LECTIO DIVINA DO EVANGELHO DO XXX DOMINGO COMUM B




Evangelho de Marcos,  capítulo 10:
46Chegaram a Jericó. Quando ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão, um mendigo cego, Bartimeu, o filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho. 47E ouvindo dizer que se tratava de Jesus de Nazaré, começou a gritar e a dizer: «Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim!» 48Muitos repreendiam-no para o fazer calar, mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem misericórdia de mim!» 49Jesus parou e disse: «Chamai-o.» Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te.» 50E ele, atirando fora a capa, deu um salto e veio ter com Jesus. 51Jesus perguntou-lhe: «Que queres que te faça?» «Mestre, que eu veja!» - respondeu o cego. 52Jesus disse-lhe: «Vai, a tua fé te salvou!» E logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.

I. LEITURA: O que diz o texto?

Contexto: termina uma secção em que Jesus se dedicou a instruir os discípulos (Mc.9,31), sobre o que implica segui-lo até à Cruz. Muitas vezes os discípulos não compreendem. O episódio da cura do cego é uma espécie de “parábola” da incapacidade dos discípulos para seguir Jesus. Lembremos que a cura do cego era um dos sinais do Messias (Lc.7,18-23).

Curiosidades: Jericó é uma cidade muito antiga que está situada no vale do Jordão muito perto da desembocadura deste rio no norte do Mar Morto.

Textos paralelos: Mt.20,29.34; Lc.18,35-43 (João fala do cego de nascença: Jo.9,1-40);

Algumas perguntas, para ler o texto, com atenção:

1.        Em que se estrada se dá o encontro de Jesus com o cego?
2.       Quantas vezes aparece a palavra “caminho”?
3.       Que significado tem o caminho de Jericó para Jerusalém?
4.      Quem acompanha Jesus?
5.       Como é caracterizado o cego?
a)      Que faz ele na berma da estrada?
b)      Como se chama o cego? Bar (nome hebraico: = filho) Timeu (nome grego);
c)       Quantas vezes é nomeado o cego?
d)      Qual a sua posição na berma da estrada?
6.       Como reage à passagem de Jesus?
7.       Como chama a atenção de Jesus?
8.      O que pede ele, em primeiro lugar, a Jesus?
9.       Que títulos dá Ele a Jesus? Antes do encontro e depois do encontro?
10.    Como reage Jesus?
11.     Que lhe diz?
12.    Como reage a multidão?
13.    Que tipo de resposta dá o cego ao desafio da multidão?
14.    Que lhe pergunta Jesus?
15.    Que pede o cego, em segundo lugar?
16.    O que é que cura o cego? Qual é a sua verdadeira fonte de visão?
17.    O que acontece ao cego, depois da cura?

II. MEDITAÇÃO: O que me diz o Senhor, que me fala neste texto?

1.        O que não consigo “ver bem” no meu caminho?
2.       O que espero, em primeiro lugar, de Jesus?
3.       Como reajo aos que encontro “à beira do caminho”?
4.      Dou oportunidade aos outros de contar a sua história?
5.       O que pode mudar o meu modo de “ver” as coisas?
6.       Porque é que a fé é fonte de iluminação?
7.       Qual a atitude do discípulo nos momentos de escuridão?
8.      Como reajo ao chamamento de Jesus?
9.       Que capas tenho de largar, para ir ao seu encontro?
10.    Sei infundir confiança, aos que procuram ver Jesus?

“Esta narração, na essência da sua sucessão, recorda o itinerário do catecúmeno rumo ao Sacramento do Batismo, que na Igreja era também chamado de "iluminação". A fé é um caminho de iluminação: parte da humildade de se reconhecer necessitados de salvação e chega ao encontro pessoal com Cristo, que chama a segui-l'O pelo caminho do amor” (Bento XVI, Audiência,29.10.2006).

Outras perguntas:

1.        Em que situações da vida experimento estar cego? Quais são minhas cegueiras espirituais? O que é o que “deveria ver” e “não vejo”?
2.       Busco ajuda no meio das minhas “cegueiras”? A quem peço ajuda? Encontro no Senhor o único que me pode libertar das minhas cegueiras?
3.       Atrevo-me a gritar como Bartimeu, pedindo o auxílio do Senhor?
4.      O que implica para mim hoje dizer a Jesus: “tem compaixão de mim e ajuda-me”?
5.       Quando alguém necessita de ajuda: permito que se aproxime de Jesus ou faço o mesmo que a multidão num primeiro momento ao tentar calar o cego?
6.       Insisto ao pedir a compaixão do Senhor? Canso-me facilmente?
7.       Como me sinto sabendo que o Mestre me chama?
8.      Sou capaz de ir rapidamente ao encontro do Senhor?
9.       O que implicaria para mim hoje “deitar fora a capa” e “dar um salto” para me aproximar de Jesus?
10.    Deixo que Jesus me interrogue, me pergunte sobre o que realmente estou a precisar?

III. ORAÇÃO: Que digo eu ao Senhor, que me fala neste texto?
Como o cego, posso rezar:

1. «Filho de David, tem misericórdia de mim!»
2. «Senhor, fazei que eu veja»?

3. Cantar (rezar) o Hino:

Luz terna, suave, no meio da noite,
Leva-me mais longe.
Não tenho aqui morada permanente:
Leva-me mais longe.

Que importa se é tão longe para mim
A praia onde tenho de chegar
Se sobre mim levar constantemente
Poisada a clara luz do Teu olhar?

Nem sempre Te pedi como hoje peço
Para seres a Luz que me ilumina
Mas sei que ao fim terei abrigo e acesso
Na plenitude da Tua luz divina.
Esquece os meus passos mal andados
Meu desamor perdoa e meu pecado
Eu sei que vai raiar a madrugada
E não me deixarás abandonado

Se Tu me dás a mão, não terei medo
Meus passos serão firmes no andar
Luz terna, suave, leva-me mais longe:
Basta-me um passo para a Ti chegar.

4. Cântico de Taize: Senhor Jesus, Tu és luz do mundo. Dissipa as trevas que me querem falar…

IV. CONTEMPLAÇÃO: Como interiorizo a mensagem?

Para a contemplação podemos tomar a frase que com muita humildade diz Bartimeu ao Senhor:
· No meio das minhas cegueiras... Mestre, que eu veja!
· No meio das minhas escuridões... Mestre, que eu veja.
· No meio das minhas trevas... Mestre, que eu veja.

5. ACÇÃO: Com que me comprometo?

“Já no termo da sua vida, o apóstolo Paulo pede ao discípulo Timóteo que «procure a fé» (cf. 2 Tm 2, 22) com a mesma constância de quando era novo (cf. 2 Tm 3, 15). Sintamos este convite dirigido a cada um de nós, para que ninguém se torne indolente na fé. Esta é companheira de vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por nós. Solícita a identificar os sinais dos tempos no hoje da história, a fé obriga cada um de nós a tornar-se sinal vivo da presença do Ressuscitado no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade é o testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que não tem fim” (Bento XVI, Porta Fidei, 15).

“A redescoberta do valor do próprio Batismo está na base do compromisso missionário de cada cristão, porque vemos no Evangelho que quem se deixa fascinar por Cristo não pode viver sem dar testemunho da alegria de seguir os seus passos” (Bento XVI, Angelus, 29-10-2006).

Comentários

  1. Com olhos novos - José Antonio Pagola, Teólogo e biblista espanhol - Adital
    A cura do cego Bartimeu é narrada por Marcos para urgir as comunidades cristãs a sair da sua cegueira e mediocridade. Só assim seguirão Jesus pelo caminho do Evangelho. O relato é de uma surpreendente atualidade para a Igreja dos nossos dias.
    Bartimeu é "um mendigo cego sentado à beira do caminho". Na sua vida sempre é de noite. Ouviu falar de Jesus, mas não conhece o Seu rosto. Não pode segui-lo. Está junto ao caminho por onde Ele passa, mas está fora. Não é esta a nossa situação? Cristãos cegos, sentados junto ao caminho, incapazes de seguir Jesus?
    Entre nós é de noite. Desconhecemos Jesus. Falta-nos luz para seguir o Seu caminho. Ignoramos para onde se encaminha a Igreja. Não sabemos sequer que futuro queremos para ela. Instalados numa religião que não consegue converter-nos em seguidores de Jesus, vivemos junto ao Evangelho, mas fora. Que podemos fazer?
    Apesar da sua cegueira, Bartimeu capta que Jesus está a passar próximo dele. Não hesita um instante. Algo lhe diz que em Jesus está a sua salvação:"Jesus, Filho de David, tem compaixão de mim". Este grito repetido com fé vai desencadear a sua cura.
    Hoje ouve-se na Igreja queixas e lamentos, críticas, protestos e mutuas desqualificações. Não se escuta a oração humilde e confiada do cego. Esquecemo-nos que só Jesus pode salvar esta Igreja. Não nos apercebemos da Sua presença próxima. Só acreditamos em nós.
    O cego não vê, mas sabe escutar a voz de Jesus que lhe chega através dos Seus enviados: "Animo, levanta-te, que te chama". Este é o clima que necessitamos criar na Igreja. Animar-nos mutuamente a reagir. Não continuar numa religião convencional. Voltar a Jesus que nos está a chamar. Este é o primeiro objetivo pastoral.
    O cego reage de forma admirável: solta o manto que lhe impede levantar-se, dá um salto no meio da sua escuridão e aproxima-se de Jesus. Do seu coração só brota uma petição: "Mestre, que possa ver". Se os seus olhos se abrem, tudo mudará. O relato conclui dizendo que o cego recobrou a vista e "o seguia pelo caminho".
    Esta é a cura que necessitamos hoje, os cristãos. O salto qualitativo que pode mudar a Igreja. Se muda o nosso modo de ver Jesus, se lemos o Seu Evangelho com olhos novos, se captamos a originalidade da sua mensagem e nos apaixonamos com o Seu projeto de um mundo mais humano, a força de Jesus irá arrastar-nos. As nossas comunidades conhecerão a alegria de viver seguindo-o de perto.

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