retiro online - 8.º dia - 28 de novembro de 2012 - FÉ E GOSTO DE VIVER – Encarar o futuro como oportunidade
A FÉ E OS SENTIDOS DO NOVO
EVANGELIZADOR. “Tende em vós o mesmo sentir de Jesus” (Fil 2,5)
Música de meditação
FÉ E GOSTO DE VIVER – Encarar o futuro como
oportunidade
Graça a pedir: cultivar o gosto pela
vida e por isso reconciliar-se com a nossa idade!...
Música de meditação
Sete passos:
1. CINGE-TE!
"E tu, cinge-te e
põe-te de pé…” (Jeremias 1, 17)
Em
que consiste “cingir-se”? Tomar a decisão de assumir a própria
existência, habitá-la e começar a negociar as mudanças que a mudança de idade
vai trazer. Não se trata de se desinteressar da vida mas de encontrar outros
modos de ação e presença.
2. SOLTA!
"Ele disse: -
Deixa-me ir que a aurora desponta. Jacob respondeu: - Não te soltarei enquanto
não me abençoares". (Génesis 32, 27)
Soltar: verbo estranho que vai
contra corrente: possuir, armazenar, acumular e reter, levam a pensar que o objetivo
da vida é a apropriação. Neste “soltar” ressoam outras expressões do Evangelho:
perder, vender, dar, deixar, não armazenar, não atesourar, não reter
avidamente, esvaziar-se… Jacob lutou com o seu adversário para arrebatar uma
bênção, mas só a conseguiu quando aceitou de o soltar. E descobriu, ao
amanhecer, que fora abençoado e recebera um novo nome.
3. LEMBRA-TE
"Lembra-te da
maneira como o Senhor te conduziu nestes quarenta anos no deserto..." (Deuteronómio
8, 2).
Se para nós o passado está “atrás”, para Israel está
“à frente”. Uma maneira diversa de conceber o tempo, porque o passado,
conhecido, é o que está diante de nós, enquanto o futuro, desconhecido, está atrás
de nós, às nossas costas. O crente é, portanto, como um viajante que caminha
para o futuro andando para trás, fiando-se da fidelidade de Deus ao longo da
sua história, que está diante de nós.
4. NÃO TE AGARRES AO
PASSADO
"Não te lembres
mais do passado, não vos fixeis no antigo, pois vou realizar algo de novo, que
já está a aparecer: não o notais? Vou abrir um caminho no deserto, e fazer
correr rios na estepe" (Isaías 43, 19).
A constante referência ao passado, tão comum em
idosos, pode ser uma opção "biófila" (de amor pela vida vivida), que
nos enche de gratidão e nos dá um espírito de louvor e alegria. Mas também pode
tornar-se um hábito "necrófilo", voltando ao passado na forma de
ressentimentos, murmurações e recriminações.
O futuro é "o que vem" (Isaías 41, 22,
44,7), é o "novo" (Isaías 42, 9), que nos conduz ao Deus criador,
determinado a concluir o trabalho que já começou em nós e que ainda está
inacabado.
5. NÃO TENHAS MEDO
"Quando Raquel
sentiu as dores do parto, a parteira disse: Não temas, que tens um filho"
(Génesis 35, 17).
A parteira animou Raquel em
vias de dar à luz seu segundo filho. Como ela morre, podemos pensar que a exortação a não
temer foi um falso conforto. Mas não é assim: o filho que deu à luz, Benjamin,
"filho da minha direita, da minha sorte", levará no seu nome, como
uma confissão de fé, a vitória da vida sobre a morte.
O “filho” que nasce de nós é fruto de desistir da obsessão
de controlar tudo e fazer da incerteza sobre a fase final de nossas vidas uma
ocasião para começar a gostar a paz e delícia do abandono.
6. ESCOLHE
"Olha, eu ponho
hoje diante de ti a
bênção e a maldição. Escolhe a vida" (Deuteronómio 30, 19)
A bela metáfora de "escolher a vida" é
um convite a despertar áreas adormecidas que podem estar em nós e tomar uma atitude
activa para gerar algo novo, e não estagnar. "Não rezes (não vivas,
podemos acrescentar...) numa sala sem janelas", aconselha o Talmud. Seguir
apaixonadamente interessados sobre o que acontece em nosso mundo conturbado.
Mas o chamamento a escolher a vida tem outra faceta
mais difícil de aceitar, que consiste em "escolher" voluntariamente o
que a vida, e Senhor da vida através dela, escolher para nós. O que pode tornar
apaixonante a última etapa da nossa vida é permitir que Deus nos molde através
desta "passividade do declínio".
7. ESPERA-ME
"Prepara-te para subires amanhã, de madrugada, ao
Monte Sinai e espera-me" (...) O Senhor desceu na nuvem e ficou com ele. E
Moisés pronunciou o nome do Senhor" (Êxodo 34,2.5).
Esta convocatória para
um encontro dá à vida um teor de esperança. Mas para isso temos de desistir de uma
vida à "velocidade de cruzeiro" e aprender a viver como
"cidadãos do Céu, esperando a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo"
(Filipesnes 3:20).
"Eu não sei o que
vai acontecer no outro lado. Tudo o que posso fazer é acreditar, teimosamente,
que o amor está esperando por mim".
Pode ser difícil subir
morro acima e esperar no topo, sem saber como e quando Deus vai aparecer e
fazer-nos entrar na sua nuvem. Mas sabemos que o Senhor não faltará ao
encontro. Pronunciaremos o Seu Nome e Ele o nosso.
Reflexão
- Exercício de
reconciliação com... a nossa idade, tendo como medida S. Paulo!
S. Paulo é uma figura
excepcional em que se espelha a figura de Cristo e a vocação apostólica de todo
cristão. O 13.º apóstolo”, o maior missionário de todos os tempos, terá
percorrido vinte mil quilómetros, por terra e por mar. Mas a sua grandeza não
vem tanto da distância percorrida quanto do cariz extraordinário do seu
apostolado.
Dificilmente alguém
poderá um dia igualar a intensidade da paixão de Paulo por Cristo e pelo
Evangelho. O “aborto” de apóstolo, o último deles, que se achara indigno de ser
chamado tal (1 Cor 15,8-10), em realidade tornar-se-ia “o primeiro depois do
Único”. A sua figura de apóstolo e a Palavra inspirada das suas Cartas são um
faro que continua, pelos séculos, a iluminar a Igreja.
É surpreendente como uma
só pessoa, pelas suas ideias o pela sua acção, pode mudar o rumo da história e
a sua influência prolongar-se durante séculos.
E Deus, hoje, anda à
procura de “uma só pessoa”: de cada um de nós!
Uma pessoa faz a
diferença. E que diferença, às vezes!... Por isso Deus procura tocar e
conquistar o coração de uma pessoa para salvar todo o seu contexto.
Hoje Deus dirige-se a
cada um de nós, como outrora a Paulo, para nos propor uma fecundidade de vida
incalculável. Todo cristão, em qualquer tipo de vocação eclesial, a certa
altura é chamado a tomar uma decisão fundamental, radical: optar por um tipo de
vida no rasto de Paulo e de tantos outros, voando alto ao vento do Espírito,
totalmente envolvida na dupla paixão por Cristo e pelos irmãos; ou adoptar uma
vida a baixo perfil, navegando à vista, colhendo as pequenas satisfações da
vida... A aposta é grande! A resposta depende da nossa generosidade e coragem
de cada um. Aceitaremos nós o desafio?
Confrontar-me com Dez
“palavras” de Paulo
1. A mim, o menor de todos os santos, foi
dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo (Efésios 3,
8).
2. Fiz questão em não pregar o evangelho
onde já tinha sido invocado o nome de Cristo (Romanos 15, 20).
3. Anunciar o evangelho não é título de
glória para mim; é, antes, uma necessidade que se me impõe. Ai de mim, se eu
não anunciar o evangelho! (1 Coríntios 9, 16).
4. Ainda que livre em relação a todos,
fiz-me o servo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. (1 Coríntios
9, 19).
5. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que
vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus,
que me amou e se entregou a si mesmo por mim (Gálatas 2, 20).
6. Eu me regozijo nos meus sofrimentos por
vós, e completo, na minha carne, o que falta das tribulações de Cristo pelo seu
Corpo, que é a Igreja (Colossenses 1, 24).
7. Quanto a mim, não aconteça gloriar-me
senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado
para mim e eu para o mundo… Pois eu
trago em meu corpo as marcas de Jesus (Gálatas 6, 14.17).
8. Deus me é testemunha de que eu vos amo a
todos com a ternura de Cristo Jesus (Filipenses 1, 8).
9. Eu servi ao Senhor com toda a humildade,
com lágrimas, e no meio das provações… E nada do que vos pudesse ser útil eu
negligenciei… (Actos 20, 19-20).
10. Sede meus imitadores, como eu mesmo o sou
de Cristo (1 Coríntios 11, 1).
Memórias de um teólogo
italiano no ocaso da vida
Diálogo entre a escritora italiana e estudiosa do
judaísmo Elena Loewenthal e Enzo Bianchi, prior do mosteiro de Bose, autor do
livro “Ogni cosa alla sua stagione” [Cada
coisa à sua estação], um título forte, cheio de significado. Não traz o verbo
“ter”, que no hebraico da Bíblia não existe – “cada coisa tem a sua estação” – mas
o seu contrário, aquela atitude “dativa”, que nessa língua substitui a posse.
Enzo Bianchi – Decidi plantar um caminho de tílias
porque sou idoso. Na minha idade, acredito que é necessário fazer atos de confiança
no futuro desta terra. Estão debaixo do meu ermo: não sei por quantos anos
poderei sentir o perfume surpreendente que emanam em maio, principalmente de
manhã cedo e nas longas noites cheias de luz. Esse perfume que sobe da terra da
colina será principalmente para os outros que virão depois de mim. Quando a
velhice nos pega, é importante pensar não apenas em nós, mas, ao contrário,
reavivar a nossa relação com aquilo que nos circunda, expressar respeito pela
vida que vivemos e gratidão por esta terra tão bela. Mesmo que teremos que
deixá-la.
Elena Loewenthal – O
tempo, entendido como um valor, não é uma posse. Os Padres antigos diziam que o
tempo é de Deus, não nosso. Nós o habitamos, mas não dispomos dele, porque nos
foge todas as vezes que tentamos aferrá-lo. A impressão é de que estamos a perder
esse sentido do tempo como território no qual viver e não como objeto a possuir…
Enzo Bianchi – Vivemos um mundo em fuga. Deixamos
que o tempo se tornasse uma dimensão estranha: somos a “geração pós-mortal”,
porque não temos a percepção do nosso limite. Ouço frequentemente as pessoas a usar
o futuro do subjuntivo, “quando eu fizer...”: significa não viver nem o
presente nem o futuro! A separação do tempo é, depois, de si mesmo, da relação
com os outros. E pensar que tudo isso foi o fermento da nossa cultura. Nós, no
Ocidente, temos as estações, que ritmaram a civilização e a cultura em uma
contínua dinâmica entre a plenitude da vida no verão e o inverno, em que tudo
dorme. E depois somos, por definição, pessoas das terras onde “o sol cai”, o Occasum. A perda dessas noções torna-nos
muito pobres, incapazes de habitar o tempo.
Elena
Loewenthal – E também frágeis, principalmente em relação ao tempo da nossa
vida.
Enzo Bianchi – A velhice é ainda um tempo a ser
vivido, não a ser negado. E nem devemos ter medo dela. É preciso procurar
atravessá-la de modo consciente, segundo os cânones da verdadeira arte, aprender
uma gramática do(a) velho(a) que não seja “até agora vivi para os outros, agora
me dedico para mim”. Uma grande lição que a Bíblia me ensinou é que a vida existe
até que haja relação. A morte é ausência de relação: os Salmos dizem que os
mortos não louvam a Deus. Se a vida é relação, a velhice também deve se
adequar, mesmo com a sua lentidão e fadiga. O que dá mais medo aos velhos não é
a dor ou a morte, mas a
solidão. A exclusão do ciclo da vida. Para curá-la, é preciso
empenho cultural e políticas clarividentes. É preciso principalmente se
preparar para uma velhice em que a relação continue.


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