A reflexão é de Raymond
Gravel, padre da arquidiocese de Quebec, Canadá,
publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as
leituras do 27.° Domingo do Tempo Comum. A tradução é de Susana
Rocca.
Eis o texto.
Referências bíblicas:
1ª leitura: Gn 2,18-24
2ª leitura: Heb 2,9-11
Evangelho: Mc 10, 2-16
Na semana, os textos da
Palavra falavam sobre a exclusão: ninguém deve ser excluído. As religiões não
dão nenhum direito sobre Deus ou sobre Cristo. A mão, pé e o olho devem nos
servir para partilhar com o outro, para acolher o outro e para entrar em
relação como ele, seja quem for. No evangelho do domingo passado vimos João, o
apóstolo, um dirigente da Igreja que queria excluir alguém que não fazia parte
do seu grupo, quando Jesus o repreendeu, criticando-o. Hoje, o evangelho de
Marcos também fala de exclusão, desta vez, nas relações humanas, através da
família, do casal, das crianças e, mais uma vez, Cristo se coloca na defesa dos
excluídos... No evangelho deste domingo, temos a ocasião privilegiada para
fazer uma reflexão sobre as realidades novas vividas nas relações dos casais
chamados à igualdade, à unidade e à fidelidade no seu compromisso e na sua
complementaridade.
1. Primeira exclusão:
homem/mulher. “Perguntaram-lhe se a Lei permitia um homem se
divorciar da sua mulher” (Mc 10,2). Fazer a pergunta dessa forma é já
demonstrar a injustiça e a desigualdade entre o homem e a mulher, porque só o homem
podia se divorciar da mulher. Na sociedade judaica do século I, o marido tinha
todos os direitos sobre a mulher, de maneira que ele podia se divorciar em
qualquer momento e por qualquer motivo. E ainda divorciada, a mulher continuava
sendo propriedade do homem que tinha sido seu marido. O homem, por sua vez,
podia voltar a casar, mas a mulher não. A lei de Moisés permitia essa
injustiça; o homem só tinha que escrever a certidão de divórcio (Mc 10,4).
Como interpretar a resposta
de Jesus? “Foi por causa da dureza do coração de vocês que Moisés escreveu esse
mandamento. Mas, desde o início da criação, Deus os fez homem e mulher. Por
isso, o homem deixará seu pai e sua mãe, e os dois serão uma só carne.
Portanto, eles já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o
homem não deve separar” (Mc 10,5-9). A Igreja utiliza este texto evangélico
para dizer que o matrimônio é indissolúvel. É, sem dúvida, um ideal proposto
por Cristo, e mais: se o Cristo do evangelho de Marcos se opõe à lei de Moisés
sobre o divórcio é, primeiro e antes de tudo, para devolver à mulher toda a sua
dignidade: “Desde o início da criação, Deus os fez homem e mulher” (Mc
10,6). Isso supõe a igualdade, a mesma dignidade, a complementaridade do ser
humano que é homem e mulher. E aí é preciso se remontar no tempo, ao livro do
Gênese, ao segundo relato da criação que temos na primeira leitura de hoje,
para entender a dupla dimensão do ser humano: em hebraico Ish e Isha,
duas palavras diferentes que falam desta realidade.
Neste segundo relato da
criação, o autor nos mostra a superioridade do homem sobre toda a criação. Ele
está no topo da criação. Mas o homem não pode ser homem se não há outro que lhe
corresponde (Gn 2,18). O autor do livro do Génesis diz, então, que com a terra Deus
forma todos os animais e todos os seres vivos e os leva ao homem para que ele
possa dar-lhes nome (Gn 2,19). Isso fala da superioridade do homem sobre todos
os seres vivos, porque ele tem o poder de lhes dar nome. Mas não são todos
esses seres vivos que lhe permitem ao homem ser, existir; falta-lhe seu
complemento para ser verdadeiramente humano. Então, o autor do Génesis descreve
a criação da mulher, não como os animais que são formados com o barro do solo,
mas com a carne do homem tirada da sua costela (côte), daí a
expressão: cara a cara (côte-à-côte), que significa a igualdade e a
complementaridade. Não é o homem que decide: ele dorme (Gn 2,21). É Deus mesmo
que preside fazendo do homem um ser de relação, criando, a partir dele mesmo,
um outro, diferente dele, mas que lhe faz existir como ser humano. O homem e a
mulher são iguais e, juntos, se tornam um só (Gn 2,24).
Então, o que devemos nos
perguntar e que os primeiros cristãos se perguntaram é o que os primeiros
cristãos se perguntaram e o que o Cristo do evangelho de Marcos, por sua vez,
pergunta aos fariseus: Por que Moisés permitiu a um marido se divorciar da sua
mulher? Quem deu ao homem esse poder de dominação sobre a mulher? Parece-me que
é por essa razão que o Cristo do evangelho de Marcos se opõe à lei do divórcio:
é para devolver às mulheres a sua dignidade e a sua igualdade na obra da
criação. Não pode haver nenhuma superioridade do homem sobre a mulher. O ser
humano foi criado homem e mulher. Se se faz à mulher inferior ao homem,
separa-se o que Deus uniu porque nessa unidade há igualdade e
complementaridade.
(Nota do autor) A pesar
disso, para os romanos esse direito ao divórcio era dado também às mulheres. É
por isso que São Marcos, que escreveu aos romanos do fim do século I,
acrescenta: “E se a mulher se divorciar do seu marido e se casar com outro
homem, ela cometerá adultério” (Mc 10,12). Não encontramos este versículo
em Mateus.
Por outro lado, no contexto
da igualdade entre homem e mulher, onde não há superioridade nem inferioridade,
será que o divórcio é possível quando não há amor no casal? Eu penso que o
evangelho não responde a esta questão explicitamente: se o Amor de Deus
se exprime na união do homem e da mulher, não havendo amor, haverá verdadeiro
casamento? Será uma união querida por Deus?
Podemos ficar por lá, como
faz a Igreja atualmente, e excluir todas aquelas e aqueles que não conseguiram
viver esse projeto. Por outro lado, se a Bíblia é cultural, parece-me que a
Palavra de Deus que deve se ler e se escrever, hoje, tem que estar e dar conta
das nossas realidades. Se não for assim não seria mais do que uma palavra
repetida do passado, e que desconsidera
as mulheres e os homens de hoje. Quando 50% dos matrimónio terminam em fracasso, não podemos ficar indiferentes a esta realidade contemporânea e fazer como se não existisse o problema. O amor é essencial no matrimónio; se não há amor será que ainda há matrimónio? Fica a pergunta.
as mulheres e os homens de hoje. Quando 50% dos matrimónio terminam em fracasso, não podemos ficar indiferentes a esta realidade contemporânea e fazer como se não existisse o problema. O amor é essencial no matrimónio; se não há amor será que ainda há matrimónio? Fica a pergunta.
É evidente que devemos nos
alegrar quando os casais conseguem ter amor, fidelidade e durabilidade no
matrimônio. Mas, em relação aos outros, toda atitude de julgamento, de
rejeição, de condenação ou de exclusão é contrária ao evangelho. É preciso que
aqueles e aquelas que fracassam não se sintam nunca rejeitados e condenados/as
por ninguém, nem mesmo por Deus cujo Amor é o maior que as nossas misérias. É
por isso que, como Igreja, devemos demonstrar o perdão, a misericórdia e a
compaixão com os casais quebrados e as famílias reconstituídas.
2. Segunda exclusão:
as crianças. Imediatamente após a exclusão da mulher do casal, o
evangelista Marcos nos fala das crianças: “Alguns levaram crianças para que
Jesus tocasse nelas. Mas os discípulos os repreendiam” (Mc 10,13). Assim
como as mulheres, as crianças não tinham nenhum direito e é por isso que Cristo
assume a sua defesa: “Vendo isso, Jesus ficou zangado e disse: ‘Deixem as
crianças vir a mim. Não lhes proíbam, porque o Reino de Deus pertence a elas’”
(Mc 10,14). As crianças, então, foram colocadas como modelo para os adultos,
não por causa da sua doçura e da sua inocência, mas exatamente por causa da sua
pobreza, da sua dependência em relação aos adultos que têm a responsabilidade
sobre elas. Como as mulheres e os doentes, as crianças eram excluídas na
sociedade judaica do século I. Tocando-as e impondo-lhes as mãos (Mc 10,16),
Cristo lhes dá a sua dignidade e lhes concede um lugar no Reino de Deus.
3. Terceira exclusão:
hoje. Não é no evangelho de Marcos, mas se eu continuo a reflexão
sobre exclusão, se eu atualizo a Palavra de Deus hoje, precisamos reconhecer
outras formas de exclusão em nossa Igreja. Se Cristo se colocou na defesa dos
pequenos, dos pobres, dos marginalizados e dos excluídos, o que ele quer nos
dizer hoje sobre as novas realidades vividas nas nossas sociedades
contemporâneas? A família monoparental? O casal reconstituído? O casamento gay?
A pergunta a se fazer para sermos fiéis ao evangelho é a seguinte: Essas novas
realidades podem expressar o Amor de Deus pela humanidade? Deus pode unir dois
homens ou duas mulheres que se amem verdadeiramente? A complementaridade é
somente biológica? Pode ser psíquica e social? Deus se reconhece num casal
divorciado e casado de novo? Como cristãos, como Igreja, nós devemos responder
a essas perguntas com a mesma atitude que teve o Cristo do evangelho de Marcos.
O teólogo francês Gérard
Bessière escreve: “Cada época tem seus problemas e seus ajustes
jurídicos. Jesus não quer falar como homem da Lei. Ele rejeita essa questão
machista. Ele volatiliza a armadilha das casuísticas mostrando a direção do
amor humano nascido do Amor de Deus. Não temos que deduzi-lo a proibições,
regras, nem a um código! O olhar de Jesus vem do alto e vai mais longe. Ele nos
volta a falar do belo objetivo que esclarece o encontro respeitoso e amante dos
homens e das mulheres de todos os tempos”. E terminaria simplesmente com esta
frase da carta aos Hebreus que temos na segunda leitura de hoje, e que expressa
bem a dignidade de todos os seres humanos, discípulos de Cristo: “Pois,
tanto aquele que santifica, como aqueles que são santificados, todos têm a
mesma origem. Por isso, ele não se envergonha de chamá-los irmãos” (Hb
2,11).

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