Um diálogo urgente com o promotor do ecumenismo na
Santa Sé, o cardeal Kurt Koch, faltando poucos dias para a Semana de Oração
pela Unidade dos Cristãos (I)
José Antonio Valera Vidal
Para participar da Semana pela Unidade dos Cristãos 2013:
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/weeks-prayer-doc/rc_pc_chrstuni_doc_20120611_week-prayer-2013_po.html
Para participar da Semana pela Unidade dos Cristãos 2013:
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/chrstuni/weeks-prayer-doc/rc_pc_chrstuni_doc_20120611_week-prayer-2013_po.html
CIDADE DO VATICANO, Tuesday, 15 January 2013 (Zenit.org).
No dia 18 de janeiro começa a Semana de Oração pela
Unidade dos Cristãos, que se extende até a próxima sexta-feira 25. Por motivo
desta festa, o Papa Bento XVI preside a cada ano uma celebração litúrgica na
Basílica de São Paulo no Vaticano, com os líderes das mais importantes igrejas
cristãs. O objetivo comum é claro: crescer na unidade.
Esta atividade também pode muito bem ser organizada
nas dioceses, paróquias, movimentos, escolas e seminários, ou onde exista uma
igreja cristã com a qual dialogar e reunir-se para rezar... Este esforço – que
nasce no século XIX, por iniciativa da Igreja Anglicana – encontrou um grande
promotor na Santa Sé, que trabalha muito unido com o Conselho Mundial das
Igrejas para escolher um tema anual e fornecer materiais para reflexão e
oração.
O órgão responsável pela promoção desta excelente
iniciativa em toda a Igreja Católica, é o Conselho Pontifício para a Unidade
dos Cristãos. ZENIT conversou com o prefeito, o cardeal suíço Kurt Koch, que é
responsável também pelo importante diálogo com o judaísmo.
Oferecemos aos nossos leitores a primeira parte da
entrevista.
ZENIT: Como começa a história desta semana de oração?
Cardeal Koch: A Semana de Oração pela Unidade dos
Cristãos começou no século XIX. Foi uma iniciativa ecumênica dos anglicanos,
aceita pela Igreja Católica com o Papa Leão XIII. Depois transformou-se num bom
hábito e hoje é o evento mais importante do ano para o ecumenismo, porque a
oração pela unidade é a base de todo o movimento ecumênico. Sabemos que o
Decreto sobre o ecumenismo do Concílio Vaticano II fala do “ecumenismo
espiritual", que é o coração de tudo.
ZENIT: Quantas igrejas cristãs respondem a este apelo?
Cardeal Koch: A preparação que fazemos é em conjunto
com o Conselho Mundial das Igrejas, e acho que muitas igrejas e comunidades
eclesiais fazem esta oração, mas não tenho certeza se todos participam.
ZENIT: E justamente o tema desse ano é “caminhar
juntos”. Quais são os esforços mais importantes dos últimos anos?
Cardeal Koch: Depois de 50 anos, ou seja, após a
abertura, fomos capazes de reunir muito fruto. Agora temos 16 diálogos com 16
outras Igrejas e comunidades eclesiais no mundo. Fomos capazes de criar uma
rede de amizades com as diversas Igrejas e comunidades eclesiais, que já não
são mais inimigas, mas se reconhecem como irmãos e irmãs; isso cresce
principalmente sobre o fundamento do batismo, que é o verdadeiro fundamento de
tudo.
ZENIT: Mas ainda não é o suficiente, certo?
Cardeal Koch: A aceitação mútua do batismo é a ponte
de todo o movimento ecumênico. É claro que depois de 50 anos não foi possível
atingir a meta do ecumenismo, que é a unidade visível de todos os cristãos de
todas as igrejas.
ZENIT: Há elementos comuns no culto?
Cardeal Koch: Eu acho que por um lado há uma diferença
no ecumenismo com as Igrejas ortodoxas, também orientais; e por outro lado com
as igrejas que nasceram da Reforma. Com todas as Igrejas orientais o fundamento
básico está na fé comum, mas temos uma cultura diferente. Com as igrejas que
nasceram a partir da Reforma, não temos a mesma continuidade na fé, mas temos a
mesma cultura. E esta diferença tem uma importância muito grande nos conteúdos
do diálogo.
ZENIT: O mesmo acontece na liturgia ...
Cardeal Koch: Para os católicos, é possível rezar com
todos os cristãos sobre a base do batismo, mesmo com muitos ortodoxos. Eu fui à
Constantinopla para a festa de Santo André e sempre participei na liturgia com
uma grande acolhida dos patriarcas. Mas, por outro lado, há alguns ortodoxos,
que dão a impressão de que não é possível orar junto com os católicos...
ZENIT: Sobre a questão da liberdade religiosa, que é
motivo de sofrimento para muitos cristãos, qual deveria ser a atitude nessas
situações?
Cardeal Koch: Acho que é muito importante a declaração
do Concílio Vaticano II sobre a liberdade religiosa da pessoa humana. Este é um
grande compromisso com as nossas igrejas, aprofundar e apoiar a liberdade
religiosa para todos os cristãos em todos os países. O desafio é grande porque
da maioria dos crentes em todo o mundo que estão sendo perseguidos por razões
de fé, 80% são cristãos.
ZENIT: Alguns deles já morreram ou sofreram prisão
perpétua...
Cardeal Koch: Neste sentido, o Beato João Paulo II
falou de um "ecumenismo dos mártires". Para mim, isso é muito
profundo, porque todas as comunidades eclesiais têm seus próprios mártires. O
martírio já vive - nas palavras de João Paulo II - uma "plena comunhão",
e nós na terra ainda não ... Assim, a oração dos mártires no céu pode ajudar a
aprofundar a unidade e o ecumenismo na terra.
ZENIT: Há ainda preocupação por
algumas das decisões da Igreja Anglicana que, de fato, a distanciam de Roma?
Cardeal Koch: Nosso objetivo da
unidade é a unidade na fé, nos sacramentos e nos ministérios; e se os
anglicanos mudarem tudo no ministério, torna-se um grande desafio também para
nós. Uma vez que este desenvolvimento mundial dos anglicanos provoca uma série
de tensões na comunidade anglicana, este é também um grande desafio para nós.
Nós queremos e devemos ajudar a recuperar a unidade anglicana mas só se os
anglicanos quiserem nossa ajuda.
ZENIT: Outra questão que preocupa
a todos é a secularização na Europa e em outros lugares. Como as igrejas
cristãs podem responder a essas correntes, que anulam e apagam a Deus da vida
pública?
Cardeal Koch: Em primeiro lugar,
os cristãos na Europa devem considerar a sua responsabilidade neste
desenvolvimento, porque depois da Reforma temos os cisma, a divisão, e depois
da separação tivemos muitas guerras confessionais. E eu diria que essas guerras
e divisões fizeram que a religião não fosse mais o fundamento da unidade da
sociedade européia, mas a raiz de todos os conflitos. Neste sentido, a
sociedade moderna teve que encontrar um novo fundamento para a unidade na
sociedade independente da religião.
ZENIT: O que o senhor diz,
explica muitas coisas ...
Cardeal Koch: Neste sentido, o
outro lado da moeda seria que se o cristianismo quiser ajudar a encontrar a
dimensão religiosa e transcendente na sociedade europeia, deve reencontrar a
sua unidade. O ecumenismo é agora um grande desafio para a situação muito
secularizada na Europa, porque só uma voz comum de todos os cristãos - com os
valores cristãos - ajudará a reencontrar os valores cristãos fundamentais na
história da Europa.
ZENIT: E a opção da Igreja
Católica pela Nova Evangelização foi recebida de que forma pelas outras igrejas
cristãs?
Cardeal Koch: A Nova
Evangelização deve ter uma dimensão ecumênica, porque é óbvio que na oração
sacerdotal de Jesus, Ele reza para que todos sejam uma coisa só, para que o
mundo creia. A credibilidade do anúncio do Evangelho depende da unidade da
Igreja. Tenho muitos parceiros ecumênicos que estão felizes com essa
iniciativa; por outro lado, ainda há alguns que não o estão. É muito importante
incentivar a todos os parceiros ecumênicos, para aprofundarem este desafio da
Nova Evangelização.
ZENIT: Quais são as igrejas mais
entusiastas?
Cardeal Koch: Devo dizer que hoje
temos uma grande divisão no ecumenismo que atravessa as igrejas. Por um lado
temos um ecumenismo liberal entre católicos e reformados. E por outro temos a
visão de aprofundar o fundamento da fé entre as comunidades evangélicas e
católicas. No segundo grupo a Nova Evangelização é um grande desafio.
ZENIT: Agora, quais são os
projetos do seu dicastério?
Cardeal Koch: Em primeiro lugar,
neste Ano da Fé, o desafio será aprofundar o fundamento da fé no ecumenismo,
porque o ecumenismo não é uma questão diplomática ou política, mas é uma
questão de fé. Devemos reencontrar a fé comum e a confissão da fé apostólica e
aprofundar no objetivo comum do ecumenismo. A segunda questão é o
aprofundamento da vida espiritual, e a redescoberta das raízes espirituais do
ecumenismo e do compromisso com a unidade.
ZENIT: Afinal, qual deveria ser a
atitude do católico diante dos outros cristãos?
Cardeal Koch: Parece-me muito
importante a frase do beato João Paulo II, segundo a qual o ecumenismo não é
somente uma troca de ideias mas “uma troca de dons”. Cada uma das igrejas tem
tesouros especiais na própria tradição de fé. Portanto, não devemos ter medo do
ecumenismo, porque é um enriquecimento. A minha experiência pessoal é que, com
o ecumenismo, tornei-me muito mais católico. Porque também vejo as grandes
coisas, as vantagens da nossa Igreja, especialmente o grande presente que
recebemos com o papado, com o primado do bispo de Roma como centro da unidade
da nossa Igreja; e isso é uma grande vantagem.
ZENIT: Uma grande visão...
Cardeal Koch: o Papa Pio XII
disse que o ecumenismo é uma idéia do Espírito Santo. Paulo VI, João Paulo II,
Bento XVI, estão todos convencidos de que o ecumenismo é um dom do Espírito
Santo e que devemos ter um coração aberto para esse dom; e ouvir bem o que o
Espírito Santo nos quer dizer na situação atual do ecumenismo.
Para participar da Semana de
Oração pela Unidade dos Cristãos 2013 (várias línguas):
www.vatican.va / roman_curia / pontifical_councils / chrstuni / sub-índice /
index_weeks-prayer_it.htm
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