«Faltam-nos hoje mestres de humanidade. Faltam cartógrafos do coração humano»


Quem quer ouvir o silêncio de B fachada?

José Tolentino Mendonça
Revista | Expresso | 19 de janeiro 2013, pág. 6

(foto: jornal i)

Faltam-nos hoje mestres de humanidade. Faltam cartógrafos do coração humano, dos seus infindos e árduos caminhos, que, por fim, se revelam extraordinariamente simples.

B Fachada é um dos cantautores da presente geração. Não falta quem o encoste já à linhagem dos José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Jorge Palma e por aí fora.

Com menos de 30 anos, produziu 12 reluzentes caixas de música que desarrumaram a música portuguesa e a infestaram de talento, ironia e más maneiras. Nada de que ela não precise, diga-se a verdade, para fugir à domesticação imposta pelo cânone preguiçoso das cançonetas do costume.

Porém, no final do ano de 2012 (um ano com uma safra impressionante, em que editou dois álbuns, «Criôlo» e «O Fim», e coproduziu um terceiro com a regravação do disco «Os Sobreviventes», de Sérgio Godinho), o músico anuncia que se despede para uma estação de silêncio. «Quero parar para tentar quebrar a continuidade. É um fim autoimposto… Há uma urgência fundamental no trabalho que eu fiz até aqui que terá que crescer para algo mais.» 

Fiquei a pensar na escolha de B Fachada, no que é essa necessidade de parar para a qual a vida, num momento ou noutro, nos encaminha; nos fins que nos temos de impor se quisermos crescer, mesmo quando os ventos correm de feição; na urgência fundamental que representa escutar-se a si mesmo, perfurando camadas de distração e automatismo.

Diria isto:
por vezes o que no aproxima da autenticidade é o continuar, por vezes é parar. 
E só o saberemos no exercício paciente e inacabado da escuta. Mas esta audição a nós próprios não se faz sem coragem e sem esvaziamento.

Não podemos estar à espera de condições ideais. Eu acredito naquilo que o músico John Cage deixou escrito: em nenhuma parte do espaço ou do tempo existe isso a que, de forma idealizada, nós chamamos silêncio. À nossa volta tudo é som, por muito que tentemos encontrar um silêncio. E do mesmo modo se expressou Kafka falando da sua trincheira, a literatura: «Nunca conseguimos estar suficientemente sozinhos quando escrevemos, nunca há silêncio suficiente à nossa volta quando escrevemos, até mesmo a noite nunca é noite o suficiente.» Aquilo a que chamamos silêncio só se torna real e efetivo através de um processo de despojamento interior, e de nenhuma outra maneira. Os padres do deserto ensinam-no, com uma sabedoria sempre calibrada de humor. Como aparece nesta história do monge Arsénio. 
«A certa altura, o abba Arsénio chegou a um canavial e os juncos eram agitados pelo vento. E o velho sábio perguntou aos irmãos: “Que rumorejar é este?” e eles responderam: “São os juncos.” O velho sábio disse-lhes: “Na verdade, se um homem se sentar em silêncio e ouvir a voz de um pássaro, é porque não tinha mesmo silêncio no seu coração. Quanto mais não será assim convosco, que ouvis os sons destes juncos?”» 

O silêncio não é simplesmente exterior. É preciso ter «silêncio no seu coração». Mas esse silêncio pede-nos, em cada dia, muita turbulência e empenho.
Diziam ainda os padres do deserto:
«Aquele que se senta em solidão e está silencioso escapou a três guerras – ouvir, falar, ver. Terá, contudo, de travar continuamente uma batalha contra uma coisa: o seu próprio coração humano, dos seus infindos e árduos caminhos, que, por fim, se revelam extraordinariamente simples. 

Falta-nos uma nova gramática que concilie os termos que a nossa cultura tem por inconciliáveis: razão e sensibilidade, eficácia e afetos, individualidade e compromisso social, gestão e compaixão…

Em 2013, ao lado dos discos de B Fachada, vou querer pôr a tocar o seu silêncio. E continuar a pensar nisto.

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