Evangelho de Lucas (Lc 3, 10-18)
E as multidões perguntavam-lhe: «Que devemos, então,
fazer?» Respondia-lhes: «Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem
nenhuma, e quem tem mantimentos faça o mesmo.» Vieram também alguns
cobradores de impostos, para serem batizados e disseram-lhe: «Mestre, que
havemos de fazer?» Respondeu-lhes: «Nada exijais além do que vos foi
estabelecido.» Por sua vez, os soldados perguntavam-lhe: «E nós, que devemos
fazer?» Respondeu-lhes: «Não exerçais violência sobre ninguém, não denuncieis
injustamente e contentai-vos com o vosso soldo.»
Estando o povo na expectativa e pensando intimamente se
ele não seria o Messias, João disse a todos: «Eu batizo-vos em água, mas vai
chegar alguém mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia
das sandálias. Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na mão
a pá de joeirar, para limpar a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro; mas
queimará a palha num fogo inextinguível.» E, com estas e muitas outras
exortações, anunciava a Boa-Nova ao povo.
Leitura: o que diz o
texto?
Contexto: Aí está outra vez João Baptista em cena,
irrompendo agora com o bisturi da Palavra, direto aos ouvidos dos homens deste
tempo, ouvidos obstruídos por mato e por silvas, anunciando que o tempo está
maduro, que a hora é de frutos novos! O Evangelho vem na sequência daquele que
refletimos no passado domingo: o profeta João Baptista indica, com pormenores
concretos e a grupos concretos, como proceder para percorrer esse caminho de
“metanoia” e preparar a “vinda do Senhor”.
Divisão literária: 1ª parte (10-14): que fazer? (exclusiva
de Lc); 2ª parte: Anúncio da vinda do Messias (cf. Mt 3, 11-12; Mc 1,7-8; Jo
1,26-27)
Perguntas ao texto:
1. Que perguntam as multidões a João Batista? “Que devemos
fazer”? Pôr as pessoas as perguntar “o que devemos fazer” é habitual em Lucas
(cf. At 2,37; 16,30; 22,10): sugere uma abertura à proposta de salvação que vem
de Deus.
2. Que propõe João Batista: três atitudes concretas, para
quem quer fazer a experiência de conversão e de encontro com o Senhor que vem:
3. Como distingue as propostas segundo os destinatários?
3.1. ao povo em geral, recomenda a sensibilidade às
necessidades de quem nada tem e a partilha dos bens;
3.2. aos publicanos, pede que não explorem, que não se
deixem convencer por esquemas de enriquecimento ilícito, que não despojem
ilegalmente os mais pobres;
3.3. aos soldados, pede que não usem de violência, que não
abusem do seu poder contra fracos e indefesos
Repare-se como João Baptista põe em relevo os “crimes contra
o irmão”: tudo aquilo que atenta contra a vida de um só homem é um crime contra
Deus; quem o comete, está a fechar o seu coração e a sua vida à proposta
libertadora que Cristo veio trazer.
4. Que anuncia João Batista, na segunda parte do Evangelho
(vers. 15-18)? Anuncia uma Presença nova, a d’Aquele-Que-Vem, Deus: ei-lo que
vem, o noivo, o esposo, aquele de quem eu, diz João Baptista, não tenho o
direito nem o poder de desatar a correia da sandália!
5. Que significa ”desatar a correia da sandália”? Não é de
um simples gesto de humildade que se trata. A sandália leva-nos para o campo do
direito de posse e também do direito matrimonial. Basta ler o Livro do
Deuteronómio 25,5-9 sobre a Lei do Levirato e o Livro de Rute 4,7-10 acerca do
casamento de Booz com Rute. João Baptista não é o noivo, o esposo. Mas
indica-o. Ei-lo que está a chegar! O esposo é Cristo. E a esposa é do esposo. A
hora é de alegria, é de amor, é de frutos de alegria e de amor!
6. Que fará o Anunciado por João Batista? O batismo no
Espírito Santo, contraposto ao batismo “na água” de João. O batismo de João é,
apenas, uma proposta de conversão; mas o batismo de Jesus consiste em receber
essa vida de Deus que atua no coração do homem, transforma o homem velho em
homem novo, faz do homem egoísta e fechado em si um homem novo, capaz de
partilhar a vida e amar como Jesus.
Nota: Faz-se, aqui, referência a essa transformação que
Cristo operará no coração de todos os que estão dispostos a acolher a sua
proposta de libertação: começará, para eles, uma nova vida, uma vida purificada
(fogo), uma vida de onde o pecado e o egoísmo foram eliminados, uma vida
segundo Deus. Para Lucas, este anúncio do profeta João concretizar-se-á
plenamente no dia de Pentecostes.
Meditação: o que me
diz o texto?
1. Neste advento de um Natal em crise, faço a mim mesmo esta
pergunta: que hei de, que havemos juntos de fazer?
2. Já concretizei o meu programa espiritual e social do
Advento ao Natal?
3. Como anunciar a Boa nova, como dar as “boas festas” num
tempo em que “escasseiam empregos e bens materiais”? Como se pode concretizar
“a boa nova” das “boas festas”?
a) É urgente estreitar os laços da família e dos vários
círculos de relações e solidariedades;
b) fundamental comunicarmos com Deus, que em Jesus se torna
o mais próximo dos nossos próximos.
c) Deve dar-se um lugar privilegiado aos pobres, um lugar
que não exclui ninguém, mas pretende ser um reflexo de como Jesus Se ligou a
eles.
d) Que os gestos de entreajuda, solidariedade e partilha se
multipliquem. A autêntica alegria das Boas Festas está na dádiva altruísta e
generosa.
e) Haverá Boas Festas se o outro for o centro das nossas
atenções e serviços, vencendo confortos e rotinas egoístas, tal como Deus que
fez de nós o seu centro, oferecendo‑se em pessoa no Jesus do Natal em
Belém.
f) Haverá Boas Festas se soubermos presentear tempo, carinho
e ofertas a pessoas que vivem sozinhas, a doentes, crianças ou idosos, e a
obras de serviço social.
g) Haverá Boas Festas se a tradicional troca de prendas for
aproveitada para escolher ofertas que sejam ajuda para quem precisa.
a) Haverá Boas Festas se deixarmos que Jesus nasça no melhor
dos presépios, que é o nosso coração, e, neste Ano da Fé, aderirmos mais de
alma e coração à pessoa de Jesus. Ele será a nossa força para «intensificar o
testemunho de caridade» (Bento XVI, Porta Fidei, 14).
4. Na prática, como nos sugere João Batista o anúncio da
boa-nova?
A primeira, é nem sequer falar de Deus, para deixar Deus
falar na eloquência de um gesto de amor, que nem sequer faz ruído.
A segunda é anunciar explicitamente a Boa Nova, levando a
cada um a alegre notícia do amor de Deus: “o Senhor teu Deus, está perto de ti,
como poderoso salvador” (Sof.3,17). “O cristão sabe quando é tempo de falar de
Deus e quando é justo não o fazer, deixando falar somente o amor. O cristão
sabe que Deus é amor e que este Deus se torna presente precisamente nos
momentos em que nada mais se faz, que não seja amar” (Bento XVI, DCE 31).
Oração
– Estrofe do Hino para o Ano da Fé
Voz 1: Caminhamos cansados e doridos de feridas ainda
abertas
Voz 2: Tu nos curas nos desertos desta Vida.
Tua mão cuida sempre de nós.
Todos: Creio em Ti,
Senhor. Creio em Ti.
Voz 1: Com os pobres que estão esperando à porta, Senhor,
nós Te pedimos:
Todos: Aumenta,
aumenta a nossa fé.
- Alternativa
" Senhor, a temperatura baixou.
Quando atravesso a rua para entrar no calor do automóvel,
ou sinto a proteção das estações de metro,
dos cafés, do interior dos locais de trabalho,
penso nos que dormem e vivem ao relento.
É verdade que somos todos,
de alguma maneira, gente sem-abrigo.
Que, em certas horas de solidão ou de sofrimento,
trazemos todos a alma
enregelada na imensidão ferida do nosso peito.
Mas quando a
temperatura desce,
só me dá para rezar para que o Teu Espírito Santo nos
desassossegue,
nos desinstale, nos faça caminhar
ao encontro dos mais pobres."
(José Tolentino Mendonça, Um Deus que dança,60).
IV. Contemplação: como experienciar a boa nova de Deus feito
pobre?
Contemplar o mistério da encarnação de Jesus é acolher o
pobre, como nos recorda a Mensagem enviada pelo recente Sínodo dos Bispos
(n.12).
Ação: o que fazer?
a) Em tempos de crise, mais essencial se torna a
solidariedade familiar, o acolhimento e ajuda aos membros que passam por
maiores dificuldades.

Mais uma vez agradeço as tuas variadas mensagens para uma semana a caminhar com Jesus, através de João Batista.
ResponderEliminarFez-me bem começar a preparar o Dia do Senhor, servindo-me da "lectio divina" que me enviaste. Cada um de nós deve ser precursor de Jesus.
Não esqueço a reunião da Fraternidade: que o Movimento procure a comunhão e a partilha num clima de busca da Verdade.
Um abraço do
Lúcio Sousa