Philippe Chenaux é
professor de história da Igreja moderna e contemporânea da Universidade
Lateranense, em Roma. De origem suíça, dirige um
centro de pesquisa sobre o Concílio Vaticano II, o 21.º
concílio da história, que foi inaugurado há 50 anos no dia 11 de outubro de
1962.
Aqueles três anos de trabalho
e de debates entre 2400 bispos convocados pelo Papa João XXIII modificaram
profundamente a doutrina da Igreja Católica, em particular sobre os problemas
da sociedade e as suas relações com as outras religiões. O Concílio, depois,
encerraria sob o pontificado de Paulo VI, no dia 8 de dezembro
de 1965, depois de produzir 16 textos: quatro "constituições", nove
"decretos" e três "declarações".
Philippe Chenaux,
autor de um livro sobre o Vaticano II, que será lançado no dia 11 de outubro (Le
Temps de Vatican II. Une introduction à l'histoire du concile, Ed.
Desclée de Brouwer), explica como os bispos do mundo inteiro, reunidos em Roma,
se dedicaram a uma atualização, da qual o público só lembra muitas vezes o
abandono da missa em latim e a posição do padre naquela época de costas para os
fiéis. Ele decifra os textos inovadores que nasceram dele e analisa o
mal-entendido que caracterizou a sua interpretação dentro da Igreja.
Mal-entendido que permanece.
A reportagem é de Stéphanie Le Bars, publicada no caderno Culture & Idées, do jornal Le Monde, 06-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Às vezes, o Vaticano
foi apresentado como um trabalho de reconciliação da Igreja Católica com o
mundo. Ela estava, talvez, com raiva do século XX?
"Reconciliação" é
uma palavra um pouco forte; eu prefiro "abertura". Mas é verdade que,
a partir da Revolução Francesa, a Igreja havia assumido uma
atitude hostil com relação à modernidade. O Syllabus de
Pio IX, publicado em 1864, é a maior expressão disso: ele
condena 80 "erros" da modernidade – particularmente o socialismo, o
comunismo e o liberalismo. Na segunda metade do século XIX e no início do
século XX, esse enrijecimento aumenta para atingir o clímax durante os últimos
anos do pontificado de Pio XII, especificamente com a
condenação dos padres operários em 1954. Esse endurecimento era a expressão de
um medo diante de uma forma de secularização cada vez mais marcada, na qual a
Igreja não teria mais nenhum papel e em que a sociedade se esqueceria das suas
raízes cristãs. Não devemos esquecer a perseguição sofrida pela Igreja nos
países da Europa Oriental comunista.
Nesse contexto, como
o Papa João XXIII pôde chegar à ideia de uma atualização?
Alguns, uma minoria, sentiam a
necessidade de abrir a Igreja ao mundo moderno. O Concílio foi preparado por
uma série de movimentos nos anos 1930, 1940 e 1950 no âmbito da liturgia, do
ecumenismo e do papel dos leigos na Igreja. Havia fermentações ativas que pouco
a pouco impuseram a ideia de uma atualização que João XXIII captou
no dia seguinte à sua eleição, em outubro de 1958.
Porém, essas demandas, esses
movimentos informais não eram necessariamente julgados positivamente. Sobre o
ecumenismo, a Igreja era muito reticente até o Concílio. A ideia dominante era
que, entre as Igrejas cristãs, ela era a única depositária da verdade. Não
havia muito espaço para o diálogo com as "Igrejas irmãs", como foram
chamadas depois do Concílio. É por isso que alguns falam de uma "inversão
dos sinais": o que era julgado negativamente até os anos 1950 seria
julgado positivamente pelo Concílio.
A Igreja, portanto,
não estava pronta para esse trabalho de reflexão?
Não é a maioria. O fim do
pontificado de Pio XII foi caracterizado por uma forma
centralizada do exercício do poder. A colegialidade, o trabalho entre os
bispos, não existia. A maior parte deles, se considerarmos os seus desejos em
1959 para o futuro Concílio, era de uma linha muito conservadora, a dos
Concílios de Trento (1542-1560) ou do Vaticano I (1869-1870),
que foram concílios de condenação, de definição dogmática.
Essa situação em nada deixava
pressagiar o que se seguiria. Como ocorreu essa inversão para tornar o Vaticano
II um conselho de "abertura" é o grande enigma. Para os
"anticonciliares", trata-se de um complô de tipo revolucionário,
dirigido por um pequeno grupo de bispos alemães, franceses, holandeses.
Pessoalmente, eu penso que houve uma evolução no episcopado. Muitos bispos
mudaram durante o Concílio, que foi para eles uma escola de formação que os
conduziu a uma atualização teológica, às vezes até mesmo a uma autocrítica.
Também devemos lembrar o
golpe de efeito que ocorreu no segundo dia do Concílio. Sob a liderança do
cardeal francês Liénard e do cardeal alemão Frings,
os bispos recusaram-se a confirmar as modalidades de trabalho previstas pela
Cúria. Compreendeu-se naquele momento que o Concílio não seria um concílio de
ratificação, mas sim de discussão. Desde o início, aparecem tensões sobre as
orientações referentes ao ecumenismo, à colegialidade – isto é, o trabalho de
concertação e de reflexão entre os bispos – e à liberdade religiosa.
Quais são os
principais pontos de ruptura contidos nos textos do Concílio Vaticano II?
Um dos mais textos mais
importantes e mais inovadores, a Gaudium et Spes,
define as relações da Igreja com o mundo e lhe dirige uma mensagem. Tornar-se-á
um dos eixos centrais do debate conciliar, embora não houvesse sido nem objeto
de trabalhos preparatórios! É o Concílio que cria essa necessidade. Esse texto,
de inspiração francesa, parte das expectativas do mundo, dos "sinais dos
tempos".
É preciso situá-lo no
contexto dos anos 1960, marcado por uma espécie de euforia com o surgimento da
sociedade de consumo, a conquista do espaço, as evoluções culturais...
Encontra-se nele aquele otimismo que alguns podem achar hoje um pouco ingênuo e
um pouco datado. No entanto, traz um grande respiro, porque apresenta uma
Igreja que quer estar ao serviço do ser humano, uma Igreja que não reivindica
nenhum privilégio, mas que propõe. Os debates sobre esse texto foram uma
verdadeira linha de ruptura entre os Padres conciliares, e continua sendo ainda
hoje.
Tomemos também o exemplo do
trabalho sobre a revelação divina. Os bispos constatam que os estudos de
exegese histórico-bíblica, considerados como potencialmente perigosos por Roma,
não foram levados em consideração pela Cúria. Com o apoio do papa, retomarão a
reflexão. O resultado será a constituição Dei Verbum ("Palavra
de Deus"), um dos textos mais novos, que encorajará os fiéis a lerem e a
estudarem a Bíblia, enquanto até aquele momento o magistério se reservava o
monopólio da interpretação da Escritura.
Podendo-se levar em conta as
descobertas científicas em arqueologia ou em filologia, rompe-se em parte com a
leitura literal da Bíblia, com a ideia da "infalibilidade absoluta"
da Escritura, segundo a qual a Bíblia não pode conter erros, já que é a Palavra
de Deus. Alguns historiadores falam a esse respeito da derrota da teologia
romana.
Mas há dois outros documentos
fundamentais do Concílio, Nostra Aetate, sobre as
relações com as outras religiões, particularmente a religião judaica, e Dignitatis
humanae, sobre a liberdade religiosa, que são a maior ruptura com
relação à situação anterior. Esses textos são também os mais atuais. Por
exemplo, antes do Concílio, nenhum único bispo havia pedido uma condenação do
antissemitismo ou levantado a questão judaica. Nem mesmo a problemática da
relação com as outras religiões havia sido posta. Depois de um encontro com o
historiador Jules Isaac, pioneiro das amizades
judaico-cristãs, João XXIII imporá esse tema. Trata-se de
rever o ensinamento da Igreja sobre os judeus, de repensar a relação teológica
da Igreja com o judaísmo. Passa-se de uma teologia da substituição (a Igreja se
substitui a Israel, que é reprovado por Deus) à teologia da filiação.
No início, o ponto central do
texto refere-se, portanto, à questão judaica, mas os bispos, querendo evitar
dar a impressão de que o Concílio tomava uma posição política em favor de Israel,
sob a pressão dos bispos orientais, ampliarão o texto a outras religiões,
particularmente ao Islã. Esse alargamento o torna hoje de grande atualidade.
Quanto à liberdade religiosa, que pressupõe que nenhum ser humano deve ser
forçado ou impedido de praticar uma religião, ele teve que superar uma herança
histórica pesada, feita de intolerância. É um fato aceito muito importante, que
permite que a Igreja hoje, nas suas relações com o Islã, assegure: "Não
temos problemas com a liberdade religiosa", e convide à reciprocidade.
Embora não devamos esquecer que essa atualização é recente!
Esses textos sobre o
diálogo inter-religioso e sobre a liberdade religiosa, agora considerados
fundamentais por Roma, suscitaram o cisma lefebvriano. Era previsível?
As discussões sobre a Nostra
Aetate estiveram entre as mais tensas. Havia irredutíveis que não
podiam suportar a ideia de que se reabilitasse o povo judeu,
"deicida", ou que se instaurasse uma liberdade religiosa que
assimilavam ao relativismo. E foram justamente esses textos que os
integralistas rejeitariam. A sua rejeição da reforma litúrgica foi apenas um
pretexto: Dom Lefebvre havia votado o texto que introduzia as
mudanças e que previa, particularmente, a introdução das línguas modernas no
rito católico.
Mas deu-lhes uma alavanca de
mobilização, já que as mudanças litúrgicas modificavam diretamente a vida dos
fiéis. Mas não era esse o centro das suas contestações do Concílio. Apesar das
concessões de João Paulo II e de Bento XVI –
que deram novamente legitimidade à missa em latim –,eu não vejo a possibilidade
de uma reconciliação com os integralistas sobre a liberdade religiosa ou sobre
o diálogo inter-religioso.
Hoje, à parte dos
integralistas, todos na Igreja, desde o mais progressista ao mais conservador,
se dizem "conciliares". Isso significa que o Vaticano II tinha
ambiguidades em si mesmo desde o início?
Sobre a interpretação do
Concílio, há um mal-entendido desde o início, e, em pouco tempo, duas leituras
se contrapuseram. Alguns interpretam o Concílio como uma atualização sinônima a
uma adaptação ao mundo e se referem mais ao "espírito" do Concílio do
que aos textos. É preciso ligar também essa abordagem à crise latente da Igreja
pré-conciliar, mas também à evolução geral da sociedade, que entra em uma fase
de contestação depois do Maio de 1968. Isso tem um efeito de arrastamento na
Igreja. Essa corrente pensa que o Concílio legitima todas as inovações.
Outros, como Bento
XVI, interpretaram-no "à luz da tradição" mais antiga da
Igreja. O papa atual, que foi um dos teólogos do conselho, soou muito cedo o
alarme sobre a interpretação que ele considerava abusiva do Concílio. Essa
leitura, que pode ser julgada como "normalizante", tende a minimizar
a parte de novidade do Vaticano II e rejeita a noção de
atualização, que desejaria que a renovação fosse uma adaptação ao mundo. Para
essa corrente, o Concílio não é uma assembleia constituinte que substituiria
uma nova Constituição da Igreja antiga, e o critério não é a modernidade, mas
sim a verdade.
Bento XVI,
em particular, era muito crítico à Gaudium et Spes.
Como outros, ele considerava que o texto era otimista demais, aberto demais,
teologicamente frágil e que não levava em consideração a dimensão escatológica
do cristianismo: a esperança do cristianismo não se confunde com o progresso
técnico ou a defesa dos direitos humanos, porque porta uma mensagem de
salvação, de vida sobrenatural. Por muito tempo, era tabu discutir o Vaticano
II. Havia uma posição positiva do Concílio, à parte dos integralistas.
Esse tabu caiu. Hoje, aparecem avaliações mais críticas do Concílio e dos seus
efeitos, particularmente nos ambientes conservadores.
A Igreja não parece
totalmente reconciliada com as sociedades ocidentais...
A Igreja nunca poderá se
reconciliar completamente com o mundo moderno e estar no "politicamente
correto" do momento: ela perderia sua razão de ser, diluindo a sua
mensagem. Com relação aos temas ligados à família, ao casamento, à vida, não
devemos esperar uma evolução. A posição da Igreja tem a sua coerência: se ela
ceder em um ponto, corre o risco de derrubar o edifício. Mas há uma margem
entre as posições de princípio e a tolerância em nível pastoral, como com
relação ao destino dos divorciados em segunda união (oficialmente excluídos da
comunhão) ou com relação à contracepção – um assunto que os bispos adiam para
depois do Concílio e deixam à decisão do Papa Paulo VI, que
publicará, em 1968, a
encíclica Humanae Vitae, que proíbe a contracepção.
Pode-se imaginar evoluções no casamento dos padres, mas não no sacerdócio para
as mulheres.
Quais são os assuntos
sobre os quais o Concílio não foi muito longe e que colocam um problema de
credibilidade para a Igreja, assuntos que exigiriam um Vaticano III?
O problema do lugar da mulher
não foi claramente posto no Concílio, e o do lugar dos leigos é frágil. Resta
muito a ser feito também na colegialidade entre os bispos, porque a
centralização romana permanece. As questões de bioética e de moral, que naquela
época não eram colocados nos mesmos termos que hoje, também estão ausentes. Um
novo concílio poderia abordar esses problemas de crítica, de ética, de
bioética, de moral sexual, de concertação... Mas, apesar dessas lacunas,
pode-se obter muitas coisas no Vaticano II.

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