Cultura bíblica: o passado e o futuro no idioma hebraico são o oposto do que o entende a cultura ocidental
«No pensamento judaico antigo, o passado estava à frente,
pois ele estava “diante dos olhos” dos homens, ou seja, era conhecido. O
futuro, porém, estava “atrás”, isto é, “escondido”, “desconhecido” aos olhos
das pessoas.»
Por Daniel Lago
A Bíblia Hebraica é um texto do Oriente Próximo, escrito há
mais de dois milénios fruto de uma
cultura completamente diversa da nossa. A perspectiva dos autores sobre a vida
e o mundo que os cercava estava diretamente ligada às suas tradições e
costumes. Quando lemos esse texto, não o podemos fazer a partir de nossa visão
de mundo. Isso nos faria produzir interpretações completamente erradas de tal
texto.
Um exemplo de como o pensamento hebraico antigo é totalmente
diferente no nosso está no modo como eles compreendiam o tempo. Em nossa visão
ocidental, o passado está atrás, e o futuro, na frente. Em hebraico, porém,
ocorre exatamente o contrário. Em hebraico, a palavra machar significa
“futuro”, mas também pode significar “atrás”, enquanto o termo temol, que
significa “passado”, também pode significar “à frente”.
Ou seja, no pensamento judaico antigo, o passado estava à
frente, pois ele estava “diante dos olhos” dos homens, ou seja, era conhecido.
O futuro, porém, estava “atrás”, isto é, “escondido”, “desconhecido” aos olhos
das pessoas.
Outro exemplo dessa visão diferente sobre o tempo está na
Bíblia Hebraica. O Antigo Testamento entende o tempo como tendo uma natureza
cíclica. Isso se reflete na palavra hebraica shanah, que significa “ano”, mas
que também pode significar “repetição”. Cada ano, na cosmovisão judaica antiga,
representa um ciclo completo de determinados eventos de natureza espiritual
estabelecidos por Deus, que se repetem anualmente.
Todavia, ao mesmo tempo, cada ano também é, em si, único.
Isto fica revelado na própria palavra shanah, que além de significar
“repetição”, está relacionada ao verbo shoneh, que significa “mudança”. Embora
o padrão de tempo seja repetido, a cada ano novos mistérios da realidade
espiritual são revelados, que determinam a natureza dos acontecimentos que se
sucederão naquele ano.
É por esta visão do tempo enquanto mudança que os judeus são
considerados o primeiro povo que incorporou uma visão linear do tempo, que
aponta para um momento futuro em que se daria a consumação das profecias
messiânicas.
Esta contradição repetição/mudança está, portanto, também
presente na promessa do Messias, o Rei Ungido que confirmaria o cetro de Judá,
a quem todos os povos deveriam obedecer. Ao mesmo tempo em que eventos
anteriores à manifestação do Messias já haviam anunciado sua vinda (o
quase-sacrifício de Isaque; o Siló profetizado por Jacó; José tirado do poço e
da prisão para reinar; o sacrifício de Nabote em favor de sua vinha, etc), para
os cristãos, Jesus, o Ungido, cumpriu tais promessas, o que desencadeou uma
mudança eterna, uma quebra no tempo cíclico. Isso porque, desde então, não há
mais derramamento de sangue para remissão de pecados, pois Cristo “entrou no
Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção” (Hebreus
9:12). Cristo, segundo a interpretação cristã, é o Siló profetizado por Jacó:
“O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus
pés, até que venha Siló; e a ele obedecerão os povos”. Gênesis 49:10
A palavra para cetro é o hebraico sebet, que significa
“ramo” ou “tronco”, o que nos remete à profecia feita por Isaías sobre o
Messias:
“Então brotará um rebento do toco de Jessé, e das suas
raízes um renovo frutificará.” Isaías 11:1
Este ramo ou tronco possui inúmeras finalidades: punir,
lutar, reger e bengala. Este tronco rompeu o círculo do tempo, e, como um átomo
que, carregado, extrapola para uma camada superior, nos fez romper a barreira
do espaço-tempo. Siló (literalmente, “o enviado”) vem da palavra hebraica
shalah, que pode significar tanto “segurança”, “prosperidade”, “felicidade”,
como, através da palavra shalal, significar “extrair”, “tirar de”, “arrebatar”.
Segundo a cosmologia cristã, Cristo é, portanto, o Deus que
saiu da eternidade (‘olam) e entrou no tempo (êth) para nos levar para a
eternidade. Assim também, a primeira vinda de Cristo representa uma
prefiguração de sua segunda vinda, quando os cristãos aguardam por ser
arrebatados (shalal), em um momento que precederá seu reino eterno, como a
profecia de Jacó concernente a Siló.
Siló representa, portanto, a consumação dos tempos, o
momento em que o tempo circular será quebrado definitivamente, através de uma
mudança que colocará fim ao próprio tempo, dando início à eternidade, que os
judeus chamam de ‘Olam Haba, que significa “o mundo vindouro”.
Todavia, a palavra hebraica para “mundo” (‘olam), também,
pode significar “eternidade”, como na expressão le’olam (“para sempre”, ou,
literalmente, “para o mundo”).
Quando diz “para o mundo”, não se refere a este mundo,
delimitado pelo tempo, mas sobre o mundo vindouro, sobre o qual não opera o
poder do tempo, posto que é eterno.
Referências Bibliográficas:
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*Daniel Lago é professor substituto de Filosofia da Educação
da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Mestre em Lingüística pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ),
graduado em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), com extensão em filosofia pela Universidade Federal Fluminense
(UFF).


É por tudo ISTO que a Esperança e a Fé Esperançosa dos Cristãos HOJE faz todo o sentido. Os nossos olhos , se os quisermos abrir têm pela frente uma Paisagem feita da Fidelidade de um Deus que , no A.T. ouve, vê, se compadece e desce na defesa de um não-povo -os escravos...e mo N.T. ouve, vê, se compadece e desce "rasgando o céu" e reSuscitando para si e para nós, o Filho Amado...Fidelidade absoluta dos dois...Tendo na frente dos olhos a História e as nossas Hist+orias pessoais, não podemos deixar de ver que é assim. A Fé e a Esperança são a única resposta possível da nossa parte.
ResponderEliminarMISSÃO ESPERANÇA - Na terça feira passada . estivemos com as reclusas em diálogo de formação. Dái resultaram as preces para a celebração de domingo. Partilhamo-las convosco.
Em comunhão. um abraço
Glória e Carlos
Muito boa a visao aqui colicada sibre o tempo.
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