com a sociedade.
Queremos deixar-nos inspirar por sua figura na nossa reflexão sobre uma celebração que seria simplista compreendê-la de modo apenas “protocolar”. Reconhecer a distância histórica que separa o Concílio permite valorizá-lo como ponto de referência imprescindível para entender e definir os pontos cruciais da vida da Igreja no mundo. Entre esses, abordaremos a questão da identidade, da “diferença” cristã, fonte de tensões e incompreensões: qual é a contribuição específica que a fé cristã pode dar ao mundo de hoje? E, sobretudo, qual é o modo mais eficaz de propô-la? Martini, com liberdade interior, fruto da comparação com a Palavra e, por isso, mestre fiel ao único Mestre, guiou-nos por anos nessa estrada, mostrando como fidelidade e abertura se enriquecem reciprocamente. Como avançar hoje?
1. A distância correta do Concílio
Há cinquenta anos da abertura do Concílio, a lembrança da excitação e da emoção daqueles anos fica sempre cada vez mais tênue. Também os movimentos que, dentro da Igreja, prepararam o terreno para a assembleia conciliar no campo bíblico, litúrgico, catequético, apostólico, enfraqueceram. Sobretudo, para os nascidos depois da metade do século passado, o Concílio pertence à história tanto quanto o Renascimento, ou como a queda do Muro de Berlim, para aqueles que têm menos de trinta anos. Os relatos, ainda que entusiásticos, dos que viveram aquela época, assim como a leitura dos textos do Concílio ou das reflexões teológicas não consentem, no entanto, um acesso eficaz à força explosiva do evento Concílio: porque nasceram e cresceram depois, com a liturgia na língua italiana ou com uma catequese não mais formulada por intermédio de perguntas e respostas (para mencionar somente dois elementos imediatamente perceptíveis), a Igreja de antes do Concílio é simplesmente inimaginável. Na verdade, o Vaticano II mudou de modo irreversível o mundo e o nosso modo de concebê-lo, a despeito de muitos debates sobre sua recepção e da integralidade de sua implementação.
Essa constatação leva-nos a considerar por agora concluída a fase da primeira recepção ou da aplicação do Vaticano II. Em outras palavras, a celebração do quinquagésimo aniversário pode representar o momento de assumir plenamente a “historicização” do Concílio, já começada pelos estudiosos, não para afastá-lo do olhar ou inseri-lo entre as relíquias do passado, mas para abrir novamente os tesouros com um método diferente, evitando leituras parciais que o transformem – como já está acontecendo – em um repertório de possíveis citações para apoiar o que todos pensam da Igreja. É importante que as novas gerações, que não viveram diretamente o Concílio nem nos tempos “heroicos” e conflitantes no rescaldo de seu fechamento, possam lidar com ele como entidade acabada, para interrogarem-se sobre o que pode hoje representar para a vida da Igreja.
Isso não significa um certo desvalorizar do valor nominal do Vaticano II, mas abri-lo para uma compreensão da sua recepção que conjuga e articula a experiência querigmática, feita no solo das igrejas locais, e a prossecução de um processo de interpretação do Evangelho em uma perspectiva ao mesmo tempo cultural e ecumênica. Renunciar à chave da “aplicação” implica uma mudança de mentalidade, uma reapropriação do Concílio por parte das comunidades eclesiais, assumindo o espírito para permitir uma adesão interiorista corpus, portanto envolvendo a experiência dos sujeitos receptores. Esse processo requer respeitar a circularidade não somente entre o Concílio e os receptores de hoje, colocados em um universo cultural diferente, mas também entre esses dois “polos” e a longa tradição da Igreja. Trata-se de um desafio difícil, pois que são três polos que não se sustêm em si próprios, mas sempre em relação aos outros dois. Por exemplo, se a distância histórica permite novamente uma releitura diferentemente fecunda dos textos conciliares, a referência ao Vaticano II consente interpretar teologicamente o contexto de hoje. Ou ainda: de um lado, a longa tradição do cristianismo esclarece-se à luz da relação que, com ela, estabelece o Vaticano II; de outro lado, essa mesma tradição – com a condição de respeitá-la em toda a sua riqueza e complexidade – dá às medidas tomadas pela Igreja durante e depois do Concílio o seu verdadeiro significado teológico. Sob esse prisma, a disputa sobre a continuidade ou a ruptura do Concílio no que diz respeito à tradição parece completamente secundária.
2. Ouvir o Espírito do Concílio
Nessa perspectiva, a recepção do Vaticano II cinquenta anos após sua celebração supera a questão da aplicação, mais ou menos literal, dos seus textos, e impele toda a Igreja, tanto os próprios crentes como a comunidade, a perguntarem-se novamente sobre o próprio modo de estar presente no mundo contemporâneo, que já se tornou tão diferente daquele dos anos 1960, a ponto de fazer soarem obsoletas algumas passagens do Concílio. Apesar dos limites evidentes do espaço à nossa disposição, parece-nos interessante tentar mostrar como os próprios textos do Concílio sugerem e, de fato, embasam teologicamente esse processo, além da letra das determinações mais pontuais.
De acordo com o Vaticano II, de fato, a revelação de Deus aos homens não é como ainda o fora no Vaticano I (1869-1870), um conteúdo – das verdades a acreditar ou dos preceitos morais a serem cumpridos –, mas uma experiência, um evento de encontro, de relação, de comunicação, de troca. Deus “no seu grande amor fala aos homens como a amigos, e convive com eles, para convidá-los e recebê-los em comunhão com Ele” (Dei verbum, n. 2). Para que esse diálogo seja autêntico, é necessário que Deus se coloque ao nível do homem, que se coloque completamente na relação que mantém com os crentes. Por essa razão, não nos revela os conteúdos ou as verdades. Em Jesus Cristo, Ele tem apenas uma coisa para comunicar: Ele próprio como mistério absoluto e como fim último do homem. Os seus parceiros, os homens, são convidados a entrar na mesma sintonia: a sua resposta, a fé, consiste no “abandonar-se inteira e livremente” a Ele que se volta para eles. A raiz última desse dom de si, dessa oferta livre dos crentes é a consciência (cf. ibidem, n. 5), enquanto as fontes dessa experiência de Deus são as Escritura e a tradição (cf. ibidem, n. 7).
Partindo dessa compreensão da revelação como o relacionamento de Deus com o homem, o Concílio redefine a relação que a Igreja tem com os “outros”, com o mundo. Primeiro, entre os Concílios, aborda de maneira sistemática as relações ecumênicas na Unitatis redintegratio, as relações com as religiões não cristãs na Nostra aetate, e as relações com o ateísmo na Gaudium et spes, documento em que a Igreja leva completamente em consideração o seu modo de estar na sociedade contemporânea. Em jogo estão a credibilidade da Igreja e a sua fidelidade ao modo como Deus respeita os seus interlocutores.
A concepção “relacional” da revelação desdobra os seus efeitos também no campo pastoral, na forma ordinária de conceber e implementar o processo de anunciação e transmissão da fé. O “caráter pastoral” foi elemento qualificador do Concílio desde sua proclamação por João XXIII, mas, com o proceder dos trabalhos, isso não é mais compreendido como simples tradução de uma doutrina pré-constituída na linguagem do mundo contemporâneo; trata-se, antes, de entrar em um diálogo entre seres livres colocando-se totalmente em jogo, seguindo o modo de fazer do próprio Cristo. Esse processo é paradigmático para os crentes em todas as situações culturais e históricas. Não é, portanto, uma doutrina “feita e finita” para expor e aplicar, nem tal querem ser os decretos do Vaticano II: a prática pastoral é uma relação viva e criativa com os destinatários da mensagem evangélica. Está em jogo a coerência entre o que é transmitido (a autocomunicação de Deus na relação com os homens e sua resposta), e o modo de fazê-lo. Com a garantia do Espírito, a fidelidade não vai ser encontrada na repetição mecânica de uma doutrina. Acreditar que seja possível renovar a linguagem tradicional da fé e o modo de propô-la assim, para torná-la acessível e atraente em um contexto cultural mudado, como se tratasse de mudar a etiqueta ou a confecção do produto sem qualquer relação como seu conteúdo não é somente pura ilusão, mas é também extremamente problemático do ponto de vista teológico.
3. A diferença Cristã
Como bem sabemos, essa configuração suscitou interpretações e reações contrastantes. De um lado, o Concílio valorizou-se para a comparação livre e honesta com o mundo contemporâneo, com a vantagem da credibilidade e da relevância da Igreja. De outro lado, é-lhe atribuído um “injustificado otimismo” acerca da aceitação da fé pelo homem moderno, uma concessão ao “espírito do mundo”, o abandono da verdadeira tradição, o enfraquecimento do papel profético da Igreja. Em uma palavra, acusa-se-o de haver valorizado a inalienável “diferença” cristã em relação ao mundo, e valorizado o papel da consciência, de ter cedido na questão da verdade.
Trata-se de um tema de não breve momento, que continua a ser debatido não somente em nível teológico como também em sua consequência concreta: É melhor um partido cristão cuja “diferença” pode tornar-se visível, ou participar com outros nos partidos em que os cristãos devem ser confrontados com outras visões do mundo, arriscando a serem invisíveis, quiçá ineficazes? Diante de propostas legislativas sobre questões éticas sensíveis, é próprio dos cristãos a afirmação dos valores não negociáveis ou uma mediação que arrisca sempre o compromisso? Mesmo fora da política, os crentes comprometidos têm de lidar com a questão da diferença: como “é visto” o fato de ser cristão na maneira de exercitar a profissão, de viver as relações familiares e de amizade, de levar avante um compromisso social? Não agem talvez bem, se não melhor, também os que não acreditam ou creem de modo diferente? Pode-se ser completamente humano sem fazer referência a Deus? A questão da “diferença cristã” é um ponto crucial nos confrontos e nas incompreensões dentro e fora da Igreja.
Na realidade, como mostra o teólogo franco-alemão Christoph Theobald (La différence chrétienne. A propos du geste théologique de Vatican II. In: Études, n. 1, p. 65-76, 2010), a tensão do mérito sobre a atitude nos confrontos do mundo não polariza somente as interpretações do Concílio, mas está presente nos próprios texto conciliares. Esquece que o Concílio não tomou uma posição monolítica estéril e falsa nas discussões, também atuais, entre os defensores da atualização e os guardiões da diferença cristã. A coexistência de posições diferentes dentro dos textos conciliares, que, no entanto, não é uma novidade no ensinamento, é também salutar: é próprio da tradição católica – não sem trabalho árduo – permitir que diferentes sensibilidades exprimam-se no seu seio, e não querer limitar todos a uma única perspectiva teológica. É necessário, pois, reconhecer que a tensão entre moderados e reformistas, em qualquer forma qualquer se apresente, é irreprimível. E não é nem exclusividade da Igreja Católica. Essa não é uma maneira de diminuir o papel essencial dessa tensão: a posição de mérito da questão da diferença cristã, de fato, informa o modo de estar no mundo como crente, a relação com a sociedade e a cultura, a imagem da Igreja e o exercício da sua autoridade, a concepção da liberdade e da consciência, a própria relação com Deus. Por isso o debate está fortemente aceso, e a Igreja deve assumir as divisões que a perpassam.
Como mostra C. Theobald, os textos do Vaticano II justapõem pelo menos duas maneiras que não são plenamente conciliáveis para fazer valer a diferença cristã, as quais se podem situar historicamente. A primeira, nascida no século XIX, prevaleceu até o Concílio. Essa procura não somente defender o catolicismo do espírito moderno e a missão de verdade que foi confiada à Igreja, mas propõe também um modelo positivo: quer restaurar ou estabelecer uma cultura católica, acreditando que o catolicismo deva responder a todas as necessidades da sociedade e informar a todos os âmbitos (o partido católico, o sindicato cristão, a escola católica etc.), em oposição ao liberalismo, até mesmo nas suas declinações protestante e católica, que relega a religião em privado. A outra corrente desenvolve-se, sobretudo, a partir da Segunda Guerra Mundial; procura, ao contrário, registrar a diferença cristã no desenvolvimento da modernidade. Eis, em breves palavras, como as duas perspectivas afloram em alguns textos do Vaticano II.
a) Cristo Rei
A primeira é detectável na visão grandiosa de Cristo como cumprimento da história e do universo (cf. Lumen gentium, n. 7; Gaudium et spes, n. 11). Encontram-se traços da visão de um catolicismo integral, de modo particular na afirmação repetida de que o homem, se não se abre a Deus e não entra no processo espiritual de transformação delineado pelo Concílio, arrisca perder a própria dignidade. Essa posição é resumida por Paulo VI no discurso de encerramento do Concílio: “a religião católica é para a humanidade; em um certo sentido, ela é a vida da humanidade. É a vida, por interpretação, finalmente exata e sublime, de que a nossa religião dá ao homem (não é o homem, somente, mistério em si mesmo?); e dá-la precisamente em virtude de seu conhecimento de Deus: para conhecer o homem, o homem verdadeiro, o homem integral, é preciso conhecer Deus”. Nessa perspectiva, Cristo é apresentado como o novo Adão (o verdadeiro homem) e o Rei do universo. Em contrapartida, todavia, no período anterior ao Concílio não é retomada a ideia de “reconquistar a sociedade”, mas se valoriza a perspectiva de que o Reino é “agora” misteriosamente neste mundo, mas “não ainda” realizado (ibidem, n. 39)
b) Cristo mestre
Na segunda perspectiva, Cristo é mais um mestre que ensina aos discípulos como entrar em contato com os outros e proclamar a Boa Nova. Rastreamo-la na Declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, um dos textos mais debatidos durante o Concílio, e mais contestado por aqueles que o rejeitam. Essa perspectiva assume um dos principais frutos dos tempos modernos, a liberdade religiosa ligada à liberdade de consciência: “O conteúdo de tal liberdade é que os seres humanos devem ser imunes à coerção por parte dos indivíduos, de grupos sociais e de qualquer poder humano, de modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a sua consciência nem seja impedido, dentro dos devidos limites, de agir em conformidade com ela: privada ou publicamente, em forma individual ou associada” (n. 2). A história moderna ocidental, promovendo a liberdade religiosa, obrigou a Igreja a questionar-se sobre sua própria tradição (cf. n.1). Ao fazê-lo, ela descobre que o reconhecimento da dignidade humana é, pelo menos em parte, um fruto do Evangelho (cf. n.12), e recebe uma ajuda para reinterpretar a própria identidade cristã. É esse o coração do n. 11, em que se lê o itinerário de Jesus, que traz a salvação em um absoluto respeito por cada pessoa. Sem negar a identificação de Jesus de Nazaré com o Verbo eterno, a Declaração prefere essa abordagem relacional, mais humilde e concreta, ao mistério de Deus revelado em Cristo. “Os apóstolos, instruídos pela palavra e pelo exemplo de Cristo, seguiram o mesmo caminho” (ibidem) e assim todos os mártires e fiéis: a diferença cristã emerge aqui como modo profético de agir no mundo e como uma forma de relacionar-se com o outro, e abre-se a possibilidade de reconhecer que, na vida do povo de Deus, há “formas de agir que não estão conformes com o espírito evangélico, e mesmo se opõem a ela” (n. 12).
Nessa perspectiva, a missão da verdade da Igreja é entendida em termos de serviços para a “pesquisa conduzida livremente, com ajuda do ensinamento ou da educação, por meio da troca e do diálogo com os quais, com o propósito de ajudar-se um ao outro na pesquisa, uns revelam aos outros a verdade que descobriram ou que pensam ter descoberto” (n. 3); a questão da verdade é, assim, inscrita no espaço social e político das nossas democracias. Além disso, a perspectiva “integral” do catolicismo não é negada, mas novamente entendida, valorizando a contribuição de todos: todos os grupos religiosos (e não somente a Igreja Católica) têm o direito de “manifestar livremente a virtude singular da própria doutrina na ordenação da sociedade e vivificar cada atividade humana” (n. 4), na condição de trabalhar em favor de uma harmonização pacífica dos direitos para todos e para o bem comum, com base na justiça.
4. A ajuda de Carlo Maria Martini
Os problemas atuais de orientação vêm, pelo menos em parte, do fato de que o Concílio Vaticano II permanece marcado por ambas as posições. Os cinquenta anos que transcorreram desde sua celebração nos mostram como a tentativa de continuar a afirmar a verdade sobre o desenvolvimento integral do homem conduz a Igreja, pelo menos no Ocidente, ao embate com o pluralismo radical da sociedade e da cultura, findando por fechar-se novamente em seus próprios espaços. É, assim, pelo menos legítimo perguntar-se se a intransigência sobre princípios é efetivamente baseada no Evangelho ou se não seria necessário ouvir e interpretar teologicamente os desenvolvimentos da pós-modernidade e entender como fazer valer, de outro modo, a diferença cristã. Confrontar-se com a forma contemporânea de compreender a liberdade humana conduziu, e pode ainda conduzir, a uma reinterpretação da identidade cristã e a uma maneira diferente de conceber a presença profética – e, logo, fiel à tradição – da Igreja na sociedade. É um desafio muito elevado?
Certamente é o desafio crucial do nosso hoje. Testemunhar como o cartão. Martini mostrou-nos na prática como isso é possível e, também, permite atingir a tradição, o recurso, a liberdade e o entusiasmo para comprometer-se com o mundo. Com o requinte que sempre o distinguiu, Martini afastou-se nas vésperas das celebrações do aniversário do Concílio, deixando-nos frente a frente com nossas responsabilidades. Como um verdadeiro mestre, formado graças à meditação sobre a Escritura e sobre o modo de fazer de Cristo, não nos deixa receita para aplicar, mas nos mostra a Palavra como guia e coloca-nos questões, por exemplo, aquelas de sua última entrevista: “Como se podem libertar as brasas das cinzas de modo a fazer renascer a chama do amor? Em primeiro lugar, devemos procurar essa brasa. Onde estão as pessoas singulares cheias de generosidade como o bom samaritano? Que têm fé como o centurião romano? Que são entusiastas como João Batista? Que ousam o novo como Paulo? Que são fiéis como Maria Madalena?”. Procurar hoje, juntos, a resposta a essas perguntas é o melhor modo para celebrar os cinquenta anos do Concílio, e para honrar a memória de Carlo Maria Martini.
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A despedida silenciosa do cardeal jesuíta que apreciava o iPad

Para sua última lição tinha deixado falar somente os gestos. As mãos que procuravam outras mãos. Os olhos claros já abertos sobre outro lugar. Carlo Maria Martini amava o silêncio. Ele, o homem da Palavra. A guardar esta no coração e anunciá-la sem alçar a voz. A força de uma verdade que vinha de longe. E nada fizera para que lhe faltassem até mesmo as dúvidas. Nem sobre aquilo que vinha depois, porque “a morte existe e tudo o que existe tem importância”, tinha lido num livro de Live Staples Lewis, o intelectual da Irlanda do Norte, a quem, para explicar a dor, tinham bastado 85 páginas.
A reportagem é de Carlo Baroni e publicada pelo jornal Corriere dela Sera, 03-10- 2012. A tradução de Benno Dischinger.
O diário de um adeus. A morte do cardeal Carlo Maria Martini (Ed. Ancora, 106 p., 11,50 euros) não é somente a crônica detalhada dos últimos dias do cardeal. É a carta de um “filho”. Aldo Maria Valli, vaticanista da Rai, mas sobretudo um dos jovens de Martini. Aqueles que ocupavam as naves do Duomo [da Catedral]. Sentavam no chão e escutavam as palavras de um pastor que, para quem não o conhecia, parecia hierático e distante. Até mesmo frio. Sua postura aristocrática, ele que provinha de uma família da burguesia turinense, com um pai “que era preciso puxá-lo para fazê-lo vir à Igreja”. Uma pessoa reservada que era estimada pelos outros.
Valli recorda a “notícia”. Um SMS com a linguagem sóbria dos homens de Igreja. “As condições de saúde do cardeal Martini andaram se agravando particularmente”. Bastava um advérbio para dizer que tudo tinha chegado ao seu termo. O livro conta aquilo que irá acontecer a partir daquele dia até os funerais e a homenagem dos fiéis já de imediato. Com os flashbacks de trinta anos de frequentações. Os colóquios no arcebispado, as entrevistas, as visitas privadas. As cartas, as confidências. Um cardeal que conhecia os tempos televisivos e perguntava: “Quanto tempo te serve? Cinquenta segundos”. E em menos de um minuto explicava encíclicas complicadas fazendo-se entender.
Havia programado Jerusalém como horizonte do último retalho da vida (“O ar fresco e suave o punha de bom humor e o fazia trabalhar com alento”). Não havia podido prever o mal de parkinson. Mas o havia aceitado. Quase acompanhara: uma doença que, cardeal ou não, se afronta primeiro com raiva e depois com desespero. A doença se tornara como um dos seus fiéis. Daqueles que gostaria de recolocar no bom caminho, mas já sabe que não o conseguirá. No entanto, não deixa de “lhe querer bem”. Até mesmo mais do que aos outros que o escutavam e seguiam. O mal de parkinson, que a cada dia era um pouco pior e tão pérfido a ponto de lhe tolher o dom da palavra, seu maior talento.
Aldo Maria Valli recorda o Martini que aceita as cinquenta liras de uma velhinha do Albergue Pio Trivulzio com alegria no coração, o que corta o embaraço de quem vive nos formalismos. Aquilo que ocorre a São Vitor: enquanto fala, de uma janela entra uma pomba branca, colhe o aplauso dos detidos e já parece a hagiografia de um santo. O Martini que ama o passado, as Escrituras e exulta de alegria como uma criança quando jovens sacerdotes lhe presenteiam com um iPad.
O homem que sacode a Igreja, mas é sempre por excesso de amor, que jamais é demasiado.

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