Meditar é fácil, embora aparentemente difícil. É como
aprender a nadar ou andar de bicicleta. Para quem não sabe, são tarefas
arriscadas, perigosas. Depois que se aprende, faz-se sem pensar.
Para aprender a meditar, devo ter um mínimo de disciplina:
reservar tempo, assim como largo tudo para fazer uma refeição e também para
dormir. A desculpa da falta de tempo é o sinal de que não estou mesmo desejando
entrar em comunhão com Deus. Ninguém aprende a nadar sem dedicar um certo tempo
ao aprendizado.
A meditação é uma experiência amorosa. Quem ama dedica tempo
à pessoa amada. Sem agenda, pressa e telefone ligado. E sem a menor preocupação
com o que se haverá de conversar. Os verdadeiros amantes sabem ficar em
silêncio, curtindo tão-somente a presença um do outro.
Devo estar bem consciente de que a minha mente egocêntrica
não é capaz de entrar no mundo da meditação. Medita-se com o coração, não com a
razão; com o inconsciente, não com o consciente; com o não-pensar, não com o
pensar. Assim, de condutor passo à condição de conduzido.
Devo perder a mania de querer tudo controlar através de
minha mente. Preciso despojar-me dela. Calá-la. Penetrar os seus bastidores.
Virá-la pelo avesso. Fechar os olhos da mente, tão gulosa e soberana. Quanto
mais conseguir cegá-la, mais verei a luz. A mente é capaz de apreender a física
da luz. Mas não a própria luz – esta, só a meditação capta.
Meditar é mergulhar no mar. Não posso possuir ou reter o
oceano. Mas posso banhar-me nele, deixar que me envolva, embale e carregue em
suas ondas. Se sou capaz desse mergulho, então começo a meditar.
O mar está sempre lá. Eu é que devo dar os passos em sua
direção. Ele jamais se afasta de mim e está sempre pronto a me receber. Mas
devo livrar-me das roupagens que tanto pesam em meu ser. Quanto menos, mais
leveza dentro da água.
Entro no mar. Mal sei nadar. De repente, percebo que já não
da pé. É quando se inicia a meditação. O meu ego sente que já não tem apoio. A
força da água que me envolve é maior que a minha capacidade de caminhar dentro
dela.
Quanto mais fundo penetro no mar, mais água me envolve.
Quanto mais mergulho, maior a profundidade alcançada. Em torno de mim, do lado
direito e do esquerdo, acima da cabeça e abaixo dos pés, tudo é oceano.
Eis a meditação. Porém, se uma idéia furtiva ou uma
preocupação me atira na praia, não devo me inquietar. Basta retornar à água.
Pois é infinito o oceano da meditação.
A meditação dilata a nossa capacidade de abrir-se ao amor de
Deus e amar o próximo. E nos induz a não dar importância ao que não tem
importância, livrando-nos de sofrimentos inúteis.
Frei Betto, escritor e assessor de movimentos sociais, em Adital

Comentários
Enviar um comentário