P.e Manuel Morujão
A primeira
aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos de Fátima pode resumir se no desafio
que lhes fez a Senhora mais brilhante que o sol: «Quereis oferecer vos a Deus para
suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar vos, em acto de reparação
pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos
pecadores?» (Memórias da Irmã Lúcia – 4.ª Memória, II, 3).
O
deslumbramento de uma aparição sobrenatural era clarificado com uma proposta
apostólica: aderir ao projecto de Deus, transmitido pela Mãe do céu,
colaborando assim na construção de um mundo melhor, pela reparação dos pecados
cometidos e de intercessão pela conversão dos pecadores.
A
extraordinária manifestação sobrenatural da aparição de Nossa Senhora não
centrou os pastorinhos sobre Ela mesma, sobre os seus privilégios de Mãe de
Deus, sobre as suas virtudes e perfeições. Também não foi ocasião de os
pastorinhos ficarem centrados na sua experiência mística, vangloriando se da
sua visão excepcionalmente privilegiada. Maria, missionária de Deus, propõe uma
missão a Lúcia, Francisco e Jacinta: – Quereis oferecer vos como missionários
do Altíssimo para melhorar o mundo? Quereis não já viver para vós próprios (cf.
Rm 14, 7 8), mas oferecer vos a Cristo, como Ele se ofereceu ao Pai e continua
a oferecer por nós, cooperando com a salvação da humanidade?
Neste
contexto, desenvolverei algumas ideias na linha da espiritualidade do
oferecimento ou entrega de nós próprios a Deus, o que inclui naturalmente a
oferta àqueles que na nossa vida são autênticas presenças de Nosso Senhor.
1. Na
civilização dos presentes tornarmo-nos oferta a Deus
Dar e receber
presentes é, hoje em dia, uma forte instituição social. Nunca se deram e
receberam tantos presentes. O mundo comercial aproveita toda a espécie de
ocasiões para que os presentes se multipliquem: Natal e Páscoa; festas de anos
e de outros aniversários; «dias» com uma vertente comercial fortíssima: dia do
pai e da mãe, da mulher e da criança, dos namorados e dos músicos...
Vivemos na
civilização dos presentes. Com o que tem de positivo: atenção aos outros,
partilha de bens, celebração da fraternidade. «Há mais alegria em dar que em
receber» (Act 20, 35) afirma S. Paulo, citando Jesus. Somos mais nós mesmos
quando nos damos. Por outro lado, há elementos ambíguos e desfocados: em vez de
ofertas cordiais e gratuitas, pode cair se num jogo de conveniências, numa mera
praxe social. Em vez de nos darmos a nós mesmos, com efectiva afectividade,
podemos substituir nos pelas coisas que damos. O dar alguma coisa tem que
significar o compromisso em nos darmos a nós mesmos.
Neste
contexto actual, em que dar presentes é uma frequente prática comum, importa
aceitarmos o desafio de nos darmos a nós mesmos a Deus e, por Ele, aos que o
Senhor coloca na nossa vida. Importa responder a esta exortação de Paulo a nos
fazermos presente para Deus: «Rogo vos, pois, irmãos, pela misericórdia de
Deus, que ofereçais os vossos corpos como uma hóstia viva, santa, agradável a
Deus: este é o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com este mundo, mas
transformai vos com a renovação da nossa mente, para que reconheçais qual é a
vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito» (Rm 12, 1
2).
2. Adoramos e
seguimos a Santíssima Trindade, Deus que vive em ofertório de amor
A
espiritualidade da entrega ou oferecimento das nossas vidas não foi inventada
por doutos teólogos, por santos ou sábios. A sua autoria vem do próprio Deus.
Desde toda a eternidade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem numa doação
mútua constante, amorosamente infinita. Cada Pessoa divina é o que é pela sua
entrega às outras Pessoas.
A Santíssima
Trindade é uma real história de doações recíprocas. Na Comunidade Trinitária,
cada Pessoa define se como um presente para as outras: «Cada uma das Pessoas
divinas não existe para si mesma senão sendo para as outras duas: o Pai não
existe como Pai distinto do Filho senão pela doação total de si ao Filho; o
Filho não existe como Filho distinto do Pai senão sendo impulso de amor para o
Pai» (François Varillon).
Quem é Deus?
Deus é um presente de amor feito Pessoas: «Deus é um processo de generosidade
ou geração que brota do Pai; Deus é acolhimento ou filiação, que descobrimos no
Filho; finalmente, Deus é unidade e comunhão no Espírito Santo. Os membros da
família de Deus são pessoas no mais profundo sentido do termo: são donas da sua
própria realidade ou da sua essência que oferecem, acolhem e partilham de um
modo inteiramente livre e transparente» (Xabier Pikaza).
O ser para os
outros faz parte da identidade estrutural de Deus. «O amor não permitiu a Deus
ficar só», recorda S. Tomás de Aquino. Na Trindade divina, a Pessoa que une o
Pai ao Filho e o Filho ao Pai é o Espírito Santo. Ele é «o Senhor que dá a
vida», como rezamos no Credo. Ele é «a Pessoa dom», como o definiu o Papa João
Paulo II.
Somos criados
à imagem de um Deus que é infinitamente presente, doação, entrega de Si
mesmo... O egoísmo avarento, o viver entrincheirado em si próprio é uma heresia
anti trinitária... Toda a centração egocêntrica em nós mesmos é uma experiência
de descrença no verdadeiro Deus, de ateísmo prático. É remar contra a corrente
de doação de Deus.
A história de
Deus é uma história de doação de si mesmo, não só dentro da Trindade, como
também para fora, fazendo nos entrar na sua vida: criação, encarnação,
redenção, vinda do Espírito Santo, experiência da graça hoje em dia,
especialmente pela vida de oração e de sacramentos. «Da sua plenitude todos nós
recebemos graça sobre graça» (Jo 1, 16). O nosso Deus é um sumo especialista em
presentes, um infinito benfeitor da humanidade, de todos e cada um de nós.
3. A vida de
Cristo é uma vida entregue a Deus e oferecida a nós
Jesus Cristo
é o Sumo Sacerdote que se ofereceu a Si mesmo a Deus pela nossa salvação (Heb
7, 28; 9, 14; 9, 25; 9, 26; 9, 28), dado que os sacrifícios e holocaustos da
antiga lei eram ineficazes: «Por isso, Jesus Cristo, entrando no mundo, diz:
«Não quiseste sacrifício nem oblação, mas formaste me um corpo; os holocaustos
e sacrifícios pelo pecado não te agradaram. Então, Eu disse: Eis me que venho,
segundo o que está escrito de mim no rolo do livro, para fazer, ó Deus, a tua
vontade”» (Heb 10, 5 7).
Cristo,
fazendo o oferecimento de Si mesmo, salva nos: «Por esta vontade somos
santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para
sempre» (Heb 10, 10).
Ser cristão é
imitar o oferecimento que Jesus fez e continua a fazer de Si próprio, ao Pai,
para a salvação da humanidade: «Andai no amor, a exemplo de Cristo, que nos
amou e Se entregou a Si mesmo por nós a Deus, como oferenda e sacrifício de
suave odor» (Ef 5, 2).
Cristo
compara se ao bom pastor que ama mais as ovelhas que a sua própria vida: «Eu
sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas... Eu dou a vida
pelas minhas ovelhas» (Jo 10, 11.15).
Jesus viveu a
sua vida em ofertório livre, consciente, voluntário, cumprindo assim a vontade
expressa do Pai: «Se o Pai me ama é porque dou a minha vida para outra vez a
assumir. Ninguém ma tira, mas Eu a dou por mim mesmo e tenho poder de a dar e
de a retomar. Este é o mandamento que recebi de meu Pai» (Jo 10, 17 18).
Só se possui
verdadeiramente e só lucra de facto quem se oferece e entrega, como Jesus fez:
«Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo, que cai na terra, não
morrer, fica infecundo; mas se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida
perdê la á e quem aborrece a sua vida neste mundo, conservá la á para a vida
eterna» (Jo 12, 24 25). Recordo me de ter lido esta frase de sabedoria
evangélica: «Nós perdemos tudo o que não damos».
Toda a vida
de Cristo pode ser lida como uma entrega de Si mesmo a Deus Pai pela salvação
da humanidade. Entrega também àqueles que fizeram parte da sua vida na terra.
Neste ofertório, encontramos alguns presentes particulares, entre os quais
destaco:
– a dádiva da
nossa filiação divina, pois no Filho de Deus, que se fez nosso irmão, nos
tornámos filhos de Deus: «Vós, porém, orai assim: Pai nosso...» (Mt 6, 9); «Subo
para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus» (Jo 20, 17);
– o presente
do acolhimento incondicional e da aceitação plena, mesmo dos pecadores públicos
e dos socialmente marginalizados (leprosos e possessos, pecadores e publicanos,
prostitutas e adúlteras...): «Não são os que têm saúde que precisam de médico,
mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao
sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mt 9, 12
13);
– a oferta do
perdão misericordioso dos pecados do mundo, dos nossos pecados: os milagres
físicos eram sinal dos milagres espirituais, realizados num clima de fé: «Para
que saibais que o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados, Eu
te ordeno – disse ele ao paralítico – levanta te, toma o teu leito e vai para a
tua casa» (Lc 5, 24);
– o presente
de uma vida centrada na vontade e na missão do Pai: «O meu alimento é fazer a
vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra» (Jo 4, 34); «por mim nada
faço, mas conforme o Pai me ensinou é que falo. Aquele que me enviou está
comigo, não me deixou só, porque Eu sempre faço o que é do seu agrado» (Jo 8,
28 29);
– a dádiva de
uma herança feita de paz: «Deixo vos a paz, dou vos a minha paz; não vo la dou
como a dá o mundo. Não se perturbe o vosso coração nem se assuste» (Jo 14, 27);
– mesmo em
dolorosíssima agonia, Cristo oferece presentes: oferece nos sua Mãe, na pessoa
do discípulo João – «Eis a tua Mãe» (Jo 19, 27); oferece a um ladrão
arrependido o céu – «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso» (Lc
23, 43);
– o divino
presente da Eucaristia, provando que «ninguém tem maior amor do que aquele que
dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13); «Tendo amado os seus que estavam no
mundo, amou os até ao extremo» (Jo 13, 1);
– o maior
oferecimento que houve sobre a face da terra: Deus, por nosso amor, entrega a
sua vida numa cruz; o último gesto de Cristo, resumo da sua vida, foi um acto
de oferecimento: «Jesus, exclamando em voz alta, disse: “Pai, nas tuas mãos
entrego o meu espírito”. Dizendo isto, expirou» (Lc 23, 46);
– o presente
do Espírito Santo: «Eu rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito, para que
fique eternamente convosco, o Espírito da verdade» (Jo 14, 16 17); «o
Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas
as coisas e vos recordará tudo o que vos disse» (Jo 14, 26); «digo vos a
verdade: a vós convém que Eu vá, porque, se não for, o Paráclito não virá a
vós; mas, se for, Eu vo lo enviarei» (Jo 16, 7)...
Cristo é o
divino mestre da arte do oferecimento. Toda a sua vida foi uma entrega de si ao
Pai pela nossa salvação. Jesus viveu a dar a sua vida: «Eu vim para que tenham
vida e a tenham em abundância» (Jo 10, 10).
4. A
Eucaristia: sacramento do oferecimento de Cristo
Não nos deveríamos
sentir em desvantagem perante os contemporâneos de Jesus, que conheceram e
encontraram o Jesus da encarnação. É que a Eucaristia não é menos Jesus que o
de há dois mil anos, vivendo fisicamente connosco. A Eucaristia não é uma
saudosa recordação, uma preciosa relíquia ou uma fiel imitação de Cristo. A
Eucaristia é Cristo. A Eucaristia não apenas «tem» a presença real de Cristo. A
Eucaristia «é» o próprio Cristo, sob as espécies do pão e do vinho. Como
afirmava o documento preparatório do Congresso Eucarístico Internacional de
Sevilha, «A Eucaristia não é alguma coisa, é Alguém; não é só o efeito ou a
obra salvadora de Cristo, é o próprio Cristo salvador que salva, a partir da
integridade do seu mistério, da sua vida e da sua missão» (Christus lumen
gentium).
Como nos
recorda o Catecismo da Igreja Católica (n. 1407), «a Eucaristia é o coração e o
ponto mais alto da vida da Igreja, porque nela Cristo associa a mesma Igreja,
com todos os seus membros, ao seu sacrifício de louvor e acção de graças, oferecido
ao Pai uma vez por todas na Cruz; por este sacrifício, Ele derrama as graças de
salvação sobre o seu Corpo, que é a Igreja».
Cada
Eucaristia renova a oferta da vida de Jesus pela salvação do mundo. «Santo
Sacrifício, porque actualiza o único sacrifício de Cristo Salvador» (Catecismo
da Igreja Católica, 1330). A Eucaristia é o sacramento do oferecimento de Jesus
Cristo, «por nós homens e para nossa salvação», segundo proclamamos no Credo.
Como recorda o autor da Carta aos Hebreus, a salvação vem nos por um acto de
entrega, de oferecimento: «Somos santificados mediante a oblação do corpo de
Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre» (Heb 10, 10).
A Eucaristia
é o sacramento do oferecimento salvador de Cristo: «Na hora em Ele se entregava
para voluntariamente sofrer a morte…» (Oração eucarística II). Cristo na
Eucaristia actualiza a oferta do bom pastor pelas suas ovelhas: «Eu sou o bom
pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas» (Jo 10, 11), por todos nós.
É uma entrega voluntariamente querida e com dedicatória pessoal: «Eu sou o bom
pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem me a mim»...
«Dou a minha vida para outra vez a assumir. Ninguém ma tira, mas eu a dou por
mim mesmo e tenho poder de a dar e de a retomar» (Jo 10, 14. 17 18).
Participar
numa Eucaristia, comungar a Cristo deve levar nos a assumir e praticar o estilo
eucarístico de Jesus. Como diz a própria fórmula da consagração: «Tomai todos e
comei. Isto é o meu corpo que será entregue por vós… Tomai todos e bebei. Este é
o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado
por vós e por todos para remissão dos pecados» (Missal Romano). Viver em
oferecimento, na entrega de nós próprios a Deus e no serviço do próximo, é
praticar a Eucaristia celebrada e comungada.
5. Maria, uma
vida feita oferta
Toda a vida
de Maria foi de entrega a Deus e aos seus projectos de salvação. No encontro
fundamental da anunciação, quando recebe uma proposta inimaginável de ser Mãe
de Deus, Maria declara que toda ela se faz um presente, em disponibilidade sem
condições: «Eis a serva do Senhor, faça se em mim, segundo a tua palavra» (Lc
1, 38).
A grandeza de
Nossa Senhora não está em si mesma, mas na sua abertura para acolher a grandeza
de Deus. Como afirma Bento XVI, «Maria é grande, precisamente porque não quer
fazer-se grande a Si mesma, mas engrandecer a Deus. Ela é humilde: não deseja
ser mais nada senão a serva do Senhor (cf. Lc 1, 38.48). Sabe que contribui
para a salvação do mundo, não realizando uma sua obra, mas apenas colocando-se
totalmente à disposição das iniciativas de Deus» (Deus caritas est, 41).
Maria é o
modelo perfeito da entrega de si mesma a Deus, para cumprir os seus planos de
salvação: «A única atitude diante de Deus é a de dizer lhe: Eis me aqui! Um
acto de disponibilidade, de humildade, de pobreza, de consentimento» (Jean
Lafrance). O P. José Craveiro dá esta definição de consagrado, que de uma
maneira especial se aplica a Nossa Senhora: «O consagrado é um expropriado para
utilidade pública». Viver libertos de nós, da sede insaciável de posse e de
poder, fazendo nos dom gratuito para utilidade pública, para colaborar com os
planos de salvação de Deus.
Nossa Senhora
viveu despossuída de si própria, da sua grandeza, privilégios e planos
pessoais, totalmente feita uma oferta para Jesus e para a sua missão salvadora,
assumindo todos os riscos e dificuldades: dar à luz Jesus fora da sua terra e
sem casa, em Belém; fuga para o Egipto, para livrar da morte o seu filho;
apresentação no templo, oferecendo o seu filho primogénito para o serviço do
Senhor; vida de trabalho intenso e duro em Nazaré; perda de Jesus no templo em
Jerusalém; saída de Jesus de Nazaré para a missão apostólica, com seus êxitos e
incompreensões; paixão e morte de Jesus; ressurreição e Pentecostes: «Todos
perseveravam unanimemente em oração com Maria, Mãe de Jesus» (Act 1, 14)...
Atitude que devemos actualizar hoje, como bons filhos que aceitam o presente
magnífico de Jesus Cristo, que nos ofereceu a sua própria Mãe: «Eis a tua Mãe»
(Jo 19, 27).
Maria, hoje,
junto de Deus na glória, faz se presente pela intercessão maternal. Como
recorda o Concílio Vaticano II (Lumen gentium, 62), Maria «cuida, com amor
materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda
na terra até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na
Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira». Nossa
Senhora, no Céu, vive em perpétuo mistério e ministério da visitação... Nós
somos as novas Isabéis, a quem cabe o esforço de nos deixarmos visitar por
Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.
Paulo VI ao
promulgar a Constituição dogmática sobre a Igreja do Concílio Vaticano II
(1964.11.21), declarou solenemente Maria «Mãe da Igreja, isto é, de todo o povo
de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima». E
o Concílio assim apresenta a missão de Maria: «A função maternal de Maria em
relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui esta única mediação de
Cristo; manifesta antes a sua eficácia... De modo nenhum impede a união
imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece»... Maria «cooperou de modo
singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade na obra do Salvador, para
restaurar nas almas a vida sobrenatural. É, por esta razão, nossa mãe na ordem
da graça»... «Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem
interrupção, desde o consentimento que fielmente deu na anunciação e que
manteve inabalável junto à cruz, até à consumação eterna de todos os eleitos»
(Lumen gentium, 60 62).
Bento XVI
resume assim a vida e missão de Nossa Senhora, com a eloquência da
simplicidade: «Maria é uma mulher que ama» (Deus caritas est, 41). Ou seja,
Maria é a transparência humanamente feminina de Deus Amor. Cabe nos abrir as
nossas vidas a este amor imenso da própria Mãe de Deus, que é nossa Mãe também.
«Amor com
amor se paga», recorda a sabedoria do nosso povo. Assim, à doação maternal de
Maria deve corresponder a nossa entrega, de devoção e amor filial, a Nossa
Senhora. Admiramos todos certamente a entrega que João Paulo II, recentemente
beatificado, fez da sua vida a Deus por meio de Maria e que consignou na sua
divisa episcopal: «Totus tuus. Todo teu. Tudo o que tenho vos pertence. Sois
todo o meu bem. Dai me o vosso coração».
A história
das aparições de Nossa Senhora (Guadalupe, Lourdes…), particularmente em
Fátima, revela uma manifestação especial de Deus que vive plenamente entregue a
todos nós. São uma prova do amor maternal de Nossa Senhora que sempre nos
visita e se oferece como amparo e refúgio de suas filhas e filhos muito amados.
6. Cultivar a
espiritualidade da oferta de nós próprios
Depois de
vermos como Deus vive a entregar se a nós, actualizando continuamente a
história da nossa salvação; tendo reflectido sobre a vida de Jesus Cristo como
uma entrega incondicional à vontade do Pai na doação total de si próprio a
todas as pessoas; depois de considerar a vida e a missão de Maria como fiel
serva do Senhor e mãe solícita entregue ao bem de todos nós seus filhos; não
podemos deixar de olhar para nós próprios, a fim de verificarmos como imitamos
Deus e a sua fiel serva Maria na entrega de nós mesmos.
A
generosidade que nos é pedida, à imagem e semelhança de Deus, não está
propriamente em oferecer coisas, mas sim em nos oferecermos a nós próprios. Por
vezes, parece que os nossos presentes e ofertas pretendem ser um substituto de
nós mesmos, da entrega do nosso coração.
Nas relações
humanas, as coisas que damos valem na medida em que significam a dádiva pessoal
de nós próprios. Isso exige sacrifício, mas dá beleza e alegria às nossas
vidas. Assim se expressa um monge cartuxo francês do século XX, Dom Augustin
Guillerand: «Dar se é esquecer se de si próprio... O dom de si é fonte e
condição de vida, portanto de realização e de alegria. Continuemos a encontrar
a nossa alegria no belo sofrimento do dom de nós mesmos».
Todo o dom é
o seu doador. Um quadro ou uma escultura são o pintor ou o escultor que se me
comunicam. Todos os dons de Deus, são Deus a fazer se dom. Uma graça não é
somente uma graça, mas é Deus gracioso que me visita, Deus que se oferece em
presente na graça presenteada.
A nossa
relação com Deus e com os outros deve crescer sempre mais numa linha de
oferecimento pessoal. O mandamento do amor que resume toda a doutrina de Jesus
é um preceito para viver a oferecer a vida: «É este o meu mandamento: que vos
ameis uns aos outros como Eu vos amei. Ninguém tem mais amor do que quem dá a
vida pelos seus amigos» (Jo 15, 12 13).
É natural
sentirmos a tentação de nos fecharmos em nós próprios, porque a nossa doação
pessoal pode parecer uma perda do que somos, sabemos e valemos. Mas todos
felizmente temos a experiência que só ganha quem se oferece, que no dar é que
está o ganho. Quem mais se possui e é mais rico é quem mais se dá. Assim nos
exorta Cristo: «Dai e ser vos á dado» (Lc 6, 38). E São Francisco de Assis faz
este eco ao que disse Jesus: «É dando que se recebe». Na mesma linha nos
desafia Santo Agostinho: «Terás tu medo de te perder, ao dar te? Pelo
contrário, tu perdes te se te recusas a dar te».
S. Inácio de
Loiola conclui o itinerário dos Exercícios Espirituais, na contemplação para
alcançar amor, propondo ao exercitante que faça um acto de oferecimento, como
resumo de tudo e propósito que perdura: «Tomai, Senhor, e recebei toda a minha
liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade. Tudo o
que tenho e tudo o que possuo. Vós mo destes, a vós, Senhor, o restituo. Tudo é
vosso, disponde de tudo segundo a vossa inteira vontade. Dai me o vosso amor e
a vossa graça, que isso me basta».
Tudo o que
não damos, acabamos por perdê lo... A pessoa mais rica é a mais generosa.
O notável
escritor indiano Rabindranah Tagore conta a história de um rei que, numa visita
ao interior do seu território, encontrou um pobre que, cheio de alegria, lhe
estendeu a mão, na certeza que iria receber uma esmola como nunca tinha
alcançado. Eis senão quando o rei estendeu a mão ao pobre, invertendo os
papéis... Cheio de espanto, o pobre sem saber o que fazer, envergonhado, tirou
um grão de arroz do seu saco e ofereceu o ao rei. À noite, quando pôs sobre a
mesa as esmolas recebidas, notou que no meio de muitos grãos de arroz, brilhava
um grão de oiro puro. E caiu na conta que era o grão de arroz que oferecera ao
rei, que se tinha transformado em oiro. Tirando a lição, concluiu: Que pena não
ter sido mais generoso com sua majestade! Agora estaria rico, sem nunca mais
precisar de mendigar!
Somos os
primeiros beneficiados da nossa generosidade em oferecer a Deus e aos nossos
irmãos e irmãs que são suas vivas imagens, o nosso amor, por orações,
sacrifícios e obras de caridade. Os dons de Deus entram na nossa vida pela
porta da nossa generosidade. Dar afecto, tempo, ajudas de todo o género não é
uma perda, mas sim um excelente investimento. Como recorda Jesus Cristo, um
simples copo de água, oferecido por amor, não deixará de ter a sua recompensa
(cf. Mt 10, 42).
7. Prática da
entrega a Deus pelos Pastorinhos
Nossa
Senhora, logo na 1.ª aparição, a 13 de Maio de 1917, desafia os três
Pastorinhos a entregarem se a Deus, assumindo a dureza do sofrimento por que
tiverem que passar, em espírito de reparação, favorecendo a conversão dos
pecadores e o advento de um mundo melhor: «Quereis oferecer vos a Deus para
suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar vos, em acto de reparação
pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos
pecadores?» E a resposta dos Pastorinhos não tardou, clara e firme: «Sim,
queremos». Oferecimento exigente mas compensador que Nossa Senhora transmite
com realismo e esperança: «Ides, pois, ter muito que sofrer, mas a graça de
Deus será o vosso conforto» (Memórias da Irmã Lúcia – 4.ª Memória, II, 3). E
assim aconteceu.
Esta
disponibilidade para aceitar os sofrimentos, dando lhes um sentido redentor,
não pode ser confundida com práticas doloristas, de mortificação
autodestrutiva. Na verdade, são gestos de realismo e generosidade. Bem sabemos
que a vida é como uma roseira com espinhos. Quem não sabe aceitar os espinhos
perde as rosas. Jesus Cristo propõe aos que o seguem o realismo da cruz de cada
dia: «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e
siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, perdê la á; mas, quem perder a sua vida
por minha causa, há de encontrá la» (Mt 16, 24 25).
Os
sacrifícios que Jesus Cristo deseja são os que são permeados de misericórdia,
de amor; aos olhos de Deus, o que dá valor a uma penitência é o amor que se põe
nela. «Quero misericórdia e não sacrifício» (Mt 9, 13).
A consciência
da solidariedade dos três pastorinhos na salvação dos pecadores é deveras
impressionante. Toda a sua vida fica dinamizada por esta meta, tomando
verdadeira consciência do seu papel em construir um mundo melhor. Sem terem
conhecimentos teológicos sobre a doutrina de S. Paulo acerca do corpo místico de
Cristo, têm a sua profunda intuição espiritual. Assim, o P. António Maria
Martins identifica o núcleo central da mensagem de Fátima como sendo o mistério
do corpo místico. Todos temos que ser solidários do bem do corpo a que
pertencemos. Melhorando um membro, todo o corpo recebe o benefício da sua
saúde. Como afirma Élizabeth Leseur, «Toda a alma que se eleva, eleva o mundo».
E os pastorinhos não se pouparam a penitências e sacrifícios para, cumprindo as
exortações de Nossa Senhora, elevarem a qualidade de vida do mundo, pela
conversão dos pecadores.
Consultando
as Memórias da Irmã Lúcia, particularmente quando se refere aos seus primos
Jacinta e Francisco, encontramos numerosas indicações das penitências e
sacrifícios que os pastorinhos faziam, dando cumprimento aos pedidos de Nossa
Senhora. Cito apenas algumas, começando por afirmações de Jacinta:
– «Quero
sofrer pela conversão dos pecadores».
– «Também
quero oferecer o sacrifício pela conversão dos pecadores».
– Jacinta
«punha as mãozinhas, levantava os olhos ao Céu e dizia: - Ó Jesus, é por vosso
amor e pela conversão dos pecadores».
– «Então não
brinquemos mais. Fazemos este sacrifício pela conversão dos pecadores».
– «Tenho
tantas dores no peito! Mas não digo nada; sofro pela conversão dos pecadores».
– «Gosto
tanto de sofrer por Seu amor! Para dar lhes gosto! Eles gostam muito de quem
sofre para converter os pecadores».
Indico também a este propósito algumas
afirmações de Francisco, que Lúcia relata na sua Quarta Memória:
– Estando
presos em Ourém, dizia Francisco a sua irmã Jacinta: «A Mãe, se não a tornamos
a ver, paciência! Oferecemos pela conversão dos pecadores. O pior é se Nossa
Senhora não volta mais! Isso é que mais me custa! Mas também o ofereço pelos
pecadores».
– «Gostava
mais de consolar a Nosso Senhor. Não reparaste como Nossa Senhora, ainda no
último mês, se pôs tão triste, quando disse que não ofendessem a Deus Nosso
Senhor que já está muito ofendido? Eu queria consolar a Nosso Senhor e depois
converter os pecadores».
É
significativo o número de vezes que, nas Memórias da Irmã Lúcia, aparecem as
palavras oferecer e oferecimento (cerca de 40), entrega ou entregar
(aproximadamente 20) e consagrar ou consagração (cerca de 20). Só se possui
quem se sabe dar. Quem mais se entrega é quem mais recebe. Deus está nas nossas
vidas, como Ele é: força de doação em amor.
As aparições
de Nossa Senhora aos Pastorinhos revolucionaram a vida destas três crianças
Lúcia, Francisco e Jacinta. Foi uma autêntica conversão dos próprios
interesses, porventura justos e rectos, à vontade salvífica de Deus. O grande
salto de qualidade de vida pode resumir se nesta expressão de S. Inácio de
Loiola no livro dos Exercícios Espirituais: «sair de seu próprio amor, querer e
interesse». É um êxodo fundamental para a terra prometida da liberdade no amor,
típico de quem arrisca viver a entregar se a Deus e ao próximo. Os Pastorinhos
foram convertidos a renunciar a viver para si próprios a fim de se entregarem
aos planos de Deus, que «quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao
conhecimento da verdade» (1 Tm 2. 3). Os Pastorinhos passaram a praticar uma
espiritualidade de quem já não vive para si mesmo (cf. 2 Cor 5, 15) mas todo se
entrega a Deus, em reparação do mal feito e pela construção de um mundo melhor,
pela conversão dos pecadores.
8. Entrega de
nós mesmos a Deus, programa de vida
Toda a
espiritualidade e vida para serem verdadeiramente cristãs têm que ser norteadas
pela entrega de si mesmo. Quem se fecha em si próprio não espelha a eterna
doação da Santíssima Trindade, não segue a Jesus Cristo que sempre se dedicou a
fazer a vontade do Pai para a salvação da humanidade, nem imita Maria que se
despojou de si mesma para se oferecer a Cristo, salvador do mundo.
Progredir na
vida cristã, ir mais adiante nos caminhos da santidade significa libertar se do
campo de concentração do egoísmo, em favor da oferta de si mesmo aos planos de
Deus, que vive totalmente entregue ao nosso serviço. Só progride quem imita
Jesus Cristo que se «esvaziou a si mesmo, tomando a condição de servo...,
rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz» (Fl
2, 7 8).
Desde o
Baptismo que somos de Cristo, enxertados no seu tronco. Mas toda a vida deve
ser um progressivo crescer na identificação com Ele, que é nosso caminho,
verdade e vida. Por isso nos recorda S. Paulo: «Do mesmo modo que recebestes
Cristo Jesus, o Senhor, continuai a caminhar nele: enraizados e edificados
nele, firmes na fé, tal como fostes instruídos, transbordando em acção de
graças» (Cl 2, 6 7).
A prática da
oração, o cultivo da presença de Deus, o exercício da vida sacramental,
especialmente a particiação na Eucarisita, são meios particularmente
recomendáveis para exercitar a entrega de nós mesmos a Deus, identificando nos
com o estilo de vida de Cristo. Mas importa notar que tudo na vida de um
cristão tem valor, quando oferecido a Deus. Assim exorta o Concílio Vaticano
II: «Todas as suas actividades, orações, iniciativas apostólicas, a sua vida
conjugal e familiar, o seu trabalho de cada dia, os seus lazeres do espírito e
do corpo, se forem vividos no espírito de Deus, e até as privações da vida se
pacientemente suportadas, tudo se transforma em “sacrifício espiritual,
agradável a Deus por Jesus Cristo” (1 Pd 2, 5). Na celebração eucarística,
todas estas oblações se unem à do Corpo do Senhor para serem piedosamente
oferecidas ao Pai. É assim que os leigos consagram a Deus o próprio mundo,
prestando Lhe por toda a parte, na santidade da sua vida, um culto de adoração»
(Lumen gentium, 34; Catecismo da Igreja Católica, 901).
O
oferecimento das obras do dia, prática fundamental do movimento eclesial do
Apostolado da Oração, não é nenhum acrescento a uma lista de devoções. É muito
simplesmente oferecer a Deus, por meio e ao jeito do Coração de Jesus Cristo, a
nossa vida quotidiana, actualizando assim o mistério da salvação de Jesus em
Nazaré. É um exercício de dar o seu a seu dono. Nós e toda a criação somos de
Deus. Pelo oferecimento quotidiano, reconhecemos que Deus é Nosso Senhor, e a
Ele nos entregamos, sabendo que servir a Deus é reinar.
O nosso
actual Papa Bento XVI explicitamente recomenda esta simples prática de
identificação com Cristo, através do oferecimento da simplicidade da nossa vida
quotidiana: «Eu vos convido a renovar (…) a devoção ao Coração de Cristo,
valorizando também a tradicional oração de oferecimento do dia e tendo
presentes as intenções que proponho a toda a Igreja» (2008.06.01). Trata se de
uma pedagogia para vivermos o oferecimento salvador de Cristo, como sublinha o
P. Peter Hans Kolvenbach, anterior Superior Geral dos Jesuítas: «O oferecimento
diário, essa forma simples e ao mesmo tempo profunda, expressa o propósito de
viver unido a Cristo na sua entrega redentora e de prolongar a Eucaristia ao
longo de todo o dia, num desejo de morrer com Cristo para que os irmãos tenham
vida; a exemplo do Senhor, é um sair de si próprio e uma entrega aos outros».
Nada na nossa
vida pode ser considerado desprezível, algo que não interessa a Deus, por não
parecer suficientemente importante, nem ter um perfil sagrado. O que torna
grande qualquer coisa não é a sua fachada de relevo social, mas o amor que
pomos nela. Perante Deus, o amor da dedicatória vale imensamente mais que a
riqueza do presente. Por isso, S. Paulo assim nos exorta: «Quer comais, quer
bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus» (1
Cor 10, 31).
A vida de
Cristo em Nazaré também foi vivida no oferecimento das coisas simples do
quotidiano, sem pregações nem milagres. Tudo foi salvador na vida de Jesus, sem
intervalos, férias, greves ou tempos mortos: alegrias e sofrimentos, trabalhos
e descansos, orações e convívios… Importa cultivar a virtude do realismo. É a
partir do oferecimento das coisas simples da vida quotidiana, que estaremos
preparados para algum oferecimento heróico em circunstâncias excepcionais. Como
recorda S. Francisco Xavier: «Que ninguém alimente a ilusão de pensar
distinguir-se nas coisas grandes, se de antemão não se distinguir nas coisas
simples».
Como aos
Pastorinhos de Fátima, Nossa Senhora evangelicamente hoje nos desafia: Quereis
oferecer vos a Deus pela salvação do mundo, para que a Igreja seja mais santa,
para que os pecadores se convertam e assim haja mais concórdia e paz no mundo?
Estais dispostos a completar o que falta ao oferecimento de Cristo pela
salvação da humanidade? (cf. Cl 1, 24). A nossa resposta positiva, como a de
Lúcia, Francisco e Jacinta, «sim, queremos», a todos trará benefícios, dando
glória a Deus e tornando o mundo melhor.
Viver em
oferecimento a Deus pela salvação da humanidade é o programa de vida de todo o
cristão. O desafio que Nossa Senhora nos deixou em Fátima é um seu apelo
maternal para praticarmos a entrega da nossa vida, como sempre fez Jesus
Cristo, salvador do mundo.

Comentários
Enviar um comentário