P.e Alfredo J. Gonçalves
Assessor das Pastorais Sociais
Adital
Desde seus
primórdios, a humanidade regista no terreno da história caminhos distorcidos e
errantes. Um verdadeiro labirinto de vias múltiplas, diferentes e
contraditórias, de becos sem saída, de veredas que levam a lugar nenhum. Tais
descaminhos resultam de ações equivocadas ou imtepestivas, tanto a nível pessoal,
familiar e comunitário quanto a nível nacional e internacional.
Apesar
destas "linhas tortas”, como lembra o provérbio popular do título, não é
tão difícil encontrar no pergaminho da história belas páginas, onde uma espécie
de mão invisível "escreve direito”. É como se a luz de Deus penetrasse nos
recantos mais obscuros e desconhecidos daquele labirinto humano, iluminando
nossos passos em meio aos obstáculos e à escuridão que nos cerca. Daí a
descoberta, por vezes inesperada e a posteriori, de um significado
profundo para muitos acontecimentos aparentemente absurdos e sem sentido, como,
por exemplo, o sofrimento e morte dos inocentes.
As pegadas
humanas deixadas nas pedras da trajetória histórica são ambíguas, no sentido de
revelar lembranças boas e más. Tanto umas como as outras podem ser
positivamente resgatadas, não apenas com a ação do Espírito, mas também com a
ressegnificação do passado a partir de uma luz intensa que brilha no presente.
Ou de uma experiência amorosa sem precedentes com o Absoluto, com o outro ou
com os pobres. Nesta perspectiva, os factos do passado são imutáveis, é bem
verdade, mas o seu significado permanece sempre aberto, conforme a intensidade
da entrega vivida no momento presente. A luz de um verdadeiro amor, aqui e
agora, tem efeitos retroativos, podendo resgatar toda uma existência, por mais maldita que ela tenha sido. São exemplo disso os encontros de Jesus com Maria
Madalena, com a Samaritana ou com Zaqueu, para limitar-se apenas a alguns
episódios evangélicos. O mais ilustrativo deles segue sendo a parábola do Filho
Pródigo (ou do Pai Amoroso).
O
labirinto da vida humana é marcado por paixões, interesses, instintos desejos
quase sempre conflituosos, seja no interior de cada pessoa seja nas relações
interpessoais. Temor e tremor, euforia e depressão habitam nossos corações,
tornando-nos míopes ou cegos diante das opções a serem tomadas. Medos e ruídos,
dúvidas e interrogações nos fazem navegar a esmo nas ondas de "mares
bravios”. Se, de um lado, a demasiada prudência ou a covardia pura e simples,
podem paralisar nossa imaginação e nossas pernas, de outro lado, a confiança e
o entusiasmo irresponsáveis tendem a queimar etapas e atropelar uma reflexão
mais sóbria e aprofundada. O grande desafio é manter viva a esperança e a
utopia, sem tirar os pés do chão histórico em que vivemos, vale dizer, do contexto
socioeconômico e político-cultural que nos cerca e condiciona. Por isso é que o
conhecimento da história leva em contra passado, presente e futuro, mas,
paradoxalmente, se move muito mais em direção ao futuro do que ao passado.
Daí a
necessidade da oração, da meditação e da contemplação. O espaço dedicado a
essas práticas, longe de subtrair tempo à missão, a qualifica. Na intimidade
com Deus, buscamos luzes para uma atividade pastoral orientada pelo Espírito, o
qual impulsiona à busca da justiça e do direito, da liberdade e da paz. A ação
missionária, por sua vez, interpela, depura e questiona os momentos e a prática
da oração. Essas duas dimensões não podem ser dissociadas. Ambas se
complementam, se purificam e se enriquem reciprocamente. Oração sem ação
resulta na instrumentalização de Deus (um deus com letra minúscula) que
justifica e legitima toda e qualquer forma de comportamento; e inversamente,
ação sem oração representa a instrumentalização dos pobres em vista dos
próprios interesses (pessoais, grupais ou institucionais).
O contato
permanente com Deus abre horizontes desmedidos. Uma imagem aproximada da
"Casa de Deus” poderia ser um universo transparente, inteiramente
iluminado, com um céu azul e límpido ao infinito. Quanto à sua misericórdia
pode ser comparada a um imenso oceano de amor, em cujas ondas tranquilas
abandonamos nossas frágeis e fatigadas embarcações. Metáforas pobres e
insuficientes, sem dúvida, como o são todas as tentativas que procuram retratar
o amor e a bondade divivos. Nenhum ser humano poder penetrar sua profundidade,
altura e grandeza. De fato, como insiste a teologia negativa, a razão humana
mantém-se muito aquém do Ser Deus. Aqui prevalece o prefixo in(infinito,
incomensurável, indizível, inalcançavel, indefinível...). Por mais que se
acumulem palavras, páginas, livros e bibliotecas inteiras sobre o assunto, Deus
permanece um misterium obsconditus.
À medida
que nos aproximamos desse universo transparente e desse oceano de amor,
bastaria um raio dessa luz e uma gota dessa água para orientar-se no labirinto
da existência humana. É nesta perspectiva que, atrvés das "linhas tortas”
da história, Deus "escreve direito”. Não que o próprio Deus o faça de seu
punho ou dite as palavras a um determinado profeta, como às vezes são levados a
crer os fundamentalistas bíblicos. Mas, iluminados pela força de sua
transparência e nutridos pela água viva de seu amor misericordioso, nossas
ações, ainda que distorcidas, se revestem de um novo significado. Deus escreve,
sim, mas utilizando nossas próprias mãos humanas. Deus não age fora das
coordenadas da história. Tampouco desrespeita o dom da liberdade concedido a
todos os seus filhos e filhas. Superando os limites e fraquezas da condição
humana, a graça de Deus requalifica nossas atividades.
É assim
que o Espírito endireita nossas linhas tortas. A cegueira e o comodismo, a
indiferença ou o desconhecimento distorcem nossas ações, por melhores que sejam
as intenções iniciais que as movem. Com razão afirma o provérbio italiano,
"tra il dire ed il fare in mezzo c’è il mare” (entre dizer e fazer, no
meio existe o mar). Ou então, como escreve o apóstolo Paulo, "faço o que
não quero e sou incapaz de fazer o que quero”. De fato, entre o discurso
idealizado e a prática real, sempre haverá uma distância considerável, maior ou
menor de acordo com o grau de autenticidade de cada pessoa, grupo ou
instituição. De qualquer forma, é oportuno ter presente o ideal a ser
alcançado, pois isso nos ajuda a orientar os passos na direção do horizonte.
Sem o brilho do farol, é difícil acertar o rumo do porto.

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