NÃO TENHAIS MEDO





 José Eduardo Borges de Pinho
Apresentação do tema do ano pastoral 2012-2013 do Santuário de Fátima «Não tenhais medo»


A exortação a não temer, a não ter medo, está presente desde o início dos acontecimentos de Fátima. Na primavera de 1916, na primeira aparição do Anjo aos pastorinhos, este diz-lhes: “Não temais! Sou o Anjo da Paz”. Na primeira aparição, em maio de 1917, Nossa Senhora começa por tranquilizá-los, dizendo: “Não tenhais medo”.
Na aparição de junho, à pergunta de Lúcia se ficará sozinha, após a morte da Jacinta e do Francisco, este “não temer” vem traduzido numa exortação à esperança: “Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”.

1. Não tenhais medo – Deus vem ao nosso encontro e está connosco

“Não tenhais medo” são palavras que soam hoje com enorme atualidade, desafiados como estamos por um mundo marcado, a vários níveis, por dificuldades e incertezas quanto ao futuro, por pequenos e grandes “medos” que atravessam o nosso quotidiano e os nossos projetos de vida, pessoais e comunitários. Uma atualidade que se desperta também pela memória ainda viva de uma figura do nosso tempo, o Beato João Paulo II, que pronunciou palavras idênticas no início do seu ministério como Bispo de Roma, ao serviço da comunhão das Igrejas: “Não tenhais medo. Abri, melhor, escancarai as portas do vosso coração a Cristo!”.

Na realidade, esta exortação, este apelo a “não temer” só se entende a partir das raízes mais profundas da experiência crente1. Estamos, de facto, diante de um tópico com inúmeras ressonâncias bíblicas no percurso da história da salvação. Logo nos inícios do Antigo Testamento em relação a Abraão (Gn 15, 1), e com notória regularidade depois, a expressão “não temas” aparece como palavra de um Deus que se aproxima dos seres humanos, que os acompanha com a sua proteção e a sua ajuda na missão que lhes confia, que não os abandona nas múltiplas perturbações que envolvem o seu caminhar na história (cf. Is 41,13-20). Exprime-se assim a confiança fundamental que o crente é chamado a ter no Deus que toma a iniciativa de vir ao seu encontro, sinaliza-se o dom da salvação que Deus, na sua dedicação amorosa, quer oferecer aos seres humanos.
Nessa mesma linha “teofânica” – de manifestação dos sinais da presença de Deus e dos caminhos do seu plano salvífico – a exortação a “não temer” irrompe nas primeiras páginas do Novo Testamento, precisamente em relação com o anúncio do acontecimento radicalmente novo da presença de Deus na história e na carne humanas em Jesus de Nazaré. No Evangelho de Mateus essa palavra aparece na boca do anjo do Senhor (indicativo e mediação da intervenção de Deus na nossa história), que convida José à ousadia crente de se deixar conduzir pelos sinais de Deus e sua transcendência, assumindo a missão que lhe é confiada: “não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo” (Mt 1, 20). Em Lucas, o anjo Gabriel, portador do anúncio da intervenção salvífica de Deus, depois de saudar Maria como “cheia de graça” (uma expressão singular na sua densidade!), diz-lhe: “Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus” (Lc 1, 30). O convite a não temer e a confiar totalmente em Deus é aqui indicativo de que a única garantia reside no insondável, poderoso e misericordioso Amor de Deus, como Maria reconhece e canta no Magnificat (cf. Lc 1, 46-56).
“Não temais”/“Não tenhais medo” exprime, então e basicamente, o anúncio e o reconhecimento da presença atuante de Deus e seu amor salvífico no nosso mundo, como raiz de uma confiança sólida e motivo de uma fundada esperança. Nessa confiança cheia de esperança gera-se serenidade e alegria (como acontece no anúncio aos pastores, em Lc 2, 10 – “Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria”), aviva-se a consciência de que o Senhor acompanha e fortalece aqueles a quem chama a uma missão (cf. chamamento a Simão, Lc 5, 10), sedimenta-se a certeza de uma presença continuada e viva do Senhor Ressuscitado ao longo dos tempos (como no anúncio aos discípulos após a ressurreição (cf. Mt 28, 5.10.20).

2. O Deus da Promessa e da Esperança

À pergunta sobre quem é o Deus em que acreditamos, a experiência cristã, enraizada na história de Israel e centrada na vida, morte e ressurreição de Jesus, encontra na linguagem da “promessa” e da “esperança” uma resposta necessária (entre outras, também indispensáveis) para falar do Mistério a que se reporta a adesão crente: Deus é o “Deus da Promessa”, que nos cria para que tenhamos uma vida digna e feliz; é o “Deus da Esperança”, que, mesmo nas situações de infidelidade e pecado nossos, nos aponta horizontes de vida renovada e salva; é o “Deus da fidelidade indefetível”, em quem podemos confiar nos bons e nos maus momentos, na vida como na morte. No princípio, ao longo e no fim da nossa vida está o Mistério de Deus e seu Amor para connosco. Para o cristão, que encontrou este rosto amoroso de Deus em Jesus Cristo, a fé em Deus – que reconhece, acolhe e confessa como Amor Criador, Amor Salvador e Amor Santificador – aparece como uma proposta de sentido para um caminho de vida iluminado por uma grande esperança. Mesmo perante os limites, de vária ordem, que todos sentimos, há um ponto firme, inabalável: a certeza de que Deus continua a acompanhar-nos no nosso caminhar na história.
Não se trata aqui, nesta grande esperança – que nos permite não temer e superar o medo, ter coragem e não desanimar, continuar a esperar, mesmo quando muita coisa parece apontar em sentido contrário –, de uma qualquer atitude de espírito voluntarista, de uma espécie de otimismo construído sobre as nossas forças e expectativas. Trata-se da descoberta e do aprofundamento daquilo que constitui a experiência nuclear crente: a fé é acolhimento de um dom que não se conquista mas se recebe, é resposta que se sabe suportada pela iniciativa gratuita de Deus, é “ação que é recebida” (Hans Urs von Balthasar). Desde os seus primórdios, tipificados na história paradigmática, representativa, de Abraão (cf. Rm 4, 11 – “pai de todos os crentes”; Gl 3, 6-18; Heb 11, 8-10), a atitude crente entende-se como resposta à iniciativa salvadora de Deus, iniciativa que se apresenta como dom e promessa de um futuro novo a viver2.

Nessa resposta – numa história de vida inteiramente sob a promessa de Deus e totalmente também sob a responsabilidade humana – o crente é convidado a viver os acontecimentos e a ler as interpelações neles contidas como caminho de descoberta do sentido da sua fé e da estrutura de esperança que a anima. Na sua radicalidade existencial mais profunda, a fé é um apoiar-se plenamente em Deus, na sua Palavra e na sua Promessa, pondo n.Ele o fundamento da sua existência e relativizando todas as seguranças humanas; é um pôr-se a caminho face à chamada de Deus, na consciência dos riscos inerentes a algo desconhecido a percorrer, a experimentar e a viver; é, ao mesmo tempo, a experiência de uma certeza interior, fundada em Deus e no seu compromisso de Amor, de que essa Promessa se cumprirá, mesmo quando humanamente não se vê como é que isso pode acontecer (cf. Rm 4, 18-20); é um viver o presente com os olhos postos no futuro como o lugar/tempo em que Deus se manifestará, na verdade do seu poder e da sua força, como realização definitiva das nossas esperanças mais profundas e consistentes.

3. Uma esperança aberta às possibilidades sempre novas de Deus

Fé e esperança, embora distintas, não se separam (como ambas não são separáveis do amor que as traduz na vida e como vida), antes são dimensões da mesma e fundamental atitude crente como adesão da pessoa ao Mistério de Deus que suporta a nossa existência, se apresenta como futuro do nosso futuro, dá luz e sentido englobante à história humana. A existência cristã condensa-se na fé (como entrega confiante ao Deus que nos justifica em Jesus Cristo), na esperança (como antecipação da salvação futura e definitiva), no amor (como novo modo de viver na força do Espírito e guiado interiormente pela sua lei)3.
Olhando de forma particular para a existência dos crentes como um peregrinar na fé, a Carta aos Hebreus acentua precisamente a estrutura de esperança que a caracteriza, realçando o vínculo indissolúvel que existe entre fé e esperança (cf. Heb 3, 6; 4, 14-16). Pela esperança torna-se já presente o que ainda não existe: a fé é “garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se veem” (Heb 11, 1). De facto, é na esperança que fomos salvos (Rm 8, 24), isto é: “A „redenção., a salvação, segundo a fé cristã, não é um simples dado de facto. A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho”4.
Acolhendo o dom da salvação a partir de uma esperança fidedigna, o crente dispõe-se a percorrer os caminhos da vida na escuta do que o Senhor lhe vai propondo. A esperança cristã reconhece não só que os caminhos de Deus não são exatamente os nossos caminhos (os caminhos das nossas ideias, dos nossos planos, das nossas possibilidades), mas também confia no poder de Deus que é capaz de transformar “corações de pedra” em “corações de carne” (Ez 36, 26-28), dar novos e inesperados rumos à história que vamos procurando construir. Sabe sobretudo – como se revela na ressurreição de Jesus – que Deus é Amor capaz de ultrapassar limites e barreiras humanos, é poder vivificante que transforma homens e mulheres medrosos em suas testemunhas, é verdadeira e definitivamente Senhor da vida e vencedor sobre a morte.
Essa experiência fá-la Maria, que descobre precisamente na sua chamada vocacional única as possibilidades do agir amoroso de Deus, não dedutíveis a partir de cálculos e planos humanos. Maria, figura da fé e da esperança, acreditou confiando em Deus para além de todas as aparências, pretensões e razoabilibidades humanas. E foi pelo caminho, certamente também obscuro e doloroso, desse acreditar nas possibilidades não controláveis nem previsíveis de Deus que Maria foi acolhendo no seu coração os acontecimentos da vida de Jesus e suas palavras, foi amadurecendo na sua atitude de fé pela esperança no Deus de Israel como Aquele que é capaz de fazer maravilhas. O fiat de Maria não é uma conclusão racional de uma série de acontecimentos, mas abertura ao Deus que, à luz de uma história de salvação, merece total confiança, por mais que o caminho a percorrer traga consigo interpelações, questionamentos, dúvidas, sofrimentos.

4. Uma grande esperança, fundada no Amor insondável de Deus

Olhando para a história de Maria e percebendo nela o que a radicalização da graça de Deus na força do seu Espírito pode fazer, o crente de qualquer tempo e lugar acolhe o amor insondável de Deus como poder criador e renovador, como dom, surpresa e novidade que irrompe nas circunstâncias da história. O cristão sabe que ao poder amoroso de Deus é possível o que aos homens, pelas suas próprias forças, não é possível (Lc 1, 37; 18, 27; Gn 18, 14). Sem imaginar o Mistério de Deus como uma realidade funcionável segundo os nossos interesses, medidas e critérios, sem pretender fazer de Deus um deus ex machina que resolvesse imediata e diretamente os nossos pequenos ou grandes problemas, o cristão sabe que pode e deve confiar no amor poderoso de Deus que, por caminhos que só Ele conhece, pela ação do seu Espírito (o Espírito de Jesus e do Pai) toca o coração das pessoas, está presente nos acontecimentos da história, é capaz, inúmeras vezes, de “escrever direito pelas linhas tortas” que os humanos traçaram e continuam a escrever.
No nosso caminhar humano e crente precisamos de esperanças que nos ajudem a vencer as dificuldades e dúvidas que surgem no nosso viver, a dar sentido aos acontecimentos que acompanham esse caminho. São esperanças não só legítimas como indispensáveis para enfrentarmos as múltiplas tarefas e interpelações quotidianas. “Mas, sem a grande esperança que deve superar tudo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperança. Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto”5. Só é possível ter um horizonte de verdadeira e consistente esperança se nos soubermos e sentirmos definitivamente amados, se estivermos certos de que um Amor definitivo e incondicionado suporta o nosso viver. Em última instância, essa grande esperança só é possível na certeza da fidelidade de Deus, que nos possibilita viver no presente provisório algo que tem a marca do definitivo.

5. Uma esperança “crucificada”, atravessada pelas opacidades do mundo

Em todos os tempos, mas não menos nas circunstâncias atuais, é pedido aos cristãos um reavivar das razões da sua esperança no meio das dificuldades e contradições do seu viver no mundo. Ameaçados pelo risco de uma vida sem sentido, inquietos no seu coração por um vazio que nada (nem o dinheiro nem a tecnologia!) consegue encher, atormentados pelas incógnitas dos caminhos do futuro, atingidos por situações dramáticas que afetam as bases elementares de uma vida digna e põem a nu a desumanidade do nosso mundo, muitos homens e mulheres, nas mais diversas partes do mundo, perguntam-se pelas razões de viver, pelo que verdadeiramente vale a pena, pelo que pode dar algum sentido ao quotidiano marcado por negatividades, sofrimentos, ausência de esperança. Nestas circunstâncias – temos de nos perguntar – de que modo é possível, para o cristão, continuar a afirmar que a sua vida assenta numa grande esperança, que, apesar de tudo, há razões para esperar?
Perante a crueza das experiências da história (como foi possível viver a esperança nos campos de concentração?) e perante a opacidade densa de tantos acontecimentos do presente (como é possível que seres criados por Deus sejam capazes, aqui e acolá, de tamanhas desumanidades?), o cristão não se satisfaz com respostas demasiado rápidas (em última análise, inconsistentes!), antes pergunta-se pelos caminhos através dos quais é possível dar sinais de Deus, mesmo que Ele pareça ausente de tanta coisa que é notícia diária ou determina as grandes opções neste nosso mundo: “Quase parece – escreveu mesmo Bento XVI – que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia”6.
Antes de mais, o cristão sabe que a esperança cristã, enraizada na história de Jesus, é uma “esperança crucificada”, vivida em solidariedade com os outros homens e mulheres. Isto é: não é uma esperança que se afirme “vitoriosa” em todas e quaisquer circunstâncias e por quaisquer meios; é uma esperança que passa pelo caminho da cruz nas suas mais diversas formas (hoje de novo, em muitos casos, até pelo martírio!); é uma esperança que se sabe contraditada por outras experiências e leituras que, do ponto de vista meramente humano, podem parecer até mais lógicas ou razoáveis; é uma esperança não imune a dúvidas e perplexidades que os acontecimentos da vida vão provocando e para as quais não há resposta feita. Em última instância, no seu caminhar na fé como esperança a confirmar, o cristão é confrontado – como Maria o foi ao longo do seu viver – com situações de incerteza, de sofrimento, até de “silêncio” de Deus.
Se a grande esperança que os anima não os ilude quanto ao sentido e à certeza do horizonte final que esperam, se o futuro é certo como realidade positiva porque suportada pelo amor de Deus em que creem, os cristãos sofrem como os outros seres humanos as incertezas e vicissitudes da vida, não conhecem em detalhe o que os espera. Nessas situações o crente é chamado a “esperar contra toda a esperança” (cf. Rm 4, 18-24, Gn 12; 15; 17; 22), o que por vezes pode passar pela experiência de simplesmente reconhecer que não há, para si, alternativa humana mais válida do que o perseverar na fé (“A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!”, Jo 6, 68).
Tudo isto indica que na vivência da fé não há motivo para qualquer atitude “elitista”, “autoconvencida” da parte do crente. A certeza da fé experimenta-se através das próprias interrogações acolhidas e partilhadas, mas é traduzida igualmente como capacidade de propor e ajudar a realizar coisas novas, que assim emergem como sinais suscitadores de esperança. É a grande esperança apoiada na realidade de Deus e suas promessas que, em última instância, nos encoraja e orienta no nosso agir. “É importante saber: eu posso sempre continuar a esperar, ainda que pela minha vida ou pelo momento histórico que estou a viver aparentemente não tenha mais qualquer motivo para esperar. Só a grande esperança-certeza de que, não obstante todos os fracassos, a minha vida pessoal e a história no seu conjunto estão conservadas no poder indestrutível do Amor e, graças a isso e por isso, possuem sentido e importância, só uma tal esperança pode, naquele caso, dar ainda a coragem de agir e de continuar”7.

6. Dar sempre de novo razões da nossa esperança

É precisamente através do modo diferente como enfrentam esses caminhos da vida, marcados também por perplexidades e momentos de escuridão, que os cristãos podem dar razões autênticas da esperança que os anima. Fazem-no, por exemplo, pela abertura aos sinais de Deus a que procuram ser fiéis no seu modo simples de viver; pelo acolhimento silencioso de quem sofre, no corpo ou no espírito; pela generosidade no ir ao encontro do outro nas suas necessidades, ajudando a que não desespere; pelas propostas de mudança de vida que podem interpelar outros homens e mulheres; pela própria experiência do sofrimento, nas suas múltiplas formas, vivida como crescimento no dom de si e na sinalização de uma luz possível no meio da noite escura. Fazem-no, de modo particular e decisivamente, pela capacidade e coragem de combater ativamente o mal presente no mundo sob múltiplas formas, abrindo caminhos e dando passos concretos para que este mundo se torne cada vez mais mais humano, aberto a ser espaço de uma verdadeira convivência fraterna.
Nos tempos que vivemos, dar razões da esperança cristã pede, de modo particular, uma atitude pessoal e uma capacidade de ajudar os outros no sentido de um olhar diferente sobre a realidade, um olhar sem otimismos fáceis, mas também sem pessimismos destruidores, antes atravessado por uma esperança realista, ativa, interpeladora. Convictos de que a esperança cristã é sempre esperança com outros e para outros, pede-se aos cristãos que sejam testemunhas da esperança a partir desse novo olhar e da leitura da realidade que a fé possibilita. “A complexidade e gravidade da situação económica atual – escreveu Bento XVI – preocupa-nos, com toda a justiça, mas devemos assumir com realismo, confiança e esperança as novas responsabilidades a que nos chama o cenário de um mundo que tem necessidade duma renovação cultural profunda e da redescoberta de valores fundamentais para construir sobre eles um futuro melhor. A crise obriga-nos a projetar de novo o nosso caminho, a impormo-nos regras novas e encontrar novas formas de empenhamento, a apostar em experiências positivas e rejeitar as negativas”8.
Desse modo, sob múltiplas formas concretas, os cristãos serão capazes de propor novos critérios e valores de vida, dando impulsos decisivos para a humanização deste mundo 9. A esperança cristã é, deve ser, um poderoso recurso ao serviço de uma verdadeira humanidade: ela “encoraja a razão e dá-lhe a força para orientar a vontade. Já está presente na fé, pela qual aliás é suscitada. Dela se nutre a caridade na verdade e, ao mesmo tempo, manifesta-a”10.

7. “Mostrai-nos o vosso rosto” – A necessidade de aprender a esperar

Para o crente, consciente de que a sua fé é interpelada de muitos modos, viver a fé e crescer na confiança e esperança amadurecidas que ela supõe é também ousar pedir a Deus que, no meio das dificuldades e opacidades deste mundo, nos mostre o seu rosto, nos dê a capacidade de saber ler e acolher os sinais que Ele nos vai dando, por mais discretos e escondidos que eles possam ser. O “silêncio de Deus” – nas contradições e sofrimentos da vida, nas interpelações que o mal em nós e fora de nós traz, na incapacidade de transformarmos um mundo estruturalmente injusto – coloca-nos perante o desafio de, sabendo que Deus não abandona este mundo e permanece fiel até ao fim, aprender a esperar, num caminho de crescimento na maturidade da fé.
Neste caminho de aprendizagem da esperança, de crescimento na experiência de que a nossa esperança está verdadeiramente no Senhor, a oração ocupa um “lugar” nevrálgico, ela é vivência existencial do que significa esperar, tornando-nos mais capazes de perceber a presença de Deus na sua aparente ausência. Lembrando o falecido Cardeal Nguyen Van Thuan, que esteve 13 anos na prisão, e o seu livro “Orações de esperança”, Bento XVI aponta precisamente a oração como lugar “primeiro e essencial de aprendizagem da esperança”: “Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar mais ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me. Se me encontro confinado numa extrema solidão... o orante jamais está totalmente só”11.
Neste caminho de aprendizagem da esperança, concretizado na oração e comprovado no conjunto da vida, é decisiva a experiência de comunhão com outros crentes, percebida através dos sinais deixados por muitas testemunhas ao longo da história, vivida nas circunstâncias do tempo presente e intuída também para além das fronteiras da morte. Nas circunstâncias da nossa vida, ameaçada por fragilidades e riscos vários, atravessada pela experiência básica de não podermos dominar o futuro, receosos de que a injustiça e a morte tenham a última palavra sobre a existência humana, só é possível “não ter medo”, esperar verdadeiramente na vitória sobre o mal e a morte, enfrentar a vida com coragem e determinação, se o rosto do Deus se deixar mostrar e nós o soubermos ver nesses sinais deixados por outros crentes, sinais que testemunham o que significa e como vale a pena confiar no Deus de ontem, de hoje e de sempre, entregar o nosso coração Àquele que sustenta o nosso ser, viver e morrer.
Nessas figuras exemplares da esperança emerge Maria como “estrela da esperança”, ensinando-nos a ver como só a entrega confiante no Amor de Deus pode ajudar-nos a encontrar caminhos de realização pessoal, descobrir o sentido fundamental do nosso ser e da nossa história humana, reforçar a certeza de que é possível ir construindo um mundo novo de maior justiça, liberdade e paz, apesar dos limites das nossas forças e dos obstáculos enormes que se apresentam pelo caminho. “É a consciência do Amor indestrutível de Deus que nos sustenta no fadigoso e exaltante compromisso a favor da
justiça, do desenvolvimento dos povos, por entre êxitos e fracassos, na busca incessante de ordenamentos retos para as realidades humanas. O amor de Deus chama-nos a sair daquilo que é limitado e não definitivo, dá-nos coragem de agir continuando a procurar o bem de todos, ainda que não se realize imediatamente e aquilo que conseguimos atuar – nós e as autoridades políticas e os operadores económicos – seja sempre menos de quanto anelamos. Deus dá-nos a força de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele é o nosso Tudo, a nossa esperança maior”12.

NOTAS:
1 Cf. J. NUNES, “„Não temais.. Apelo dos Evangelhos”, em Communio 19, 5 (2002) 389-393.
2 Cf. J. LOURENÇO, “Abraão e a esperança do povo judeu”, em Communio 13, 6 (1996) 510-516.
3 H. Urs VON BALTHASAR, “A unidade das virtudes teologais”, em Communio 1, 4 (1984) 309-318.
4 BENTO XVI, Encíclica Spe Salvi, n.º 1.
5 BENTO XVI, Encíclica Spe Salvi, n.º 31. Cf. ainda os n.os 26 e 27.
6 BENTO XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 2012 – “Educar os jovens para a justiça e a paz”, n.º 1.
7 BENTO XVI, Encíclica Spe Salvi, n.º 35.
8 BENTO XVI, Encíclica Caritas in Veritate, n.º 21.
9 Cf. BENTO XVI, Encíclica Caritas in Veritate, n.º 78.
10 BENTO XVI, Encíclica Caritas in Veritate, n.º 34.
11 BENTO XVI, Encíclica Spe Salvi, n.º 32.
12 BENTO XVI, Encíclica Caritas in Veritate, n.º 78.

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