"A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice
dever: anúncio da Palavra de Deus, celebração dos Sacramentos e serviço da
caridade. São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado
dos outros. Portanto, também o serviço da caridade é uma dimensão constitutiva
da missão da Igreja e expressão irrenunciável da sua própria essência; todos os
fiéis têm o direito e o dever de se empenharem pessoalmente por viver o
mandamento novo que Cristo nos deixou (cf. Jo 15, 12), oferecendo às pessoas
não só ajuda material, mas também refrigério e cuidado para a alma (cf. Carta
enc. Deus caritas est,- 28). A Igreja é chamada à prática do serviço da
caridade também a nível comunitário, desde as pequenas comunidades locais
passando pelas Igrejas particulares até à Igreja universal; por isso, há
necessidade também uma organização articulada também através de expressões
institucionais (Cf. Encíclica Deus caritas est, 20-25; Cf. Proêmio do Motu
Próprio "Intima Ecclesiae natura"). Cada instância de vida eclesial
tem o dever de "organizar a caridade", segundo suas possibilidades e
no âmbito de sua presença, e considero fundamental que todos os cristãos
católicos tenham seu modo de viver a caridade. Não são poucas as pessoas que a
praticam de modo silencioso e escondido, cujas obras são por Deus conhecidas e
as acompanharão quando se apresentarem diante do Senhor. Oxalá todos nós
estejamos assim preparados para o encontro com Ele.
Mas o que distingue a caridade de tantos e beneméritos
serviços filantrópicos existentes na sociedade? O Senhor Jesus contrapõe o
serviço aos outros feito ser elogiado ao amor sincero, no qual a mão esquerda
não sabe o que faz a direita (Cf. Mt 6,3). O Apóstolo São Paulo fala da
caridade como o dom maior, que vai além do distribuir os bens aos pobres (Cf. 1
Cor 13, 1-13). Para ele, o amor de Deus foi derramado em nossos orações pelo Espírito
Santo que nos foi dado (Rm 5,5). Ela
nasce de Deus! Há de ser reconhecida como um dom e nós a reconhecemos, ao lado
da Fé e da Esperança, como virtude cuja fonte é o próprio Deus, entregue de
presente no Batismo e destinada a frutificar na vida de cada cristão. Se no Céu
está sua origem, realiza-se na terra como "o mandamento novo" dado
por Jesus, o amor mútuo, com o qual estamos prontos a dar a vida uns pelos
outros. É a mesma torrente de amor vinda da Santíssima Trindade que se espalha
sobre a terra, destinada a permear toda a vida humana, não só a assistência aos
necessitados ou sua promoção a níveis correspondentes à dignidade com que foram
criados por Deus ou mesmo sua libertação das amarras que oprimem grandes
camadas da população.
Contemplando tal torrente, o grande São Bernardo afirmava
extasiado: "Amo porque amo, amo para amar. O amor basta-se a si mesmo, em
si e por sua causa encontra satisfação. É seu mérito, seu próprio prêmio. Além
de si mesmo, o amor não exige motivo nem fruto. Seu fruto é o próprio ato de
amar. Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, contanto que vá a
seu princípio, volte à sua origem, mergulhe em sua fonte, sempre beba donde
corre sem cessar. De todos os movimentos da alma, sentidos e afeições, o amor é
o único com que pode a criatura, embora não condignamente, responder ao Criador
e, por sua vez, dar-lhe outro tanto. Pois quando Deus ama não quer outra coisa
senão ser amado, já que ama para ser amado; porque bem sabe que serão felizes
pelo amor aqueles que o amarem" (Dos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos,
de São Bernardo, abade - Sermo 83,4-6, Opera omnia).
A prática da caridade é gratuita. Não faz o bem para
qualquer tipo de compensação pessoal, mas ama para amar e porque fomos feitos
para amar. Toma sempre a iniciativa,
ama a todos, sem excluir a ninguém e reconhece a presença do próprio Cristo em
cada pessoa (Cf. Mt 25,34-40). Traz consigo a exigência do perdão, nada faz de
inconveniente, tudo perdoa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Ela jamais
acabará! (Cf. 1 Cor 13,1-13)
Dom Alberto Taveira Corrêa, em Zenit.org

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