Todas as questões acerca da Igreja poderiam sintetizar-se
nas duas perguntas fundamentais:
1) «Igreja, quem és tu?»
2) «Igreja, que tens tu a dizer ao mundo?».
Vou escolher uma única frase do Concílio Vaticano II e pô-la
à reflexão dos leitores. É curta: «O cristão que descuida os seus deveres
temporais falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio
Deus, e põe em risco a sua salvação eterna» (GS 43).
Muitos ainda se lembrarão de uma frase repetida antigamente:
«Fora da Igreja não há salvação» e aqui quando se falava em Igreja entendia-se
a Igreja Católica. Até os coitados dos bebés que morriam sem Baptismo não iam
para o céu. Ficavam algures pelo caminho. Pela mesma lógica, quem não se
convertesse à Igreja Católica também não se podia salvar. Ateus, agnósticos ou
indiferentes estavam condenados mesmo que tivessem comportamento ético mais
elevado que muitos baptizados. A Igreja docente (na altura havia assim umas
divisões curiosas), isto é, a Igreja que ensinava e fazia a (sua) doutrina,
decidiu que era ela a única que possuía a Verdade plena e que todos os outros
estavam no erro e, portanto, deviam arcar com as respectivas consequências.
Hoje ainda há quem assim pense! Mesmo tendo em conta o que recentemente ouvimos
ler na liturgia da palavra: «Deus não faz acepção de pessoas» (Actos 10,34).
Claro que o Concílio mantém esta afirmação, mas (só) para
aqueles que «não ignoram que a Igreja Católica foi fundada por Deus por meio de
Jesus Cristo». Contudo, faz uma ressalva dramática: «Não se salva, porém,
embora incorporado à Igreja, quem não persevera na caridade: permanecendo na
Igreja pelo “corpo”, não está nela com o coração. Lembrem-se, porém, todos os
filhos da Igreja que a sua sublime condição não é devida aos méritos pessoais,
mas sim à especial graça de Cristo; se a ela não corresponderem com os
pensamentos, palavras e acções, bem longe de se salvarem, serão antes mais
severamente julgados» (LG 14).
Portanto, o concílio põe condições, bem duras, mesmo para
aqueles que pertencem já à Igreja. «O cristão que descuida os seus deveres
temporais falta aos seus deveres para com o próximo e até para com o próprio
Deus, e põe em risco a sua salvação eterna.» Esta frase exige a todos os
cristãos que se comprometam no mundo, na sociedade, assumam as suas obrigações
como cidadãos, pai ou mãe, trabalhador indiferenciado, professor, médico, juiz,
advogado, político, empresário, conforme as suas aptidões, lutando sempre pela
justiça, praticando a solidariedade, vivendo a gratuidade, em nome de Jesus
Cristo.
Se não o fizerem, o que lhes sucede? Cometem dois pecados
graves: faltam aos deveres para com o próximo, isto é, todos os outros, crentes
ou não crentes; e faltam às suas obrigações para com Deus, por muitas missas a
que vá e a que deve ir. Além disso, e agora vem o mais complicado, «põe em
perigo a sua salvação eterna». Esta frase é muito explícita e quer dizer sem
ambiguidades que «fora do mundo não há salvação». Os cristãos têm de estar no
mundo a lutar por uma sociedade mais humana. Se não o fizerem… Por isso no
Sínodo de 1971 se disse que «a luta pela justiça é uma dimensão constitutiva da
pregação do Evangelho» (JM 6).
Os cristãos têm de estar no mundo a lutar por uma sociedade mais humana.
Por: José da Silva Dias, em revista
Além-Mar
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