Bento XVI e o Jesus histórico


Aristide Serra estuda, há 40 anos, os Evangelhos da Infância. Ele é padre servita, biblista do Marianum, tem a curiosidade do estudioso e a paixão do enamorado. Busca pistas e concordâncias nos textos antigos, entre hebraico, grego, latim.



A reportagem é de Vittoria Prisciandaro, publicada na revista italiana Jesus, n. 12, de dezembro de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Questionado a propósito do último livro de Bento XVI, A infância de Jesus, refere que «o último livro do papa não acrescenta nada de novo do ponto de vista científico». «O Santo Padre se baseia em estudos de biblistas do passado e do presente que tratam dos Evangelhos da infância. A verdadeira nota característica é o estilo pastoral com o qual Bento XVI acompanha o leitor ao encontro com Jesus.»

Serra cita em particular algumas expressões que lhe chamaram a atenção, visando a mostrar a relevância do discurso evangélico. Por exemplo, a comparação entre as duas anunciações – a de Zacarias e a de Maria – e o comentário do papa diante do contraste entre os dois cenários: "De um lado, o sacerdote, o Templo, a liturgia; de outro, uma jovem mulher desconhecida, uma pequena cidade desconhecida, uma desconhecida casa privada. O sinal da Nova Aliança é a humildade, o escondimento: o sinal do grão de mostarda. O Filho de Deus vem na humildade". 
E depois acrescenta: "Desde o nascimento, Ele não pertence àquele ambiente que, segundo o mundo, é importante e poderoso. Mas justamente esse homem irrelevante e sem poder se revela como o verdadeiramente Poderoso. Portanto, faz parte do tornar-se cristão o fato de sair do âmbito daquilo que todos pensam e querem...".
Passando para a leitura do texto, Serra não se isenta e se refere ao convite feito por Bento XVI no primeiro volume da trilogia: "Este livro não é de modo algum um ato magisterial, mas é unicamente expressão da minha busca pessoal do 'rosto do Senhor'. Por isso, cada um é livre para me contradizer".

Entrevista:
Sob essa ótica, como estudioso, o que o senhor integraria ao livro sobre a infância?
Permita-me fazer um destaque sobre as fontes elencadas na bibliografia. Se tirarmos as Bucólicas de Virgílio, contam-se 20 autores alemães, quatro franceses, um espanhol e um italiano, um texto divulgativo do cardeal Ravasi. A produção italiana, riquíssima na matéria, é completamente ignorada. O mesmo pode se dizer sobre a produção inglesa. Não se cita, por exemplo, Raymond Edward Brown, que escreveu uma obra fundamental dedicada ao nascimento de Jesus. O banquete é empobrecido.
A intenção do papa é demonstrar que o Jesus dos Evangelhos é precisamente o Jesus histórico: o que está escrito realmente aconteceu. Uma leitura da qual a moderna exegese histórico-crítica se distancia. O que o senhor pensa?
Os Evangelhos são textos históricos, compostos, porém, segundo as regras aplicadas naquele tempo no âmbito judaico para escrever a história. Menciono dois desses critérios. O primeiro é a contínua referência aos livros do Antigo Testamento, para atestar que Jesus veio não para abolir, mas sim para levar à perfeição a história que preparou a sua vinda. Juntamente com o Antigo Testamento, é preciso conhecer a vasta literatura judaica que comentava e atualizava esses escritos normativos para o povo de Israel. Eis, então: as obras de Filão de Alexandria, Flávio Josefo, os textos da comunidade de Qumran, os midrashîm, ou seja, comentários aos livros bíblicos por obra dos mestres de Israel, o Talmud... Essa série de escritos bíblicos e parabíblicos representam o mundo cultural em que viviam os autores dos Evangelhos. 
O segundo critério, fundamental, é a Páscoa do Senhor. Em outras palavras, Mateus e Lucas transmitem recordações da infância de Jesus, interpretadas, porém, à luz da sua Ressurreição. Jesus manifestou a sua identidade plena ressuscitando dos mortos. Por isso, a Páscoa se refere ao Natal, e Natal é compreendido a partir da Páscoa. Compreende-se, nesse ponto, a função insubstituível da chamada "exegese histórico-crítica". Ela busca nos fazer compreender o texto evangélico, situando-o no mundo cultural do qual nasceu há cerca de 2.000 anos. Esgotada essa operação, entra em cena a hermenêutica, ou seja, a resposta à pergunta sempre atual: hoje, qual mensagem transmite a nós um escrito tão antigo? O livro de Bento XVI é visivelmente percorrido por essa preocupação tipicamente pastoral.
A virgindade de Maria também deve ser lida sob esta luz?
A propósito da virgindade de Maria, o papa escreve:" Parece-me normal que, só depois da morte de Maria, o mistério [do nascimento virginal] pudesse se tornar público e entrar na comum tradição do cristianismo nascente". Sobre esse assunto, eu teria uma posição um pouco diferente. Estou inclinado a pensar que a Páscoa também foi o epicentro da questão mariana, no que se refere à concepção virginal de Jesus. 
Explico-me: a Ressurreição de Cristo foi anunciada segundo diversas abordagens na pregação apostólica. Um desses módulos refere-se à Ressurreição de Jesus considerada como uma "geração-parto-nascimento". O túmulo de Jesus se configurou quase como um "ventre" a partir do qual o Pai, mediante a força do Espírito Santo, gerou o Filho à vida incorruptível e eterna. No evento da Páscoa, não agiu uma força humana, mas unicamente uma energia divina. Do ventre do túmulo de Jesus, a Igreja foi induzida a se perguntar de que modo a humanidade de Jesus apareceu no outro ventre, o da sua mãe terrena, Maria, que vivia na comunidade de Jerusalém, como contam os Atos. 
Nesse ponto, Maria, solicitada pela Igreja apostólica, tornou-se testemunha das "grandes coisas" realizadas pelo Poderoso no evento da encarnação. Assim percebeu-se a conexão entre o ventre "novo" do túmulo de Jesus (Mt 27, 60; Lc 23, 53; Jo 19, 41) e o ventre "virgem" de Maria (Mt 1, 18.20; Lc 1, 35). Assim teve origem o trecho evangélico da Anunciação (Lc 1; 26-38). Logo a Igreja descobriu a conexão existente entre o renascimento virginal da ressurreição e o nascimento virginal da encarnação.
Os pastores, os reis magos, a estrela: como distinguir o fato da sua interpretação?
Não é preciso ir aos extremos: tudo parábola ou tudo história. Se aproximarmos os textos com discernimento paciente, seremos capazes de jogar uma discreta luz sobre a linha de demarcação entre "fato" e "interpretação do fato". Obviamente, diversos detalhes do relato, conhecidos aos destinatários do Evangelho, continuam para nós envoltos na penumbra do enigma. Em todo caso, tenhamos em mente – e o papa se refere a isso várias vezes – que os eventos da infância de Jesus têm como fonte de informação a sua própria família, com referência privilegiada a Maria, sua mãe. 
Ela – atesta Lucas duas vezes – "guardava todas essas coisas no seu coração". É de notável importância o fato de que, segundo o ensinamento da Escritura, a "memória" também é ordenada à "transmissão" dos fatos recordados. O exemplo típico são os pastores. Talvez – assim pensava o conhecido biblista alemão Joachim Jeremias – fossem os proprietários da caverna-gruta que viu o Natal do Senhor.
Mas o que conta, acima de tudo, é o fato de que Lucas vê nesses pastores uma antecipação de outros pastores: os futuros pastores da Igreja, isto é, os apóstolos, que, juntamente com os seus colaboradores, anunciam a ressurreição do Senhor. É por demais evidente a influência da Páscoa! Os pastores de Belém, segundo a pena de Lucas, tornam-se evangelizadores.


Comentários