retiro online - 3.º dia - 21 de novembro de 2012: O ouvido vigilante do Discípulo.




Objectivo: Senhor, abre os meus OUVIDOS!

Música de meditação:



Para me situar, vou ler a Palavra de Deus:
Mc 7,31-37: A cura do surdo-mudo - Effatha, abre-te!;
Is 50,4-5: Ele desperta o meu ouvido cada manhã
Sl 40: Abriste-me os ouvidos para escutar!

Porta da Fé, n.º 3: «Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida (cf. Mt 5, 13-16). Também o homem contemporâneo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir Jesus que convida a crer n’Ele e a beber na sua fonte, donde jorra água viva (cf. Jo 4, 14). Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos (cf. Jo 6, 51). De facto, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este ensinamento de Jesus: «Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna» (Jo 6, 27). E a questão, então posta por aqueles que O escutavam, é a mesma que colocamos nós também hoje: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» (Jo 6, 28). Conhecemos a resposta de Jesus: «A obra de Deus é esta: crer n’Aquele que Ele enviou» (Jo 6, 29). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação.»

Graça a pedir Um ouvido vigilante capaz de reconhecer a Voz do Pastor…

O convite de Deus: “Vinde e escutai”
Ler Is 1,2: “Escutem, céus, ouça, ó terra!” e semelhantes: Ex 4, 9; Am 1, 2; Dt 6, 4; Jo 10, 1-10: antes de ser Voz do Pastor é preciso sintonizar o nosso ouvido de discípulo com a sua Voz.

Escutar Deus: Depois de escutar, segue-se a obediência e a consequência é um género de êxodo. Passa-se de uma vida “ab-surda” (Mt 7, 21-27) a um coração “em escuta” (1 Rs 3,9).

Ler 1.º Livro dos Reis 17, 1-6:
Elias é o profeta que permanece com Deus. Deus encontra em Elias um seu semlehante com quem falar e Elias tem em Deus um seu semelhante com quem estar (Eli-Yahu = Meu Deus é Yahvé).
A obediência de Elias manifesta-se numa vida inteiramente guiada pela Palavra de Deus.
Êxodo: Vai-te daqui, dirigi-te para Oriente e esconde-te na torrente de Querit…

Ler Rute 1
Deus fala a partir do próprio coração de Noemi, que antes era Mara, e de Rute.
Obediência: é a experiência de ‘duplicidade’ na nossa vida: assumir doçuras e amarguras da vida, integrar juventude e velhice...
Êxodo: Mara, que significa “A amarga”, “minha amargura” passa a ser Noemi, que quer dizer “minha doçura”. E Rute passou de nora e estrangeira a filha de Noemi e de Deus.

Reflexão pessoal:
Lêr – meditar – rezar – contemplar um destes textos:
Mc 7,31-37;
Jo 10,1-10;
1 Rs 17,1-6;
Rt 1
Escutar o Mestre: qual é “a primeira palavra” que Ele me dirige neste retiro?
Escuta o teu coração: as amarguras da velha “Mara”  e os “sonhos” da jovem Rute…






Texto de reflexão: SOLIDÃO E ESCUTA – Disciplina da oração

Extratos do livro de Henri J. M. Nouwen, Renovando Todas as Coisas.
INTRODUÇÃO
A vida espiritual é um dom. É o dom do Espírito Santo, que nos introduz no reino do amor de Deus. Mas dizer que ser introduzido no reino de Deus é um dom divino não quer dizer que esperamos passivamente até que o dom se nos ofereça. Jesus nos fala para buscar o reino. Buscar alguma coisa envolve não somente aspiração séria mas também determinação forte. A vida espiritual requer esforço humano. As forças que sempre nos puxam de volta a uma vida cheia de preocupação não são fáceis de se vencer. "Quão dificilmente", Jesus exclama, "entrarão no reino de Deus ..." (Mc 10:23). E para nos convencer da necessidade de trabalho duro, ele diz: "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16:24)
Neste ponto tocamos a questão de disciplina na vida espiritual. A vida espiritual sem disciplina é impossível. Disciplina é o outro lado do discipulado. A prática de uma disciplina espiritual nos torna mais sensíveis à voz tranqüila e suave de Deus. O profeta Elias não encontrou Deus no vento forte nem no terremoto e nem no fogo, mas no cicio tranqüilo (1 Rs 19:11-13). Através da prática de uma disciplina espiritual tornamo-nos sensíveis à essa voz tranqüila e prontos a responder quando a ouvimos.
Em relação a tudo que eu disse sobre nossas vidas preocupadas e sobrecarregaras é claro que geralmente estamos envolvidos, interior e exterior que fica realmente difícil ouvir a voz de Deus quando Ele nos está falando. Muitas vezes tornamo-nos surdos, incapazes de saber quando Deus nos chama, incapazes de entender em que direção nos chama. Desta forma nossas vidas se tornam um absurdo. Na palavra absurdo encontramos a palavra latina surdus, que significa "surdo". A vida espiritual requer disciplina porque precisamos aprender a ouvir a Deus. que constantemente fala mas a quem raramente ouvimos. Porém, quando aprendemos a ouvir, nossas vidas se tornam vidas obedientes. A palavra obediente vem da palavra latina ob-audire, que significa "ouvir". É necessário ter uma disciplina espiritual se quisermos mudar lentamente de uma vida absurda para uma vida obediente, de uma vida cheia de preocupações agitadas para uma vida em que há espaço livre no nosso interior para ouvir nosso Deus e seguir sua orientação. A vida de Jesus foi uma vida de obediência. Estava sempre escutando o Pai, sempre atento a sua voz, sempre alerta as suas direções. Jesus era "todo ouvidos". Isto é a verdadeira oração: ser todo ouvido para Deus. O cerne de toda oração é realmente ouvir, permanecer obedientemente na presença de Deus.
Uma disciplina espiritual, portanto, é um esforço concentrado para criar um espaço interior e exterior em nossas vidas, onde esta obediência pode ser praticada.
SOLIDÃO
Sem solidão é virtualmente impossível viver uma vida espiritual. Solidão começa com um tempo e lugar para Deus e somente para ele. Se realmente cremos que Deus não somente existe mas também está ativamente presente em nossas vidas - curando, ensinando, e dirigindo - precisamos reservar um tempo e um espaço para lhe dar nossa atenção ininterrupta. Jesus disse: "Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e fechada a porta orarás a teu Pai que está em secreto..." (Mt 6:6).
Produzir um elemento de solidão em nossas vidas é uma das disciplinas mais necessárias mas também mais difíceis. Mesmo que tenhamos um desejo profundo por solidão verdadeira, também experimentamos uma certa apreensão quando nos aproximamos deste lugar e tempo solitários. Uma vez que estamos sós, sem pessoas com quem conversar, livros para ler, TV para assistir, ou telefonemas para fazer, um caos interior se revela em nós. Este caos pode ser tão perturbador e tão confuso que não vemos a hora de nos ocuparmos novamente. Portanto, entrar num quarto à parte e fechar a porta, não significa que imediatamente excluímos todas nossas dúvidas interiores, ansiedades, medos, maus pensamentos, conflitos insolú­veis, sentimentos de ira, desejos impulsivos. Ao contrário, quando nos afastamos de nossas distrações exteriores, frequentemente descobrimos que nossas distrações interiores se manifestam a nós com toda a sua força. Muitas vezes usamos as distrações exteriores para nos proteger dos barulhos interiores. Desta forma não é de se admirar que tenhamos dificuldade para ficar sozinhos. A confrontação com nossos conflitos interiores pode ser dolorosa demais para ser suportada.
É claro que o importante é a fidelidade à disciplina. No início, solidão parece tão contrária aos nossos desejos que somos constantemente tentados a nos esquivar disso. Uma maneira de se esquivar é divagar na mente ou simplesmente cair no sono. Mas quando nos dedicamos à nossa disciplina, na convicção que Deus está conosco mesmo quando ainda não o escutamos, lentamente descobrimos que não queremos perder nosso tempo à sós com Deus. Apesar de não experimentarmos muita satisfação em nossa solidão, compreendemos que um dia sem solidão é menos "espiritual" do que um dia com solidão.
Intuitivamente, compreendemos que é importante gastar tempo em solidão. Até começamos a aguardar com expectativa este estranho período de inutilidade. Este desejo por solidão muitas vezes é o primeiro sinal de oração, a primeira indicação de que a presença do Espírito Deus não despercebida. Quando nos esvaziamos de nossas muitas preocupações conseguimos entender não somente com nossa mente mas também com nosso coração que nunca estivemos realmente sós, que o Espírito de Deus estava sempre conosco. Desta forma conseguimos compreender o que Paulo escreve aos Romanos: "... a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado" (Rm 5:3-5). Em solidão, chegamos a conhecer o Espírito que já nos foi outorgado. As dores e as lutas que encontramos em nossa solidão se tornam desta forma o caminho de esperança, porque nossa esperança não é baseada em alguma coisa que acontecerá depois que nossos sofrimentos terminarem, mas na presença real do Espírito de Deus que nos cura no meio destes sofrimentos. A disciplina de solidão nos permite gradativamente entrar em contato com a presença esperançosa de Deus em nossas vidas, e também nos permite experimentar mesmo agora as primícias de gozo e paz que pertencem ao novo céu e à nova terra.
A disciplina de solidão, como tenho descrito aqui, é uma das mais poderosas disciplinas para desenvolver uma vida de oração. É um caminho simples, embora difícil, para nos libertar da escravidão de nossas ocupações e preocupações e começar a ouvir a voz que faz novas todas as coisas.
Deixe-me dar uma descrição mais concreta de como a disciplina de solidão pode ser praticada. É uma grande vantagem ter um quarto ou um canto de quarto ou um quartinho! - reservado à disciplina de solidão. Tal lugar "arrumadinho" ajuda-nos a buscar o reino sem gastar tempo com preparativos. Algumas pessoas gostam de decorar este lugar, mas o importante é que o lugar de solidão seja um lugar simples e ordenado. Lá ficamos na presença do Senhor. "Nossa tentação é fazer alguma coisa útil: ler algo estimulante, pensar sobre uma coisa interessante, ou experimentar algo extraordinário. Mas nosso momento de solidão é exatamente um momento em que queremos estar na presença de nosso Senhor de mãos vazias, nus, vulneráveis, inúteis, sem nada para apresentar, provar, ou defender. É assim que, lentamente, aprendemos a ouvir a voz tranquila de Deus. Mas o que fazer com nossas muitas distrações? Devemos lutar contra estas distrações e esperar que desta forma nos tornemos mais atentos à voz de Deus? Isto não parece ser a maneira de se entrar em oração. Criar um espaço vazio onde podemos ouvir o Espírito de Deus não é fácil quando colocamos toda nossa energia na luta contra as distrações. Se confrontamos as distrações de maneira tão direta, acabamos lhes dedicando mais atenção que merecem. Temos porém, as palavras das Escrituras para dedicar nossa atenção.
Embora a disciplina de solidão exija que separemos para isso tempo e espaço, no final de tudo o importante é que nossos corações se tornem aposentos tranqüilos e que Deus possa habitar, onde quer que vamos e o que quer que façamos. Quanto mais nos treinarmos a gastar tempo com Deus e unicamente com ele, mais descobriremos que em todo o tempo e em todo o lugar Deus está conosco. Então poderemos reconhecê-lo mesmo no meio de uma vida atarefada e ativa. Depois que a solidão de tempo e espaço se torna solidão de coração, nunca haveremos de deixar aquela solidão. Poderemos viver a vida espiritual de qualquer lugar e em qualquer tempo. Desta forma a disciplina da solidão capacita-nos a viver uma vida ativa no mundo, enquanto permanecemos constantemente na presença do Deus vivo. 

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