«Fé em Deus confronta-se com bloqueio cultural de um cientismo satisfeito ou ignorante» - A RECEÇÃO DO CONCÍLIO – O QUE MUDOU DESDE ENTÃO
A RECEÇÃO DO CONCÍLIO – O QUE MUDOU DESDE ENTÃO
D. Manuel Clemente, bispo do
Porto
Vice-presidente da Conferência
Episcopal Portuguesa
Conferência nas Jornadas de
Formação Permanente do Clero do Patriarcado de Lisboa.
29 de janeiro de 2013
O tema é muito vasto para uma
conferência breve, aludindo a meio século da vida da Igreja e do mundo, ou da
Igreja no mundo, usando linguagem mais “conciliar”. Limitar-me-ei, por isso, a
uma linha de verificação muito restrita, a saber, qual a evolução da sociedade
que nos toca mais de perto e como se compagina ela com as previsões
conciliares; olharei também para a revisão deste ponto na exortação apostólica
pós-sinodal Ecclesia in Europa, de 2003, concluindo com algumas das respetivas
sugestões pastorais.
A base conciliar propriamente
dita vou buscá-la à constituição pastoral Gaudium et Spes, em duas passagens de
particular acerto. Como a seguinte: «O género humano encontra-se hoje numa
idade nova da sua história, em que mudanças profundas e rápidas se estendem
gradualmente ao mundo inteiro. Provocadas pela inteligência e pela atividade
criadora do homem, refletem-se no próprio homem, nos seus juízos, nos seus
desejos individuais e coletivos, no seu modo de pensar e de agir, tanto em
relação às coisas como aos homens. Assim, pode falar-se de uma verdadeira
metamorfose social e cultural, cujos efeitos se repercutem também na vida
religiosa» (GS, 4).
Inserida no número dedicado aos
“sinais dos tempos” e à respetiva interpretação evangélica, esta passagem nunca
perdeu atualidade. Isto se diga da “idade nova” da história, nem sempre
advertida pelos que a vivemos já; isto se diga das “mudanças”, tornadas em
categoria base dum entendimento sociocultural correto; isto se diga ainda de
juízos qualitativos, que hoje não são prévios, mas posteriores às inovações
técnicas e por elas condicionados, nem sempre no melhor sentido, humana e
religiosamente falando…
Particularmente tocadas por tais
mudanças foram e são as três gerações que o pós-concílio já leva. Exatamente
por isso, não têm em relação ao passado o acolhimento espontâneo que havia
noutros tempos. É como se tudo tivesse de ser explicado desde o princípio, para
conquistar anuência e assunção pessoal, de alínea a alínea. Mas a constituição
conciliar já o verificava, como se lê a seguir: «A transformação das
mentalidades e das estruturas leva com frequência à discussão dos valores
recebidos particularmente entre os jovens […]. Está aqui o motivo de, não raro,
pais e educadores experimentarem dificuldades sempre maiores no cumprimento das
suas tarefas. As instituições, as leis, os modos de pensar e de sentir,
herdados do passado, nem sempre parecem adaptar-se bem ao condicionalismo
atual: daqui uma grande perturbação no comportamento e até nas normas que o
regulam» (GS, 7). E tudo isto realmente aconteceu e acontece, a coincidir com
uma época em que escasseia o que mais seria preciso para acolher e dialogar,
quer nas famílias, quer nas escolas, quer nas próprias comunidades cristãs: o
tempo, muito tempo até.
A incidência religiosa destas
mudanças é igualmente óbvia e decorrente. Ambivalente também. Já o era para os
autores da Gaudium et Spes, quando concluíam: «Por um lado, o desenvolvimento
do espírito crítico purifica-a [a religião] de uma conceção mágica do mundo e
de superstições que vão sobrevivendo, e exige uma adesão à fé cada vez mais
pessoal e atuante, o que faz que não poucos atinjam um sentido mais vivo de
Deus. Por outro lado, multidões cada vez mais numerosas afastam-se, na prática,
da religião. Recusar Deus ou a religião, não se preocupar com isso, não é, ao
contrário de outros tempos, um facto excecional e individual: hoje, com efeito,
tal atitude é frequentemente apresentada como uma exigência do progresso
científico ou de um qualquer novo humanismo. Em numerosas regiões, tudo isto
não se exprime só ao nível filosófico; afeta também, e em mui larga escala, a
literatura e a arte, a conceção das ciências do homem e da história e as próprias
leis civis…» (ibidem).
A única nuance a fazer a este
trecho conciliar é que, entretanto, se difundiu uma certa recuperação do
mágico, bem como da religiosidade não institucional, de tipo new age. Mais,
muito mais, como devaneio itinerante do que como compromisso certo. E quem
tiver passado as últimas décadas em contacto com o sistema de ensino, os meios
“culturais” e os media, conhece o autêntico bloqueio cultural com que a
afirmação crente se defronta, por parte dum “cientismo” satisfeito ou meramente
ignorante. Considero este bloqueio uma das fronteiras mais difíceis e exigentes
da nova evangelização, requerendo da nossa parte muito estudo e vontade de
aprender, bem como reforçada disposição para o diálogo e o esclarecimento, com
a maior coerência prática também. Poucas vezes terá sido tão necessário cumprir
a indicação de 1 Pe 3, 15-16: «… no íntimo do vosso coração, confessai Cristo
como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele
que vo-la peça; com mansidão e respeito, mantende limpa a consciência …».
Olhemos mais de perto a sociedade
portuguesa do último meio século, genericamente quantificada e qualificada.
Sirvo-me do texto muito recente dum sólido historiador do Portugal
contemporâneo e basta reter-lhe alguns trechos, mais coincidentes com o fio
condutor do nosso discurso.
Façamo-lo à luz da já citada
passagem da Gaudium et Spes: «Provocadas pela inteligência e pela atividade
criadora do homem, [as mudanças] refletem-se no próprio homem, nos seus juízos,
nos seus desejos individuais e coletivos, no seu modo de pensar e de agir,
tanto em relação às coisas como aos homens». E verifiquemo-lo entre nós, onde
as mudanças foram realmente estruturais, como mostram os seguintes
quantitativos, logo qualitativos pela grandeza: «A preços constantes, o PIB per
capita passou de cerca de 5000 euros na década de 1970 para 15.238 euros
[atualmente]. A população é mais urbana, mais saudável, mais instruída, mais
velha e mais diversificada (o país ganhou 400 mil novos residentes através da
imigração). 62,8% dos portugueses estão agora ocupados no setor terciário (a
agricultura não representa mais do que 9,9% e a indústria 27,3%). Há mais
funcionários públicos do que trabalhadores rurais. O “Estado Social” tornou-se
um modo de vida: estima-se que mais de 50% dos portugueses retirem rendimentos
do Estado por via de emprego, subsídio, ou pensão» (Rui Ramos, 40 anos que
abalaram Portugal, Expresso – Revista, 5 de janeiro de 2013, p. 78).
Nova relação vida – trabalho,
grandes mudanças na própria vida, necessariamente. - Reflexos humanos e
sociais? Também não puderam faltar, começando pela própria reprodução
geracional: «A partir da década de 1970, os anticoncecionais tornaram possível
uma sociedade altamente sexualizada, mas com baixa natalidade. Nascem hoje
metade das crianças que nasciam na década de 1960, e quase metade fora do
casamento. Um dos países mais jovens da Europa ocidental em 1973 é, em 2013, um
dos mais envelhecidos. Havia, em 2011, 128 idosos para cada 100 jovens. Em
2050, um em cada três portugueses terá mais de 65 anos. Desde 1983, que
Portugal não substitui gerações» (ibidem).
Menos gente nova, com novos e
velhos a fazerem outras coisas, assim estamos hoje. E, os que vivemos há mais
tempo, fomos certamente reparando na grande diferença da paisagem rural e
urbana, dos tempos do Concílio aos nossos dias. Dos anos 80 para os 90, «a
velha agricultura e a velha indústria do século XX desapareceram, deixando um
rasto de ruínas – quintas devolvidas ao mato, fábricas reduzidas às paredes.
Arvoredos regularmente varridos por incêndios, aldeias e bairros fantasmáticos.
Ao lado desse país abandonado, surgiu outro, nas grandes áreas metropolitanas
de Lisboa e Porto, onde a população se concentrou: um país de prédios,
estradas, centros comerciais e muitos automóveis» (ibidem, p. 82).
Desenraizamentos que acarretaram
diluições institucionais. Ainda uma vez, as verificações e os números: «As
fontes tradicionais da autoridade secaram. As forças armadas estão reduzidas a
pequenos corpos profissionais. A universidade integrou intelectuais e artistas,
mais uma enorme massa de estudantes, mas perdeu carisma. Os sindicatos perderam
filiados e poder. A imprensa escrita vive atormentada pela internet. As
televisões trocaram velhas pretensões pedagógicas por um populismo satisfeito.
Apesar da vitalidade religiosa do resto do mundo, as antigas igrejas de Estado
recuam na Europa. Em Portugal, os casamentos não católicos, menos de 20% na
década de 1970, representavam 57,5% em 2010» (ibidem, p. 88).
Não precisamos de ir mais longe
para concluir que as mudanças civilizacionais (mais quantitativas e de
organização) e culturais (mais qualitativas e de mentalidade), bem previstas
pelo Concílio, acarretam profundas consequências para a evangelização, antiga ou
nova. O que sobra, transmite-se com muita dificuldade, embatendo com
resistências de toda a ordem, na família, nas comunidades e no meio ambiente.
O que se há de transmitir “de
novo” ensaia – mas apenas ensaia – “novos métodos e novas expressões”, sempre
que assenta num “novo ardor”, para usar a trilogia da “nova evangelização” de
João Paulo II (1983). E posso resumir a reflexão da última assembleia do Sínodo
dos Bispos sublinhando alguns desses “ensaios”, que se revelam particularmente
promissores, um pouco por todo o mundo: insistir em comunidades de acolhimento
e missão, onde se reproduza a cena evangélica do poço de Jacob (Jo 4) - do
encontro da “água viva”, que Cristo proporciona, ao testemunho alegre de que
isso mesmo aconteceu connosco; a importância das famílias, quer como igrejas
domésticas para os seus membros e vizinhos, quer como tecido básico das
comunidades, já chamadas “famílias de famílias”; a reforçada disponibilidade
dos pastores, e em especial dos “sacerdotes”, para o acompanhamento espiritual
e personalizado, também no sacramento da Reconciliação – que no Sínodo quase
apareceu como “o sacramento da nova evangelização”…
A exortação apostólica
pós-sinodal Ecclesia in Europa, de 2003, mereceria mais atenção da nossa parte.
Sempre que a releio, noto-lhe o eco da Gaudium et Spes, quatro décadas depois.
Começa também com uma leitura dos sinais dos tempos, para sugerir de seguida o
que a Igreja há de ser e fazer no novo contexto. Trata-se de herança conciliar
em sentido pleno.
Olha para o “velho” continente e
não demora em concluir: «De facto, os nossos dias, com todos os desafios que
nos lançam, apresentam-se como um tempo de crise. Muitos homens e mulheres
parecem desorientados, incertos, sem esperança; e não poucos cristãos partilham
estes estados de alma. Numerosos são os sinais preocupantes que inquietam, ao
início do terceiro milénio, o horizonte do continente europeu…» (Ecclesia in
Europa, 7).
“Preocupantes”, são agora os
sinais dos tempos. E a exortação apostólica enumera alguns: a “crise da memória
e herança cristãs” (ibidem), tão coincidente com a quebra cultural acima
anotada; o “medo de enfrentar o futuro” (EE, 8), porque dificilmente se projeta
sem base e sem encosto; a “fragmentação da existência” (ibidem), própria dum
ego sem amarração externa e interna; o “enfraquecimento progressivo da
solidariedade” (ibidem), que a remete para as instituições específicas; e, mais
radical ainda, “uma antropologia sem Deus e sem Cristo” (EE, 9), qual
“apostasia silenciosa”, ou “nova cultura”. Muito problemática, esta: «Estamos
perante o aparecimento duma nova cultura, influenciada em larga escala pelos
mass-media, com características e conteúdos frequentemente contrários ao
Evangelho e à dignidade da pessoa humana. Também faz parte de tal cultura um
agnosticismo religioso cada vez mais generalizado, conexo com um relativismo
moral e jurídico mais profundo que tem as suas raízes na crise da verdade do
homem como fundamento dos direitos inalienáveis de cada um» (ibidem).
A estes “sinais preocupantes”, a
exortação apostólica não deixou de contrapor alguns “sinais de esperança”,
considerando-os outras tantas marcas do «influxo do Evangelho de Cristo na vida
da sociedade» (EE, 11). E especificou: a liberdade da Igreja no Leste europeu,
a concentração na missão espiritual e na evangelização, a maior consciência dos
batizados quanto aos seus dons e tarefas e a maior presença da mulher nas
estruturas e setores da comunidade cristã (cf. ibidem). Não é difícil apurar a
coincidência destes pontos com as verificações e expectativas da Gaudium et
Spes – especialmente nos seus números 40 a 45, dedicados à «missão da Igreja no
mundo do nosso tempo». Mas a persistência das análises só pode motivar-nos para
uma correspondência eclesial mais expedita.
Tal correspondência, incidindo na
vida interna e externa da Igreja, ou melhor, redefinindo a sua vida interna no
sentido da missão e da nova evangelização, só poderá ter como suporte a
comunidade cristã nas suas várias concretizações, a que poderemos chamar o
sujeito comunitário da evangelização. Como estipulou em 1988 outra exortação
apostólica pós-sinodal, também em direta decorrência conciliar: «É urgente, sem
dúvida, refazer em toda a parte o tecido cristão da sociedade humana. Mas, a
condição é a de refazer o tecido cristão das próprias comunidades eclesiais…»
(Christifideles Laici, nº 34).
A este propósito, a Ecclesia in
Europa esclarece e detalha: «O Evangelho continua a dar os seus frutos nas
comunidades paroquiais, no meio das pessoas consagradas, nas associações de
leigos, nos grupos de oração e de apostolado, nas diversas comunidades juvenis,
e também através da presença e difusão de novos movimentos e realidades
eclesiais. De facto, em cada um deles o mesmo Espírito consegue suscitar
renovada dedicação ao Evangelho, generosa disponibilidade para o serviço, vida
cristã caracterizada por radicalismo evangélico e zelo missionário» (EE, 15).
Inegavelmente, a paróquia
continua a ter um papel central, em termos de vizinhança e ritmo cristão da
vida para o comum dos crentes. Tem a força de milénio e meio de progressiva
existência e a debilidade de ter nascido sobretudo em meio rural, que
dificilmente se projeta tal e qual em meio urbano e, ainda mais, de urbanização
massiva. A Ecclesia in Europa crê que, «embora carecida de constante
renovação», a paróquia «é capaz ainda de proporcionar aos fiéis o espaço para
um real exercício da vida cristã e ser lugar também de autêntica humanização e
sociabilização, quer no contexto dispersivo e anónimo típico das grandes
cidades modernas quer em zonas rurais com pouca população» (EE, 15).
Renovação paroquial que passará
pela sua tessitura interna, em termos de “comunidades de comunidades” e
“família de famílias”, para usar expressões típicas do pontificado wojtyliano;
passará também pela necessária cooperação inter-paroquial, no esquema de
“unidades pastorais” ou outro semelhante; e contará decerto com a cooperação
que podem oferecer «os novos movimentos e as novas comunidades eclesiais» que,
sempre segundo a Ecclesia in Europa e as propostas sinodais que lhe subjazem,
«ajudam os cristãos a viverem mais radicalmente segundo o Evangelho; são berço
de diversas vocações e geram novas formas de consagração; promovem sobretudo a
vocação dos leigos e levam-na a exprimir-se nos diversos âmbitos da vida;
favorecem a santidade do povo; podem ser anúncio e exortação para muitos que de
outro modo não se cruzariam com a Igreja; frequentemente apoiam o caminho
ecuménico e abrem sendas para o diálogo inter-religioso; servem de antídoto
contra a difusão das seitas; são de grande ajuda para irradiar vitalidade e
alegria na Igreja» (EE, 16). Também nestes pontos se recebe a herança
conciliar, assim expressa, por exemplo, no decreto sobre o apostolado dos
leigos: «Os cristãos devem exercer o seu apostolado unindo os seus esforços.
Sejam apóstolos tanto nas suas famílias como nas suas paróquias e dioceses –
comunidades que exprimem a natureza comunitária do apostolado -, e também nas
associações e grupos que livremente resolverem formar» (Apostolicam Actuositatem,
18).
O objetivo continua a ser a
missão, que é, ao mesmo tempo, a natureza da Igreja, como lembrou o Concílio. E
não podia ser mais claro: «A Igreja peregrina é, por natureza, missionária,
visto que, segundo o desígnio de Deus Pai, tem a sua origem na missão do Filho
e na missão do Espírito Santo» (Ad Gentes, 2). E, em tempos de “nova
evangelização” – termo desconhecido pelo Vaticano II -, o mesmo decreto sobre a
atividade missionária da Igreja já previa que as formas, geografias e etapas da
evangelização não podem ser absolutamente sucessivas e estanques. Oiçamos: «Os
grupos humanos no meio dos quais a Igreja vive, não raras vezes, por diversas
razões, mudam radicalmente, de tal forma que podem surgir situações totalmente
novas. A Igreja deve então ponderar se essas situações não exigirão de novo a
sua atividade missionária» (AG, 6).
Quarenta anos depois, a Ecclesia
in Europa já não tem qualquer dúvida a esse respeito: «Em várias partes da
Europa, há necessidade do primeiro anúncio do Evangelho […]. Com efeito, a
Europa faz parte já daqueles espaços tradicionalmente cristãos, onde, para além
duma nova evangelização, se requer em determinados casos a primeira
evangelização. A Igreja não pode subtrair-se ao dever dum corajoso diagnóstico,
que lhe permita predispor as terapias mais oportunas. Mesmo no “velho”
continente existem extensas áreas sociais e culturais onde se torna necessária
uma verdadeira e própria missio ad gentes» (EE, 46).
E ainda aqui estaremos em
autêntica receção conciliar.

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