Por Orlando Carvalho |
Membro dos Conselhos Pastorais da Paróquia de São Domingos de Benfica, da Paróquia de Loures
e do Patriarcado de Lisboa
Tenho a meio um livro sobre
liturgia que aborda alguns destes aspectos. Aliás, provavelmente dois livros. A
escrita decorre desde há uns anos e são uma manta de retalhos. Este texto será
mais um retalho para a síntese final, se eu não morrer antes, ou alterar as minhas
ideias.
Recordo o choque que foi para
mim, após o Concílio, os padres deixarem de andarem paramentados nas ruas. Eu
era um menino de 10 anos e isso foi um choque porque nunca tinha imaginado tal,
nunca tinha pensado sobre isso. Também foi um choque para outras pessoas mais
velhas para quem o uso dessas fazia parte do sistema de Fé, porque assim lhes
tinham ensinado.
Cresci. E cresci também na
compreensão do sentido do Concílio. Não pelo Concílio porque as palavras são
isso mesmo palavras. O termo Concílio não é a Salvação (costumo ensinar que
Salvação é Felicidade), mas as suas propostas são propostas evangélicas, porque
ajudam a compreender e viver o Evangelho.
Progressivamente aprendi a gostar
dos textos conciliares e de muitos textos do Papa. Adaptei muitos pensamentos à
minha forma de pensar e comecei a ensinar o modo como eu encaro muitas das
questões agora em causa. Notemos que, enquanto agente da Igreja, nunca ensino nada
que esteja em conflito com os ensinamentos desta. E não consigo separar o
Orlando agente de evangelização de qualquer outro Orlando, não tenho duas
faces. O que acontece é eu criticar, apreciar, avaliar. Não tenho qualquer
problema, numa formação de catekistas, explicar que o Catecismo muda de
opinião, quer dizer, é assinado pelo Papa, mas não é absoluto como a Palavra de
Deus.
A Liturgia (não é o mesmo que
religião e não vou falar sobre esta porque me afastaria ainda mais do assunto)
serve exclusivamente como instrumento auxiliar na relação do fiel com Deus. A
Liturgia cria ambiente (ornamentação e decoração do espaço, flores ou telas
pintadas, imagens), harmoniza a Palavra proclamada (o salmo bem cantado), torna
perceptível Deus através da Palavra (púlpito e microfone), etc. Esse é o único
objectivo legítimo da Liturgia.
Tratei, talvez já em duas
situações diferentes, de aquisição de paramentos cor de rosa porque creio que
ajudam a entender a Palavra de Deus proclamada nos dois Domingos da Alegria, no
Advento e na Quaresma. Não se tratou de revivalismo. Estão previstos paramentos
rosa ou dourados. A opção não foi pela ostentação, mas pelo instrumento que
ajuda a explicar que estamos alegres, digamos, como auxiliar da homilia, da
compreensão e actualização da Palavra.
Salto para falar dos hábitos
religiosos. Os dominicanos homens estão proibidos de usar o hábito em público,
isto é, na rua, nas suas deslocações que não tenham a ver com um exercício
religioso concreto: a participação numa procissão, por exemplo.
Continuando. Conheço padres que
usam estola para confessar e sobre a alva para presidir à missa. E mesmo
presidindo á missa, sentados à mesa, com pequenas assembleias, com roupas
normais. Na minha cabeça desmistifiquei já uma enorme quantidade de regras
litúrgicas para as quais não encontro justificação. E ensino isso. A crianças,
na catekese, ou a catekistas em cursos e formações. Ainda recentemente numa
acção de formação, que realizei em diversos contextos e comunidades, muitos
catekistas estavam indecisos sobre a validade da missa se o padre estivesse
vestido comummente. Outros não estavam indecisos, rejeitavam a validade. Eu
gosto de colocar questões que ponham as pessoas a pensar. Depois conversamos.
Depois ensino.
Já fui acólito (sou, portanto
acólito, embora servindo pouco), coordenador de acólitos, formador de acólitos.
Conheço a Instrução Geral do Missal Romano. E acho-a útil. Os acólitos podem
ser o ponto de encontro de crianças, adolescentes, jovens, adultos, em torno de
Jesus presente nos sacramentos. Um considerável número de acólitos no
presbitério, «actuando» com elegância embelezam a celebração. É um meio de
tornar visível a presença invisível de Deus, na beleza dos gestos litúrgicos
realizados. Acólitos de aspecto desleixado, cabelo, alva, feitos corcundas, com
ar de querer despachar aquela seca que nunca mais acaba, continuamente a
receberem instruções do padre, ou porque não sabem, ou porque o padre é
demasiado interventivo, não têm qualquer justificação. Ou estão para embelezar
a celebração ou desapareçam. Muitos padres infelizmente não entendem isto. Por
isso, muitos padres abominam acólitos no presbitério, e outros até abominam os
diáconos.
Mais um à parte. A purificação,
durante a missa não faz sentido. Comungamos na mão. Eu levo a partícula no
relicário quando vou levar a comunhão aos doentes. E levo o relicário no bolso.
A purificação é um dos hábitos judeus que ficaram. Pode ser executado com
elegância pelos acólitos. Mas penso que podia haver uma torneira de água
corrente no presbitério. Acontece com alguma frequência, depois da purificação
das mãos (ou mesmo sem a fazer), antes da comunhão, o padre puxar de um lenço
ranhoso e assoar-se. E sem mais lavagens distribui a comunhão. A Igreja tem o
dever, que julgo sagrado, de olhar para estas situações e dar-lhes solução. A
purificação no sentido judaico não faz sentido hoje, mas a lavagem das mãos
faz. Muito. E a Igreja vai cristalizando. O amito é uma peça de vestuário sob a
casula e mais não sei o quê, que actualmente só serve o ego dos padres que o
usam. Ninguém o vê e não me parece que seja nenhuma obra de caridade, ou mesmo
de fé, que conduza ninguém ao céu. Depois do Concílio, o amito foi caindo em
desuso. Actualmente, os novos padres saem dos seminários cheios de ideais
ridículas (alguns): voltam a usar o amito, defendem o latim e o gregoriano,
embora não o saibam falar ou escrever, nem cantar. Já assisti a um padre chegar
a uma comunidade e na missa de Domingo informar que ia ensinar as pessoas a
rezar, porque as pessoas não sabiam rezar. A questão só não foi mais ridícula
porque os fiéis já se habituaram a estar desatentos na homilia.
Agora ia começar a dissertar
sobre a música e outros ministérios, mas vou tentar não me afastar demasiado
das roupas.
Em conclusão do que atrás escrevi,
na minha opinião, as roupas litúrgicas não fazem falta nenhuma à validade da
celebração da Fé, mas podem ajudar muito à sua vivência, se quisermos e
conseguirmos ir por aí.
Dou aulas de Arte e Cristianismo
numa universidade sénior. Recentemente fomos em visita de estudo à Sé
Patriarcal e visitámos o Tesouro. Senti-me na obrigação de manifestar o meu
repúdio por algumas peças de carácter essencialmente ostensivo que estão
expostas. O Patriarca, de então, como um cortesão, não como homem de Igreja. Já
o mesmo acontecera o período passado quando visitámos a Palácio da mitra em
Santo Antão do Tojal. As armas do patriarca impressas em toda a parte. Um
aqueduto construído para fornecer água ao Patriarca quando ele lá estava (e uma
pequena fonte para fornecer as gentes da terra)!
Os agentes da evangelização e da
liturgia têm que assumir que são rosto de Nosso Senhor Jesus Cristo e devem
apresentar-se com a dignidade correspondente. Mas Ele também esteve pregado na
Cruz em situação de grande indignidade, nu, sujo, a carne rasgada…
Mas há agentes (e padres) que
descuram esta dignidade. Hoje. Porque quando era criança, recordo ir ao
confessionário, e sentir-me mal porque o padre cheirava mal.
Por outro lado, há seminários que
agem quase como centros lefrebistas. Considerem-se as distâncias. É ver os
próprios seminaristas com cabeção e a seguimento que isso tem na sua vida de
padres posteriormente.
Vamos lá a concluir. Símbolos
litúrgico que cumpram a função litúrgica, que é ajudar a vivência da Fé e a
compreensão da Boa Nova justificam-se e devem ser incentivados. (Eu estou
sempre a encenar as leituras, a fazê-las em diálogo, na missa e fora dela, pois
quem participa, ao preparar-se estudou as leituras e estará atento no momento
da proclamação porque é parte interveniente).
Símbolos litúrgicos que tenham a
função barroca, de acordo com as normas do Concílio de Trento, que é exibir a
grandiosidade da Igreja para convencer os fiéis que a Igreja Romana é a
verdadeira devem ser eliminados, se tiverem apenas essa função. Ou a
alimentação do ego de quem os usa.
Colaborei, em determinado
momento, numa paróquia. Na preparação dos pais para a Primeira Comunhão (e dos
catekistas) consegui convencê-los que se devem evitar os vestido de 50 ou 100
contos, a moeda de então. O branco é a cor apropriada, mas não obrigatória.
Pessoas pobres colocadas perante a questão de ter que vestir a criança de
branco optam algumas vezes por desistir da Primeira Comunhão. Aconteceu-me. Mas
há muitas hipóteses de exibir o branco. Ora, quando passados uns anos voltei a
essa comunidade deparei com os catekistas de então (e o próprio pároco que era
outro) a ensinarem que «isso de ir de branco na Primeira Comunhão era coisa de
antigamente; não têm que vir de branco; venham da cor que quiserem; se calhar a
ser branco, será, senão qualquer coisa serve».
A questão é muito complexa. E
quem tem a obrigação de ensinar sobre estas questões, nalguns casos é
ignorante, noutros casos põe em primeiro lugar a sua ostentação.
Faz sentido para mim, muito
sentido, pedir aos fiéis para na Vigília Pascal se vestirem com a melhor roupa
que tiverem, o fato domingueiro, mas sobretudo roupa clara. Clara porque vamos
para a Festa da Ressurreição, e melhor roupa, porque quantos momentos mais
importantes ao longo do ano temos que a Vigília Pascal.
Escrevi muito e talvez não tenha
ido ao assunto que lhe interessava. Se for o caso, disponha e volto a escrever
mais especificamente e menos dissertante.

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