Domingos Terra
“Que devo
fazer para ter a vida eterna?” é uma questão que se levanta, em princípio, no
íntimo dos crentes. Aponta para a procura dum bem que aparece designado com
vocabulário próprio de quem abraça a fé cristã: “vida eterna”. Mas talvez não
seja descabido pensar que a referida questão encontra paralelo na consciência
dos que não são crentes. Não admira que estes também tragam perguntas no seu
íntimo. É próprio do ser humano buscar aquilo que lhe parece valioso para a sua
realização, para o preenchimento do seu coração. Pode-se dizer, então, que
todos, crentes ou não crentes, buscam a realidade que para eles vale como ‘vida
eterna’. Não repugna aplicar esta expressão, ampliando o seu significado, a
tudo aquilo em que o ser humano acha que está a felicidade. Parece legítimo
considerar tal expressão como símbolo de tudo a que ele, independentemente das
suas ideias, por natureza anseia.
Na reflexão,
que vamos efectuar, começamos por visitar a passagem bíblica onde aparece a
questão acima enunciada. A seguir, consideramos a busca interrogante como
característica fundamental do ser humano. Depois, apresentamos modos de lidar
com o questionamento a respeito da existência que se notam nas nossas
sociedades contemporâneas. Num passo posterior, explicamos que a resposta
inteiramente capaz de aquietar este último não é conquista do ser humano, mas
lhe chega a partir de fora. Finalmente, alertamos os próprios crentes para a
maneira como concebem Deus, ao reconhecerem-no como o sentido da existência
humana.
A pergunta do
homem rico
Em Mc 10,
17-22, encontramos uma pessoa que se apresenta a Jesus perguntando-lhe: «que
devo fazer para ter a vida eterna?» A passagem bíblica não fornece pormenores
sobre as motivações que a levam a este comportamento. Em todo o caso,
percebe-se que existe dentro de si uma inquietação. Essa pessoa vive a tensão
salutar entre aquilo que já é e o que acha que deveria ser. Sente que pode
conseguir de Jesus uma resposta que acrescenta algo àquilo de que já dispõe.
Manifesta, pois, uma insatisfação interior. A passagem de Marcos não dá
informação sobre a idade que ela tem. O mesmo acontece com a que lhe é paralela
em Lucas (18, 18-23). Mas na que lhe é também paralela em Mateus (19, 16-22),
diz-se que se trata dum jovem rico. A ser assim, está-se na idade propícia a
alimentar os grandes ideais.
Na pergunta
feita a Jesus, declara-se que se quer conseguir a ‘vida eterna’. Esta expressão
é sinónima de ‘Reino de Deus’1. Designa a experiência da entrada neste último.
Coloca diante de nós aquilo que é precisamente o tema central da missão de
Jesus Cristo. De facto, o Reino de Deus consiste na união pessoal com este e na
consequente participação na comunidade dos discípulos. É um mistério que Jesus
revela àqueles que a integram; o mundo, por si mesmo, não o compreende. Ele
requer a livre submissão à soberania de Deus e dá a experimentar, no Espírito
Santo, a justiça, a paz e a alegria. O Reino de Deus não é só para vir no
futuro; é para viver já no presente. Não se trata dum reino como os deste
mundo. Não surge por conquista imperial, mas como desafio a cada pessoa.
Destaca-se dos valores meramente humanos e está em completa oposição aos
desejos pecaminosos. Implica, pois, uma revolução moral naqueles que a ele
aderem. Exige aquilo a que se chama conversão2.
A cena
apresentada nestas passagens bíblicas coloca diante de nós três níveis de
procura do preenchimento do coração humano. O primeiro é apropriar-se de
riqueza material. Vê-se claramente que esta não basta. Por alguma razão, o
homem rico sente necessidade de que a sua vida compreenda algo mais do que os
bens que já possui. Ele sai do universo da sua abundância material e vai ao
encontro de alguém que admira enquanto pregador duma mensagem. Dá a impressão
que esta tem no seu coração um eco que a riqueza de que dispõe não consegue
calar. O segundo nível consiste em cumprir uma série de leis cuja autoria se
atribui ao próprio Deus. Percebe-se, pelo que se lê nas referidas passagens,
que o respeito estrito dessas leis também não é suficiente para aceder à
verdadeira felicidade. O homem rico era exemplar neste aspecto. Sentia-se,
porventura, orgulhoso disso. Mas, ainda assim, respondeu a um ímpeto interior
que não lhe permitiu ficar em casa e o levou à presença de Jesus. Este acabou,
efectivamente, por lhe pedir mais. O terceiro nível de procura da felicidade,
apresentado nas três passagens bíblicas que se situam em paralelo, consiste no
acolhimento permanente das indicações que Jesus Cristo dá para a condução da
própria vida. Trata-se de seguir os seus passos, tomando-o como mestre.
Jesus pediu
ao homem rico que abandonasse tudo o que tinha andado a construir por sua
exclusiva iniciativa. Convidou-o a deixar certamente a sua estabilidade
material. Mas pediu-lhe que abdicasse também de qualquer plano arquitectado
apenas por si. Procurou fazer-lhe ver que este, mesmo que generoso, contribui
para um ‘eu’ satisfeito consigo próprio. Quis mostrar-lhe que ele acaba por se
revelar como uma busca de si mesmo. O homem rico foi, pois, desafiado a pôr
toda a sua segurança em Jesus Cristo. Por aqui se vê que o salto do segundo
para o terceiro nível de busca do preenchimento do coração é qualitativamente
diferente daquele que se dá do primeiro para o segundo. Neste último, o ‘eu’
não pára de controlar o andamento da vida pessoal. Continua a apostar-se
exclusivamente na própria capacidade de realização e conquista. No outro salto,
o ‘eu’ sai da sua actividade programadora. Entrega-se a Jesus Cristo e passa a
viver em função dele. Não admira que o homem rico, orgulhoso de ter dado o
salto do primeiro para o segundo nível, não tenha sido capaz de dar aquele que
o obrigava a passar do segundo para o terceiro. Conforme dizem as passagens
bíblicas que vimos referindo, ficou pesaroso com o convite de Jesus e
retirou-se. Já não ouviu a garantia que este último deu, logo a seguir, aos discípulos. Foi-lhes assegurado, de
facto, que quem deixa tudo por Jesus Cristo é salvo, experimenta a alegria e a felicidade
plenas, fica com o coração cheio.
O ser humano:
alguém que busca
É difícil
acreditar que possa haver alguém que não se veja confrontado, pelo menos em
certos momentos, com a questão do sentido da própria vida. Custa a crer que uma
pessoa viva sem aspirar a nada. Imagina-se que ela tenha algum ideal e adopte
certos valores que lhe permitam orientar-se na existência. É natural que esteja
habitada não só pelo desejo, mas também pela dúvida. Compreende-se, de facto,
que o ser humano traga interrogações no seu íntimo. Mesmo que ande adormecido
em relação a elas, surgem ocasiões em que dificilmente as pode ignorar.
Aparecem experiências fortes, muitas vezes portadoras de sofrimento, que o
obrigam a confrontar-se com elas. É possível viver como se não se tivesse
perguntas, enquanto tudo corre de feição. Mas não se está livre de algo
imprevisto ou não desejado que as faça saltar no espírito. A experiência da
vida mostra que não é preciso ser cristão para ter questões que ocupem o
coração, o inquietem, lhe exijam tempo de atenção e energias, o impelem a andar
para a frente ou deixem perturbado. Basta ouvir o seguinte testemunho duma
pessoa que declara não ter fé: «Estamos todos embarcados numa estranha
aventura. Nascidos sem o ter pedido, vivendo sem saber porquê, morrendo sem
receber uma desculpa, nós devemos todos suportar o mesmo percurso sem ter
direito à menor explicação. Muitos não se põem a questão. São provavelmente os
mais felizes. Outros têm respostas totalmente feitas, clarinhas, indiscutíveis,
que eles receberam ou então elaboraram; eles acreditam nelas e têm toda a razão
de se agarrar a isso. Enfim, há aqueles que não percebem nada, os inquietos, os
angustiados, aqueles que desde o começo se perguntam: porquê?, considerando
este mundo grotesco e grandioso, e não se satisfazem com nenhuma resposta. (…)
Pertencendo a este terceiro grupo, tenho inveja daqueles que não têm questões e
daqueles que não têm senão respostas, eu que tenho apenas questões sem
respostas»3.
Após
despertar para as interrogações que se possam trazer no próprio íntimo, é
preciso saber o que fazer com elas. Já dissemos que muitos vivem sem perceber
que as têm ou evitam confrontar-se com elas, até que um dia se vejam obrigados
a isso. Mas acontece também que muitos dos que despertam para as próprias
interrogações não sabem como lidar depois com elas. São capazes de as ver como
um perigo, ao intuírem que podem pôr em causa a forma como têm equacionado a
existência4. Sentem que elas obrigam a repensar o modo como esta vem sendo perspectivada
e conduzida. Percebem que colocam a vida numa encruzilhada, não permitindo que
ela avance em linha recta, de forma automática, com base no que já se aprendeu
antes. Trata-se de interrogações que obrigam a adquirir uma nova compreensão da
existência e a aceitar que não há saber a respeito desta que esteja adquirido
duma vez por todas.
Desmontam
ideias feitas, mais ou menos cristalizadas no espírito humano. Despertam para a
necessidade de viver em atitude de permanente aprendizagem. Reacções contemporâneas
às questões da vida Parecem destacar-se no ser humano actual dois modos de
reagir ao confronto com as grandes questões da vida. Um consiste em limitar
conscientemente os objectivos desta última. Baixa-se o nível das expectativas
que se alimentam. Não diminui necessariamente a vontade de adquirir bens
materiais e fruir prazeres, mas adopta-se uma visão da existência mais
restrita. Estreita-se o horizonte em função do qual esta última é compreendida.
Consegue-se, assim, um novo equilíbrio entre necessidades e satisfação. É um
cálculo em que se reduzem as primeiras para que haja maior garantia de alcançar
a segunda. Quanto menores forem essas necessidades, maior
é a
possibilidade de as satisfazer. O ser humano instala-se, pois, numa segurança
que não exige preocupações de grande amplitude. Procura livrar-se do trabalho
de discutir as questões candentes da existência e de discernir continuamente o
rumo que deve dar a esta.
Torna-se,
porventura, insensível às dimensões da profundidade, da ultimidade, do sentido
e da totalidade da vida. É capaz de cair no desinteresse por qualquer tipo de
significação desta última5. Outro modo de reagir às grandes questões da vida
consiste na adesão a novos fenómenos de aparência religiosa que se oferecem
actualmente como propostas de felicidade. Um é a New Age; outro são as seitas.
O primeiro apresenta-se como uma realidade multifacetada, abarcando as chamadas
paraciências: por exemplo, a astrologia, que procura prever o que vai acontecer
lendo a conjugação dos astros; a parapsicologia, que estuda fenómenos psíquicos
de aparência sobrenatural como é o caso da telepatia ou da precognição; a
radiestesia, que procura detectar uma espécie de radiações cuja energia se
deseja aproveitar e à qual se quer ajustar o andamento da própria existência.
As paraciências pretendem entrar no terreno onde as ciências não chegam.
Procuram penetrar naquilo que estas deixam como desconhecido, com o objectivo
de o controlar.
No que diz
respeito às seitas, deve notar-se que funcionam como uma espécie de asilos
afectivos dirigidos por gurus. Dão uma sensação de segurança àqueles que a elas
aderem, ao proporem-se como solução fácil para as inquietações do coração
humano6. Estes novos fenómenos de aparência religiosa – New Age e seitas –
florescem numa sociedade em que o indivíduo se sente demasiado entregue a si
mesmo. Vê-se desprovido dos apoios tradicionais que lhe davam um sentido de
pertença, enquadramento para a sua identidade e amparo social. É claro que o
ser humano de outrora também trazia consigo grandes questões. Mas a
responsabilidade de lhes dar resposta era distribuída entre ele próprio e a
sociedade circundante. Ele tinha que fazer a sua busca. Mas a sociedade
mostrava-lhe como é que certos aspectos da vida deviam ser encarados. Com o
enfraquecimento das grandes tradições que se afirmavam no conjunto social, o
indivíduo ficou demasiado remetido para si mesmo7. Quis a liberdade sem limites
e agora paga o preço da falta de ajudas externas para a construção da própria
identidade. É ele que tem de procurar o que importa para a sua existência. Tornou-se senhor de si e, como tal, um centro
de decisão. Dar unidade à própria existência passou a ser tarefa inteiramente
sua.
No entanto,
ele experimenta dificuldades para a conseguir. Sente-se, muitas vezes,
fragmentado. É uma situação que talvez se aguente durante algum tempo,
aceitando as circunstâncias da vida. Mas não se suporta num período demasiado
longo e, muito menos, durante a vida inteira. Anseiam-se respostas para as
grandes questões da existência, porque é com elas que se consegue um sentido de
unidade para esta última.
Na adesão à
New Age ou às seitas, dá a impressão que se procura ordenar a própria vida
segundo uma referência que lhe dê sentido e, desse modo, a liberte do acaso
insuportável e duma solidão ridícula. O indivíduo deseja conseguir a unidade da
sua vida, inscrevendo-a em séries causais que lhe dêem não só enquadramento mas
também explicação. Daí que possa simpatizar, por exemplo, com a ideia da
reincarnação, defendida na New Age. Fica a saber donde vem e para onde vai.
Acaba por descobrir quem é e o que se espera dele. Não admira que tal indivíduo
se possa confiar também ao guru duma seita, vendo-o como verdadeiro editor de
sentido por causa das directivas claras que fornece. Ele sente que lhe é dito o
que precisa de saber para a compreensão e condução da própria existência8.
A adesão à
New Age ou às seitas parece resultar do desejo de resgatar a existência da
banalidade e da nudez que dão a impressão de a atrofiar. No recurso às paraciências,
próprio da New Age, é evidente que se quer introduzir a existência numa ordem
de coisas em que ela sente que ganha uma profundidade e uma riqueza que não
conhecia antes. Procura-se fazer entrar o profano num universo sacralizado.
Deseja-se designadamente pôr a vida sob a dependência ou a protecção duma
entidade que se considera como sagrada.
Esta é
percebida como um conjunto de forças difíceis de identificar e designar, mas
dotadas duma intencionalidade que interessa decifrar. Deseja-se abordar esta
última com o intuito de tornar a sua força secreta dócil ao que se procura. Não
admira que o apoio encontrado nesse tal sagrado dê a sensação de que a vida
consegue o calor que tanto procurava. Não espanta também que o indivíduo, a
partir daí, sinta que já sabe a que se agarrar, independentemente de ser para
bem ou para mal9.
Pode-se
perguntar se a redução voluntária dos objectivos da vida, acima referida, ou a
adesão aos novos fenómenos de aparência religiosa (New Age e seitas) são vias
verdadeiramente capazes de responder ao questionamento humano. É sabido que
muita gente que as escolhe acredita ter encontrado o que procurava. Não hesita
em manifestar a sua satisfação. Mas, ainda assim, convém averiguar se esses
caminhos se revelam suficientemente robustos para se manterem como resposta,
quando a vida apresenta obstáculo, sofrimento, contradição ou obscuridade. Não
se deve confundir a excitação do momento, em que se decide enveredar por
determinado caminho, com a permanência confiante e paciente no percurso que se
lhe segue.
A primeira
não garante, só por si, a segunda. Nesta é que está a prova real do acerto da
escolha de vida que foi feita. Convém dizer, a este propósito, que o ser humano
se engana hoje, muitas vezes, na linguagem com que equaciona a existência.
Perante os problemas que esta coloca, quer encontrar soluções imediatas. Mas a
palavra ‘solução’ pode mostrar-se traiçoeira ao ser usada neste âmbito. A
existência humana não funciona como a física ou a química. O que ela nos
apresenta como interrogação pode necessitar doutro tipo de abordagem. Não se
compadece com o espírito conquistador
que se
habituou a resolver tudo por meio de fórmulas.
A resposta:
não conquista, mas dom
Convém que o
ser humano lide de forma honesta com as grandes questões que lhe saltam no
espírito sobre a própria existência. É normal que desencadeiem uma procura de
resposta. Mas interessa saber se esta consegue aquietá-las. O ser humano vê-se,
muitas vezes, como lugar de questionamento imparável. Uma procura de resposta acaba
por conduzir ao levantamento de nova pergunta. Às tantas, pode-se querer saber
para onde conduz este processo em cadeia. A honestidade intelectual obriga a
perguntar onde é que ele termina. Trata-se de descobrir o que é que oferece
satisfação plena ao tal questionamento que tem dificuldade em parar. Pode-se
eventualmente duvidar que o ser humano consiga oferecer a si próprio a resposta
cabal às grandes questões que o habitam. É legítimo perguntar se esta não terá
que lhe chegar de fora.
Ao ir
verificando que não há resposta produzida por via humana que acabe de vez com o
questionamento da existência, importa saber se existe efectivamente alguma que
consiga isso. Interessa averiguar se se está disponível para a procurar num
terreno que se situe para além daquilo que as próprias forças atingem. É
perante esta incapacidade de o ser humano construir por si mesmo a resposta
cabal para o seu questionamento que a fé cristã tem uma palavra a dizer. Não
precisa de falar com arrogância nem presunção. Espera-se apenas que partilhe
aquilo que sabe por experiência. Nada deve impor. Pede-se-lhe simplesmente que
dê a conhecer o modo como ela mesma encontra a resposta capaz para o dito
questionamento. A fé cristã defende que o ser humano não deve cansar-se de
formular a questão de fundo a respeito da própria existência. É natural que
essa questão seja levantada de modo diferenciado. Não admira que se esboce de
acordo com as circunstâncias que se vivem. Ela vai saltando no espírito sempre
de forma situada. A fé cristã sugere que a persistência da questão a respeito
do ser humano pode atingir um ponto que se mostre propício ao aparecimento da
questão de Deus. Está convencida de que esta é de tal ordem que se torna mais
do que uma simples questão. Acredita que ela, pela sua própria natureza,
constitui a verdadeira resposta ao imparável questionamento humano10.
Não é difícil
prever que este modo radical de questionar a respeito da existência humana
comece, a certo ponto, a produzir silêncios. Falta a capacidade para
compreender o que se tem à frente. Também não se dispõe de vocabulário para
exprimir o que se quer. Percebe-se que se entra num terreno de mistério.
Descobre-se que a existência humana escapa a uma compreensão feita de conceitos
e até de imagens. Vê-se que não se deixa abarcar totalmente por esta. Intui-se
que, afinal, a própria existência é mistério. Muitas experiências
atravessam-nos sem as pedirmos ou por elas lutarmos. Umas comportam sofrimento,
outras são de tonalidade agradável. Ora, é preciso saber o que fazer com as
afirmações trabalhosas, as frases inacabadas, as hesitações de verbalização e
até os silêncios, que podem surgir no esforço de compreensão da própria
existência.
A fé cristã
entende que se deve lançar tudo isto no mistério incompreensível de Deus. Está
convencida de que o confronto com a condição misteriosa da existência humana
acaba por ser uma forma de iniciação ao mistério do próprio Deus. Acredita que
naquele se faz já a experiência deste último11.
Pode haver
aqui, no entanto, um engano na percepção da realidade de Deus. Diz-se, muitas
vezes, que Deus começa onde as forças humanas acabam. Inclui-se nestas
obviamente a capacidade de compreensão e de expressão daquilo que se vive.
Estamos habituados a lutar com o nosso espírito conquistador. Só quando não
podemos mais, é que introduzimos Deus no quadro da nossa existência. Ora, a fé
cristã proclama que Deus não começa apenas onde o ser humano acaba. Reconhece
que ele impregna a nossa existência desde o primeiro momento. O mistério da
incompreensibilidade de Deus constitui a atmosfera dentro da qual se desenvolve
essa existência. Não admira, pois, que ela seja também, em grande parte,
incompreensível. Isto leva a pensar que o ser humano só se encontrará
verdadeiramente a si mesmo se estiver disposto a perder-se na absoluta
incompreensibilidade de Deus12.
Fica, assim,
estabelecida uma ponte entre a questão do ser humano e a questão de Deus. A
primeira abre-se à segunda, ao mesmo tempo que esta tem aquela em consideração.
Convém estar atento à experiência que se pode fazer eventualmente da relação
entre ambas. O modo como a fé cristã dialoga com a existência, vista no plano
terreno, tem a ver com isso. De facto, é importante que a proclamação cristã se
mostre pertinente à pessoa que anda preocupada com a compreensão da própria
existência. Convém que ela saiba falar a quem se debate com as grandes questões
a respeito desta última. É uma exigência que merece especial cuidado nos dias
de hoje. Estamos num tempo em que a fé cristã enfrenta o problema da própria
credibilidade. A proclamação cristã deve apresentar-se de modo a não parecer
estranha à existência humana. Precisa de mostrar que vem a propósito desta
última. Por outro lado, o questionamento a respeito da existência, de que aqui
se fala, não tem que ser considerado como uma atitude exterior ao cristianismo
enquanto tal. Deve dizer-se que o confronto honesto com as grandes questões da
vida corresponde já a uma exigência deste último.
Significa que
se lida com a vida de acordo com a estrutura que ela efectivamente tem. A fé
cristã apela a este acto de honestidade intelectual no que se refere à
existência humana13.
Que Deus é
verdadeiramente a resposta?
Do ponto de
vista crente, o questionamento a respeito da existência não pode alhear-se da
ideia de que esta é impregnada pelo mistério incompreensível de Deus. Mas
muitos dos que professam a fé neste último correm o risco de esquecer essa
incompreensibilidade. De facto, parece ter-se esquecido bastante que Deus,
dotado da condição aqui apresentada, é precisamente a resposta última à questão
radical do sentido da existência. Requer-se, assim, uma conversão. Em vez de
fazer de Deus uma peça do puzzle segundo o qual julgamos que a nossa vida
funciona, tem que se estabelecer com ele uma relação em que se está consciente
do seu carácter radicalmente incompreensível. Com efeito, quem não conhece
verdadeiramente Deus, tende a trazê-lo para dentro da sua actividade
calculadora. Facilmente o considera como aquele elemento que ilumina tudo o que
é a sua própria ‘contabilidade’: ideias, desejos, planos e esforços.
Enaltece-se Deus como a entidade que dá significado ao conjunto da nossa
existência. Mas esquece-se que ele está a ser concebido à nossa medida.
Encara-se Deus como alguém que, em última análise, resolve todos os nossos
dilemas. Acha-se que é nele integrável tudo o que são os nossos sucessos,
prazeres ou construções mentais. Entende-se que ele faz com que tudo encaixe no
puzzle da nossa vida: fornece luz, faz ligações, oferece ordem, resolve
desacordos. Deus aparece, para quem não o conhece verdadeiramente, como a
fortaleza que abarca tudo numa abençoada e pura unidade. Resguarda-nos de tudo
o que se mostra difícil de conciliar na nossa vida. Funciona como aquele ponto
que permite combinar todas as dissonâncias terríveis do mundo e da história
numa harmonia pura e cheia de sentido. Acaba por ser aquilo que está à nossa
disposição, pondo fim à nossa dor do vazio de sentido, à nossa dor da questão
que não encontra resposta14.
Ora, não se
deve rejeitar liminarmente este modo de conceber Deus. Pode-se entendê-lo como
a resposta cabal à questão infindável que o ser humano carrega consigo. Digamos
que, neste caso, o questionamento humano a respeito do sentido da vida consegue
chegar a um ponto culminante que satisfaz. Mas convém não esquecer que este
último nunca pode ser tomado como um dado adquirido. Pode não ser possível
alcançá-lo. Deus é que o garante, ao fazer-nos a dádiva de si mesmo. Só esta
responde radicalmente à questão do sentido da existência humana. Tem é que se
recordar, aqui, que o Deus que se comunica dessa forma gratuita é aquele que
permanece mistério incompreensível. O Deus da realização plena do sentido deve
ser proclamado como aquele que não pode ser encaixado nos nossos cálculos. Nada
impede que ele se recuse a ser usado como o elemento final da contabilidade
que, tantas vezes, tendemos a fazer na nossa vida15.
Com efeito, a
proclamação cristã deve sublinhar que a questão última do sentido só é colocada
correctamente quando não se alheia da lógica do amor. Só este é capaz de
permitir o distanciamento de si próprio. Só ele abre, então, a possibilidade de
vir a aceitar a experiência de Deus enquanto incompreensível. Daí que a questão
do sentido deva ser submetida a uma clarificação contínua. Tem de ser amadurecida
ao longo da vida, através do confronto com a incompreensibilidade de Deus que
frequentemente se nos impõe. Ao depararmo-nos com esta, temos duas
possibilidades. Ou a entendemos como a fonte donde nos vem, afinal, a
felicidade, ou a encaramos como prova do absurdo da nossa existência. No
primeiro caso, abrimo-nos ao sentido que vem de Deus incompreensível.
No segundo,
insistimos em construí-lo à nossa medida. De facto, reagir à condição
misteriosa da nossa existência implica
um acto de
liberdade. Não se podem separar, aqui, compreensão e decisão. É normal que nos
esforcemos por encontrar resposta para as grandes questões da existência. Mas
nunca conseguiremos compreendê-la totalmente. A sua dimensão misteriosa
permanece.
Chega-se,
então, a um ponto em que é preciso decidir, mesmo que não se compreenda tudo.
Assume-se que a nossa existência, mesmo com as suas contradições e
obscuridades, tem um sentido final. É uma opção que, tomada nestas condições,
tem que arrancar da nossa própria liberdade. Constitui uma verdadeira aposta16.
Mas este ‘sim’ à pergunta do sentido não costuma ter lugar, de forma
completamente lúcida, num momento isolado da nossa vida. Vamo-lo pronunciando
ao longo desta, fazendo a experiência de tudo o que nos aparece à frente. A opção
do ‘sim’ não se reduz à sua dimensão racional. Envolve a existência inteira até
ao momento da morte. À medida que esta vai avançando, vemos que contém sinais
tanto de sentido como de não-sentido. Mas vamos percebendo que os primeiros são
mais fortes do que os segundos. É a posteriori que se faz a prova do sentido da
vida. Vai-se vendo a fecundidade dos fundamentos em que este assenta. Vai-se
confirmando que, apesar das experiências dolorosas, a aposta no ‘sim’ à
pergunta do sentido produz frutos que valem a pena17. É claro que essas
experiências não desaparecem. Mas são postas num novo enquadramento que permite
alterar a forma de as olhar. Espera-se que, pouco a pouco, se vá aceitando a
presença dum Deus que, impregnando a existência humana, lhe confere a condição
de mistério. Trata-se dum Deus que, precisamente por ser incompreensível
naquilo que o torna maior do que nós, deve ser tido como a nossa verdadeira
bem-aventurança final18.
NOTAS:
1 Daniel J. HARRINGTON, «The
gospel according to Mark», in Raymond BROWN, Joseph FITZMYER, Roland MURPHY
(ed.), The New Jerome Biblical Commentary, Englewood Cliffs (NJ), Prentice
Hall, 1990, p. 618 (§ 64).
2 John L. MCKENZIE, «Kingdom
of God», in Dictionary of the Bible, New York, Macmillan Publishing Co. /
London, Collier Macmillan, Publishers, 1965, pp. 479-482. 3 Georges MINOIS,
Histoire de l’athéisme. Les incroyants dans le monde occidental des origines à
nos jours, Paris, Fayard, 1998, p. 16.
4 Luc PAREYDT, «Le temps de croire», in AA.VV.,
Croire aujourd’hui. Risque et plaisir, col. Cahiers pour croire aujourd’hui – Supplément, nº
12, Paris, Assas Éditions, 1994, p. 14.
5 Juan MARTÍN VELASCO, Increencia y
evangelización. Del diálogo al testimonio, col. Presencia teológica, 2.ª ed, Santander, Sal Terrae, 1988,
p. 45.
6 Paul VALADIER, La Iglesia en proceso.
Catolicismo y sociedad moderna, trad. Diorki,
col. Presencia teológica, Santander, Sal Terrae, 1990, pp. 80-82.
7
Ibidem, p. 82.
8
Ibidem, p. 83.
9 Ibidem, pp. 83-84.
10 Karl RAHNER, «The
theological dimension of the question about man», in Theological
Investigations, t. 17, New York, Crossroad, 1981, p. 60.
11
Ibidem, pp. 60-61.
12
Ibidem, p. 63.
13
Ibidem, p. 55.
14 Karl RAHNER, «The human
question of meaning in face of the absolute mystery of God», in Theological
Investigations, t. 18, New York, Crossroad, 1983, p. 93. nos Esforcemos por
encontrar resposta
15
Ibidem, pp. 93-94, 102.
16
Ibidem, p. 103.
17
Bernard SESBOÜÉ, Pensar e viver a fé no terceiro milénio. Convite aos homens e
mulheres do nosso tempo, trad. Manuel Luís de Sousa Pinheiro, Coimbra, Gráfica
de Coimbra, 2001, pp. 37-38.
18 RAHNER, «The human question
of meaning», p. 103.

Comentários
Enviar um comentário