O OLHAR DO EVANGELIZADOR. Cultivar a Compaixão
Bento XVI, audiência
geral, 6 de abril de 2011
Graça a pedir: o olhar “com-passivo” de Jesus (Mc 6,34):
Música de meditação
Ler Actos 1, 1-26.
IAM
AO TEMPO, PARA ORAR
O
texto que lemos diz: “Pedro e João subiram ao templo para orar”
O
segredo do poder espiritual destes dois homens de Deus consistia nestas duas
coisas que o texto menciona: primeira, ir ao templo (casa de Deus), segunda: para
orar.
Hoje
muitos perdem as bênçãos porque não vão à igreja;
Outros,
porém, vão à igreja, mas sem o objetivo de orar:
– vão
à igreja como se fosse um clube social, para rever os amigos, para pôr a
conversa em dia...
– um rapaz ou uma moça podem ir à igreja para
encontrar o príncipe ou a princesa de sua vida (isso é muito bom. Não há nada
de errado. A igreja é um bom lugar para encontrar a pessoa certa, que se procura
para ser feliz no matrimónio. O prolema será querer encontrar pessoas sem pensar
encontrar-se com Deus.
Pedro
e João subiram ao templo para orar…
Hoje,
porém, muitos vão à igreja e falam muito com os homens: confraternizam-se,
abraçam-se e, às vezes, esquecem-se de falar com Deus.
UM
HOMEM INTERESSADO EM DINHEIRO.
Todos
os dias o coxo estava na porta Do templo a pedir dinheiro.
– Ele
ia ao templo, mas não participava no culto.
–
Ia à casa de Deus interessado unicamente pelas coisas materiais.
– Do
lado de fora, esperava que os fiéis lhe dessem uma esmola. Diria: «Quem não me
deu à entrada, vai dar-me à saída.”
Foi
este o homem que Pedro e João encontraram.
– Os
dois discípulos aproximam-se dele. Ele aproveita a oportunidade para pedir um
pouco mais de dinheiro no fim do expediente daquele dia – às três horas da
tarde.
APLICAÇÃO
DESSE FACTO À NOSSA VIDA MODERNA.
– Se
há 20 séculos aquele paralítico se interessava por dinheiro mais do que por qualquer
outra coisa, que dizer dos Homens atuais. Hoje, em virtude do vertiginoso
progresso industrial a par do surgimento de uma sociedade de consumo e de
publicidade insinuante, criam-se na nossa mente muitas vezes necessidades
artificiais: é o consumismo.
– O
homem do mundo hodierno vive com base na filosofia do TER, quando deveria viver
fundamentado na filosofia do SER.
– Mas
no reino de Deus o mais importante é SER e não apenas TER. Deus não está
preocupado com aquilo que temos. Deus está preocupado com aquilo que somos.
O
QUE O DINHEIRO NÃO PODE COMPRAR
Pedro
e João, que eram pescadores, perceberam como na sua vida o Ser discípulo e
apóstolo do Mestre foi mais importante do que ter um empresa, muitos bens,
estatutosocial.
Pedro
meteu a mão no bolso e não tinha nenhuma moeda. E ainda bem, pois:
– O
dinheiro pode comprar as melhores comidas, mas não compra o apetite.
– O
dinheiro pode comprar a mais linda cama, mas não compra o sono.
– O
dinheiro pode comprar uma bela casa, mas não compra um lar feliz.
– O
dinheiro pode comprar um diploma, mas não compra a sabedoria.
– O
dinheiro pode comprar o remédio, mas não compra a saúde.
– O
dinheiro pode comprar a justiça humana, mas não pode limpar a consciência.
– O
dinheiro pode comprar a justiça dos homens, mas nunca a justiça de Deus.
– O
dinheiro é até capaz de comprar uma cadeira cativa na igreja, mas não um lugar
no céu.
– O
dinheiro não pode comprar o Amor.
– O
dinheiro não pode comprar o Caráter.
– O
dinheiro não pode comprar a Salvação.
O
QUE NECESSIAMOS HOJE COMO IGREJA
A Igreja
necessita hoje não é tanto de dinheiro, mas do poder do Espírito Santo.
E,
porque Pedro e João tinham o poder do Espírito Santo, foi isto o que o
paralítico recebeu deles:
– Primeiro:
JESUS CRISTO: «Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho te dou: em nome
de Jesus Cristo, o Nazareno, anda!; disse-lhe Pedro.
Todos
nós temos Jesus Cristo para dar.
E se
temos Jesus Cristo no nosso coração, então dêmo-lo. Falemos de Jesus àqueles
que não O conhecem.
PODER
PARA SER A IGREJA
Depois
de curado, o paralítico atirou fora a muleta. Os seus pés e tornozelos se
firmaram. E, mais importante, «de um salto, pôs-se de pé, passou a andar e ENTROU
COM ELES NO TEMPLO...
O
homem coxo estava há muitos anos à entrada da casa de Deus, vivendo de esmolas e
não do que lhe dava dignidade.
O
que tira a dignidade são:
– medos.
–
preconceitos.
PROCLAMAÇÃO
O
homem «entrou no templo saltando e louvando a Deus». Depois, falou da
experiência de sua própria vida. Todos se encheram de admiração e assombro pelo
que lhe acontecera. Em casa, toa a gente queria saber o que se havia passado
com ele.
Ou
seja, aquele homem TESTEMUNHOU A SUA FÉ.
CONCLUSÃO:
Pedro
disse: “O que tenho te dou”.
Recebendo
o Espírito de Deus podemos fazer muitas coisas em prol de Sua Causa.
E
só assim seremos semelhantes a Pedro e João.
A CIÊNCIA DO AMOR em Teresa do
Menino Jesus
Santa
Teresa de Lisieux, Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, viveu neste mundo
apenas 24 anos, no final do século XIX, levando uma vida simples e oculta, mas
que depois de sua morte e da publicação dos seus escritos, tornou-se uma das
santas mais conhecidas e amadas. A "pequena Teresa" não deixou de
ajudar as almas mais simples, os pequenos, os pobre, os que sofrem e os que
rezam a ela, mas também iluminou toda a Igreja, com sua profunda doutrina
espiritual, tanto assim que o Venerável João Paulo II , em 1997,
quis dar-lhe o título de Doutora da Igreja, acrescentando o título de Padroeira
das Missões, dado por Pio XI, em 1939. Meu querido predecessor a definiu como
uma "especialista na ‘scientia amoris'" (‘Novo Millennio ineunte',
27). Esta ciência, que vê brilhar no amor toda a verdade da fé, Teresa a expressa
principalmente no relato da sua vida, publicado um ano após a sua morte com o
título de "História de uma alma". É um livro que foi de imediato um
enorme sucesso; foi traduzido para muitas línguas e distribuído em todo o
mundo. Eu gostaria de convidar-vos a redescobrir este pequeno-grande
tesouro, este luminoso comentário do Evangelho plenamente vivido!
"História de uma alma", de fato, é uma maravilhosa história de amor,
contada com tal autenticidade, simplicidade e frescor, que o leitor não pode
deixar de ficar fascinado! No entanto, qual é esse amor que preencheu a vida de
Teresa, desde a infância até sua morte? Queridos amigos, este amor tem um
rosto, tem um nome, é Jesus! A santa fala continuamente de Jesus. (…)
No
Evangelho, Teresa descobre sobretudo a misericórdia de Jesus, a ponto de dizer:
"Ele me deu sua misericórdia infinita; através dela contemplo e adoro a
demais perfeições divinas! (...) E então todas me parecem radiantes de amor; a
própria justiça (e talvez mais do que qualquer outra), parece-me revestida de
amor". Assim se expressa também nas últimas linhas da "História de
uma alma": "Basta folhear o Santo Evangelho e imediatamente respiro o
perfume da vida de Jesus e sei para onde correr... Não é ao primeiro lugar, mas
ao último que me dirijo... Sim, eu o sinto; inclusive se tivesse sobre a
consciência todos os pecados que se podem cometer, iria com o coração partido
de arrependimento lançar-me nos braços de Jesus, porque sei o quanto Ele ama o
filho pródigo que retorna a Ele". "Confiança e amor" são, portanto,
o ponto final do relato da sua vida, duas palavras que, como faróis, iluminaram
todo o seu caminho de santidade, para poder guiar no seu próprio "pequeno
caminho de confiança e amor", da infância espiritual. Confiança como a da
criança que se abandona nas mãos de Deus, inseparável pelo compromisso forte,
radical do verdadeiro amor, que é o dom total de si mesmo, para sempre, como
diz a santa, contemplando Maria: "Amar é dar tudo, é dar a si mesmo".
Assim, Teresa indica a todos nós que a vida cristã consiste em viver em
plenitude a graça do Batismo, no dom total de si ao amor do Pai, para viver
como Cristo, no fogo do Espírito Santo, o seu próprio amor aos outros.
Bento XVI, audiência
geral, 6 de abril de 2011
Espiritualidade
que brota da contemplação da realidade
Toda
contemplação começa na dureza do real, da vida quotidiana, onde está
permanentemente connosco o Cristo vivo: "Eis que estarei com vocês todos
os dias até a consumação dos séculos" (cf. Mt 28,20). A convicção desta
presença fiel de Cristo na dureza do real impede de cair na tentação de fugir
das situações desafiadoras, em que somente se escuta o silêncio de Deus. Para
cultivar uma espiritualidade encarnada e profética, é preciso aceitar o
escândalo da cruz como manifestação do amor sem medida de Deus! (I Cor 2,1-5).
Mas
a imagem de um crucificado sangrando, impotente diante dos que o torturam,
humilhado e abandonado, é um desafio grande demais para o imaginário simbólico
da cultura do mercado global. Quem consegue contemplar a glória de Deus na
carne de um crucificado? (Jo 12,28). Que glória pode ser contemplada em um
corpo todo ferido, repugnante ao nosso olhar? Há tantos corpos semelhantes,
importados das periferias do mundo pelos meios de comunicação! São corpos que
passam rapidamente pelas telas da TV, apenas por toleráveis segundos, para
seguir sem alívio em direcção à morte!
No entanto, uma
espiritualidade encarnada é expressão da fé, da certeza de que dos corpos
crucificados emana um brilho, uma luz muito mais instigante e duradoura do que
a das imagens maquiadas que aparecem na TV e nas revistas, sorridentes por
terem conquistado o êxito que a nossa cultura tanto valoriza.
Para
ter essa fé, essa certeza, é preciso fazer experiência de proximidade com esses
corpos feridos. Vendo-os de longe, pelas imagens da TV, ou pelas vidraças dos
carros, sentimos apenas medo ou repugnância. Não chegamos a fazer a experiência
que muda o nosso olhar, como aconteceu com a comunidade dos discípulos de
Isaías: “Assim como se pasmaram diante dele, tão desfigurado estava o seu
aspecto, assim estremecerão muitas nações. Reis fecharão a boca,
pois verão aquilo que não lhes foi contado e compreenderão aquilo que não
escutaram” (Is 52,14-15).
A
dor dos pobres e inocentes, a repressão contra as pessoas que reclamam justiça
e direitos iguais para todos podem ser a denúncia mais forte, a luz que de
repente ajuda a ver e a analisar uma realidade maquiada pelo poder do capital
que controla a média. Porque, quando entramos em contacto directo com a
realidade, inseridos no meio de pessoas concretas, cujos corpos podemos tocar,
cuja dor penetra nossas entranhas, o véu que cobre e esconde a realidade cai!
Ver de perto a dor
dos corpos indefesos e escutar seus clamores nos desperta da apatia e nos
sobressalta!
Tomamos um susto ao
lembrar que seguimos Jesus de Nazaré, que abriu mão de tudo o que era seu e
tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E,
vivendo a vida comum de um ser humano, ele foi humilde e obedeceu a Deus até a
morte — morte de cruz (cf. Fl 2,7-8). A ressurreição é o carimbo e a assinatura
de Deus no projecto de Jesus.
Espiritualidade
encarnada e profética
Uma espiritualidade
encarnada é consequência desse encontro com o real, com os corpos crucificados
pelo sistema excludente do mercado global. Essa aproximação comprometida com a
vida dos pobres possibilita uma compreensão mais profunda do mistério da
encarnação, superando a velha e ideológica visão de mistério como algo que não
podemos penetrar. Essa compreensão do mistério levou-nos a admirar e a contemplar a encarnação
de Jesus sem perceber todo o seu significado para a vida humana. Na encarnação
de Jesus, Deus assume a humanidade, a corporeidade, a condição histórica de
cada pessoa neste mundo.
No
mistério da encarnação, Deus se identifica com a humanidade que sofre e também
com a humanidade que se alegra, experimentando, em Jesus de Nazaré , o
cansaço, a fome, a sede, a dor da perda de um amigo, a angústia diante da
morte. No mistério da ressurreição de Jesus, Deus manifesta que todo corpo é
templo do Espírito (cf. 1Cor 3,16; 6,19; Ef 2,22), proclamando mais uma vez sua
máxima dignidade. E o espírito de Jesus Cristo ressuscitado que resgata e
recria os corpos feridos e os confirma para sempre como sua imagem e
semelhança (cf. Gn 1,26-27).
Assumir
que Jesus veio em carne é profecia actual, porque não nos permite ver
indiferentemente os corpos que são transformados no lixo humano do sistema de
mercado. Desde o começo do cristianismo houve a tentação de negar que Jesus
Cristo veio em carne. A comunidade joanina enfrentou-se com pessoas que negavam
a encarnação de Jesus, chamando-as de "anticristos" (cf. 2Jo,7). Para
a comunidade joanina, o critério para a verificação da fé cristã está no
assumir que "o filho de Deus veio em carne" (1Jo 4,2). Nessa
verificação a comunidade joanina relaciona cristologia e ética (1Jo 4,20). Uma
ética fundamentada no amor e no reconhecimento da presença de Deus em todas as
pessoas.
É o
Espírito de Deus que possibilita a verdadeira confissão de fé em Jesus, que
veio em carne (cf. 1Jo 4,2-3), que tomou corpo e que nos possibilitou ser
verdadeiramente imagens de Deus (cf. Gn 1,26-27). Negar que Jesus veio em carne
é negar que Deus é capaz de fazer além, infinitamente além de tudo o que nós
podemos pedir ou conceber (cf. Ef 3,20). É negar que para Deus nada é
impossível (cf. Lc 1,34). Afirmar a encarnação de Deus é afirmar que outro
mundo é possível, que é possível outra Igreja mais ágil no anúncio do Reino,
mais liberta e libertadora.
Uma
espiritualidade encarnada somente é possível quando se vive no âmago da
história, ainda que esta seja contraditória e desafiadora, como no tempo de
Jesus. E dentro dessas contradições que se vive o amor autêntico, solidário,
generoso: A pessoa autenticamente espiritual não é aquela que tem experiências
espirituais extraordinárias, mas sim aquela que vive profundamente o amor ao
próximo e o respeito ao próximo. Ser cristão é viver o amor pelo outro, no
diálogo e no respeito, aberto ao futuro (utopia).
Padre João Mendonça, mestre em
Educação

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