“SEI EM QUEM COLOQUEI A MINHA CONFIANÇA”1




Juan Ambrósio

A confiança é certamente um dos traços característicos da atitude crente. Quem acredita não só confia naquele em quem acredita como acredita porque confia. De tal maneira esta atitude é central para o crente, que podemos ousar dizer que a confiança não é um ato que se soma ao ser, mas é antes uma forma de ser que se repercute em todas as dimensões constitutivas do ser humano, transformando o exercício da sua vida, de tal modo que a razão crente, mais do que explicar a realidade,se deixa iluminar por uma luz e a vontade, mais do que dominar, consente. E este reconhecimento, muito mais do que supor um submetimento a um princípio exterior, é a condição para que o ser humano realize plenamente a sua vocação2.

1. A vida e a pergunta pelo sentido

Uma das dinâmicas fundamentais da existência humana, quando vivida com seriedade e intensidade, assenta na experiência de interrogar. Na verdade, o ato de perguntar e a necessidade de perceber marcam sempre o nível mais fundo de toda a atividade humana. O ser humano põe sempre em questão toda a realidade circundante e foi isso que lhe permitiu, e continua a permitir, ir avançado no seu conhecimento e domínio do mundo. A cada pergunta procura uma resposta e a cada resposta alcançada coloca uma nova pergunta, e isto sempre num movimento que parece não ter fim, de tal modo que podemos afirmar que “o desnível entre o questionar inesgotável e toda a resposta concretamente alcançada é insuperável”3.
Este questionar, que se concretiza em muitas áreas e de muitas maneiras, não se limita simplesmente a determinados momentos ou situações do existir humano. Em última instância, nele podemos perceber a pergunta mais vasta, que se interroga pelo sentido global da existência e que, por isso, ainda que os contenha, não se reduz aos sentidos parcelares que cada um de nós procura para as ações que vai desenvolvendo.
É verdade que muitas vezes o pensar e o agir humanos parecem atomizados, de tal modo que o que faço ou penso nesta situação parece ter pouco que ver com o que digo e reflito numa outra. Se bem que isso possa, na realidade, suceder muitas vezes desta maneira, é igualmente verdade que a existência de um sentido global, no qual todos os outros se possam inserir, parece fundamental para que possamos fazer uma avaliação globalmente positiva (ou negativa) da nossa existência. Que cada ser humano procura concretizar sentidos parcelares para o seu agir e existir é uma evidência que, de todo, não anula nem se opõe à igualmente evidente e necessária procura de um sentido global, capaz de unificar e de dar consistência ao seu viver.
É, aliás, a existência deste sentido global que nos pode ajudar a perceber que o ser humano possa até mesmo considerar que a sua vida seja um fracasso, se para isso tiver que sacrificar aquelas realidades, nas quais acaba por fundamentar o sentido do seu viver. Pelas razões de viver, cada um de nós pode mesmo estar disposto a ‘dar’ a sua vida.
A pergunta pelo sentido (não só de determinados momentos e circunstâncias da vida, mas pela totalidade dessa mesma vida) reveste-se de traços que configuram uma inevitabilidade constitutiva da própria condição humana. Na verdade, o ser humano não só é e não se contenta com viver. Ele quer ser bem e aspira a uma vida boa. Ele tem necessidade absoluta deste ser bem e desta vida boa para que o seu viver possa ser experimentado como verdadeiramente humano, como algo que vale a pena e que tem sentido. É, mesmo, nesta pergunta pelo sentido que podemos encontrar a primeira expressão de que o ser humano não é um facto meramente natural, estando constitutivamente aberto a realidades e valores que podem conferir dignidade e dimensão humana à sua vida4.
A pergunta pelo sentido coloca-se, pois, num âmbito de totalidade. É toda a existência humana que é abrangida pelo sentido, é o ser humano todo que se sente interpelado e comprometido neste processo. Só neste contexto de totalidade, que abrange entendimento, vontade e ação, pode a existência deixar de ser um mero viver para passar a ser vida humana, a minha/nossa vida humana. Estamos, portanto, perante uma daquelas questões capazes de qualificar e tipificar o humano enquanto tal, devendo, por isso, ser considerada como critério determinante na distinção que podemos estabelecer entre este e os restantes animais5, ou, para dizer de outra maneira, a pergunta pelo sentido configura uma dimensão constitutiva do ser humano6.
Bastam estas pequenas referências para percebermos como na pergunta pelo sentido da vida reside umas das expressões mais peculiares do viver humano e uma das formas mais originais e características de que a vida se pode revestir para que possa, com propriedade, ser vivida como vida humana7.
Com isto não ignoramos que, apesar da atualidade desta questão8, o tempo e as situações em que vivemos têm, muitas vezes, dificultado e mesmo eclipsado esta pergunta fundamental pelo sentido. Isto deve-se não só a fatores tão conhecidos como a perda de credibilidade de certo tipo de mensagens religiosas, ao silêncio das grandes perguntas metafísicas, ao relativismo ético, à crise das grandes instituições, como a Igreja e a família, mas, também, ao facto de vivermos num mundo onde a realidade que nos rodeia nos parece desintegrada e desgarrada pelas mais diversas razões, das quais podemos destacar as políticas, as sociais e as económicas. Toda esta experiência é muitas vezes acompanhada de uma espécie de conformismo e de apatia, gerados por uma certa sensação de não poder lutar contra o sistema, pois por mais que tentemos não o vamos conseguir mudar.
As duas grandes guerras, com toda a barbárie a elas associadas, todos os atropelos contra os direitos humanos a que continuamente temos assistido, apesar de constantemente os elevarmos como bandeira de consenso e de luta por um mundo mais humanizado, os contínuos confrontos entre povos e vizinhos, a imensa quantidade de vidas humanas simplesmente ‘suprimidas’, ‘apagadas’, ‘ignoradas’ e ‘varridas da memória’ daqueles que vivemos nesta parte do mundo dito avançado e moderno já nos fizeram olhar para o século XX, que não há muito tempo deixámos para trás, como um século onde, apesar de todas as conquistas e avanços, o ser humano foi muitas vezes espezinhado e anulado. E a primeira década deste século e deste milénio também não trouxe notícias positivas neste sentido. Já vai longe a certeza e mesmo o sonho que nos levaram a pensar que era agora, com todas as possibilidades que as ciências e a técnica punham à nossa disposição, que íamos ultrapassar todas as nossas dificuldades e limitações, vivendo finalmente na medida daquilo por que ansiamos. A verdade é que não nos sentimos satisfeitos e há mesmo um certo mal-estar geral, que leva muitos a pôr em dúvida a possibilidade da esperança. Todos sabemos que as coisas não podem continuar assim; é necessário, é urgente, é mesmo indispensável mudar o rumo dos acontecimentos, mas muitas vozes se levantam, dizendo que não é possível fazer nada ou que, mesmo sendo possível, nada vai mudar. Apesar da atualidade da pergunta pelo sentido, estamos numa situação paradoxal, pois surge tentadora a hipótese do sem sentido9.

2. A promessa e a esperança do ‘sentido’ e da ‘salvação’

É precisamente numa situação como esta que se ergue com toda a sua força de significado e interpelação a proclamação ‘não temas’.
Mas, como é possível não temer se a cada passo vamos tendo a consciência de que cada um por si, e fundamentado nas suas forças, não é capaz de dar uma resposta cabal aos desafios que enfrenta? “E se sozinhos não somos, já vimos, também, como em conjunto as coisas não se mostram mais fáceis. Parece, pois, inevitável dar razão àqueles que reduzem o horizonte da sua existência ao ‘simples fruir’ do momento presente, não esperando nada para além disso; ou aos outros que assumem uma atitude de pessimismo que acaba por conduzir à própria negação da procura pelo sentido, ou, ainda, àqueles outros que propõem uma atitude de rebeldia que, questionando todos os sistemas, eleva o ser humano como sendo o último e absoluto critério e fim de tudo”10.
E, no entanto, aqueles que se assumem e querem viver como crentes intuem que nenhuma destas respostas acaba por encontrar verdadeiro eco no coração do ser humano, no qual late fundo o desejo de realização da sua existência. Assim, apesar de intuírem que o alcançar essa meta não depende apenas das suas forças, aceitam o desafio que a interpelação ‘não temas’ lhes faz. E ao fazer isso, não assumem uma postura irrealista, mas fundamentam-se na promessa que lhes é feita. Sabem que Deus os ama, sabem que Deus tem uma proposta e que tudo fará para a concretizar. Não podem temer, porque escutaram a promessa da salvação. E, porque confiam nesse Senhor, sabem que a esperança é possível.
Agir motivados pelo medo, pelo desespero, ou pelo perigo do sem sentido, seja perante qualquer circunstância ou mesmo perante Deus, é sempre muito perigoso. O medo paralisa e dificulta seriamente o viver. Daí que o ‘não temas’ faça todo o sentido. Contudo, é bom ter presente que “o imperativo evangélico ‘não temais’ não pode ser visto apenas como convite à superação voluntarista do medo, um contributo a uma qualquer terapia psicológica. O apelo, quase transformado em ordem, ‘não temais’ apresenta um alcance eminentemente teológico: é Deus que o diz (pela boca dos seus anjos ou de Jesus) para afiançar que está connosco – aliás ‘até ao fim dos tempos’ (Mt 28,20)”11.
Esta promessa, a partir da qual o ‘não temas’ adquire sentido e se torna possível a esperança, é experimentada por cada crente como um dom do Deus em quem confia. Mais do que uma conquista, ou de algo a que tem direito por mérito próprio, o cristão sabe que essa promessa se deve principalmente à própria vontade e iniciativa de Deus. Ele pode e deve procurar, pode e deve agir, pode e deve intervir, mas no fim acaba por experimentar-se encontrado, acaba por descobrir que o seu agir é uma resposta a uma interpelação e que o seu intervir é consequência da relação que lhe é proposta e que aceita assumir.
Na realidade, o crente sabe que não é tudo, que não pode tudo, que não é a medida de todas as coisas. Sabe que não dispõe do próprio ato a partir do qual é. Ele não se deu o ser a si mesmo. No fundo, sente-se convidado a superar a dupla tentação de desesperar ou de pretender realizar-se por si mesmo, aceitando ser confiadamente a partir dessa promessa que lhe é feita.
Nesta atitude de confiança radical, cada cristão acaba por encontrar a sua última e suma possibilidade de realização, experimentar a sua salvação definitiva e descobrir um dos traços característicos da atitude crente12.

3. O encontro que gera confiança.

São várias as perspetivas a partir das quais a atitude crente pode ser abordada e refletida, não conseguindo nenhuma delas esgotar toda a sua riqueza. Consciente dessa mesma realidade, abordo aqui a atitude crente a partir da perspetiva do encontro, para a partir daí destacar a confiança como um dos traços característicos dessa mesma atitude. O encontro interpessoal é uma daquelas realidades humanas mais adequadas para simbolizar e refletir a originalíssima relação do ser humano com o Mistério de Deus. Se olharmos para a experiência religiosa, em todos os seus níveis, ações de culto, textos de oração, literatura mística, propostas de vida e de ação, podemos verificar que a experiência que subjaz a todas elas é uma experiência que pode ser pensada a partir do horizonte de compreensão e do marco de significação aberto pela relação interpessoal, ainda que tenhamos de ser conscientes de que a relação com Deus a excede de muitas maneiras e sentidos13.
E se a categoria do encontro é capaz de traduzir a experiência religiosa de um modo geral, também se revela muito pertinente para nos ajudar a entender o específico da experiência cristã de um modo particular.
A própria vida de Jesus Cristo pode ser mais bem entendida a partir da categoria do encontro, uma vez que toda a sua existência só tem sentido por referência explícita ao Pai. Ele é o Filho e aqui reside a sua identidade pessoal;identidade que brota do encontro. O Pai é o fundamento último de toda a sua existência que, por isso, só pode ter como dimensões fundamentais a fidelidade, a obediência e a confiança.
E a vida de Jesus Cristo constitui, também, uma experiência de encontro para aqueles que o seguem. Com efeito, os seus discípulos puderam perceber e experimentar que nele era o próprio Deus que agia e atuava no meio do povo, de tal modo que no encontro com ele podiam fazer a experiência do encontro com o próprio mistério de Deus.
Esta consciência, que num primeiro momento pouco mais era do que uma intuição, foi-se depois aprofundando, até chegar à proclamação clara e inequívoca de que Jesus Cristo é o Filho de Deus e Deus como o Pai.
Para os crentes, hoje, o encontro com Jesus Cristo realiza-se através do encontro com os outros crentes na comunhão eclesial. Com efeito, é o Espírito do Senhor Ressuscitado, que é o mesmo ontem hoje e amanhã, que continua a congregar os fiéis na Igreja, permitindo-lhes fazer a experiência de ser filhos no Filho. Os cristãos, congregados em Igreja pelo Senhor Jesus e guiados pelo seu Espírito, são o sinal real da presença do Ressuscitado que continua a tornar possível, hoje e sempre, o encontro salvador com Deus14. Em toda esta experiência de encontro é fácil perceber como a confiança desempenha um papel fundamental.
Também quando tentamos entender melhor a realidade da fé a categoria do encontro nos pode ser muito útil. De facto, todos sabemos como o acreditar pode ter vários níveis indo desde a simples formulação de uma opinião, que acaba por não nos comprometer de uma maneira vital, até à mais profunda convicção, a partir da qual estamos dispostos a jogar o próprio sentido da vida15. Quando, por exemplo, dizemos creio nele – e é a este nível que devemos refletir a fé cristã – essa afirmação é sustentada a partir da confiança gerada numa experiência de encontro. O importante é o outro a quem eu me dirijo e que se dirige a mim. Esse outro é alguém que conquistou a minha confiança. A partir da relação que este encontro gera pode surgir a amizade e o amor. Então, esse outro, que é alguém que me ama e que eu amo, é simultaneamente, e por isso mesmo, alguém em quem eu confio e que confia em mim.
Por isso, eu já não só acredito no que o outro me diz por causa da força das palavras que me são ditas, mas, pelo contrário, as suas palavras têm ainda mais força, porque me são ditas por alguém em quem eu confio. A verdadeira experiência de encontro remete-me sempre para uma relação que não pode ser reduzida a um mero intercâmbio entre o ‘eu’ e o ‘tu’. “O encontro realiza-se a partir do solo comum de um ‘nós’, no qual o ‘eu’ e o ‘tu’ se descobrem participando”16.
Deste modo, a experiência do encontro acaba por ser descrita como uma verdadeira experiência de amor, na qual aqueles que se amam se descentram de si mesmos, para se centrarem no amado. É a este nível da relação que a confiança surge com toda a sua expressividade. Confio naquele que amo e que me ama, pois sei que ele quer para mim o melhor e fará por mim tudo o que estiver ao seu alcance, inclusive o dom da vida. Só a este nível de confiança é verdadeiramente possível o acreditar no outro e estar seguro do que ele nos diz e promete.

4. A confiança: traço característico da atitude crente

Depois de vermos em que contexto pode verdadeiramente surgir a atitude da confiança, vejamos agora algumas das suas características e a partir delas façamos um exercício de pensar a experiência cristã.
Uma primeira nota, que gostaria de destacar, é que a confiança de que falamos não se centra essencialmente em nós, mas naquele em quem depositamos a nossa confiança. O cristão sabe que pode confiar, não porque está seguro de que com as suas forças será capaz de ultrapassar as dificuldades e alcançar a meta pretendida, mas porque sabe que as forças daquele em quem confia jamais faltarão. A segurança e a certeza não residem em si, mas naquele em quem confia.
A confiança que o crente deposita em Deus, em quem acredita, revela-nos como a experiência cristã é essencialmente uma experiência de amor. Quando aceita e ousa realizar o encontro com Deus, o crente descobre-se amado e querido de uma maneira tal, que só pode responder com uma atitude de total confiança, própria daqueles que respondem ao amor com o amor. Na nossa vida sabemos bem como é o amor que nos leva a confiar, tal como sabemos que sempre que a confiança é abalada é o próprio amor que é atingido.
Aquele que é amado experimenta que o outro que o ama tudo fará para a sua felicidade e realização. No fundo, sabe que o outro fará o melhor por ele, tantas vezes até mais do que o melhor que ele próprio faria por si.
Ao descobrir-se amado por Deus, o cristão sabe que novos horizontes se lhe abrem. Agora a meta já não está dependente da sua capacidade de querer e da sua força para a alcançar. Pode ousar mais, porque descobre, à luz da relação de amor que vive, que é possível ir mais longe do que aquilo que inicialmente poderia parecer. E sabe que é capaz de mais, porque não tem só que fundamentar-se nas suas forças.
Fundamentado nesta relação, o crente tem a certeza de que a promessa que foi feita será cumprida. Também aqui esta certeza não se fundamenta nos seus conhecimentos, pois muitas vezes ele não sabe verdadeiramente como é que as coisas vão suceder, nem na sua capacidade de reflexão, pois a realidade muitas vezes surpreende-o de maneiras claramente imprevistas. Não! As suas certezas não são desta ordem. Uma vez mais, elas fundamentam-se na confiança. O cristão tem a certeza de que a promessa se cumprirá, não porque domina os ‘comos e os porquês’ da realidade e do futuro, mas porque conhece aquele em quem confia e sabe que ele será fiel. Por isso não teme.
É exatamente porque as certezas cristãs não são o resultado de ‘conhecimentos objetivos’, nem se constituem como ‘seguranças automáticas’ ou‘receitas práticas’, que não podem ser compreendidas fora da experiência da vida. Só quem se atreve a confiar, como os crentes confiam, pode perceber em que consistem essas certezas e como elas podem ser fundamento de vida.
Ao sublinhar que a confiança se fundamenta essencialmente naquele em quem se confia, pode surgir a ideia errada de que ao cristão nada mais é pedido a não ser confiar e que, portanto, a sua atitude acaba por ser essencialmente passiva; nada mais errado do que isto. E com isso não quero cair no erro oposto de reduzir o cristianismo a um voluntarismo ativo que correria o risco de testemunhar alguma falta de confiança em Deus.
Se olharmos bem para o itinerário que até agora fizemos julgo que será fácil perceber como a atitude de confiança exige muito mais do que a passividade. É verdade que o centro não está no crente, nem nas suas forças e conhecimentos, mas a confiança só é possível no âmbito da relação, por isso o crente tem de ser profundamente ativo a este nível. Ninguém pode realizar a experiência de encontro por ele e só ele pode responder ao amor com que é amado. Bastava este sublinhado para percebermos como a passividade não é possível na atitude de confiança que o crente é chamado a ter.
Mas podemos e devemos ir ainda mais longe. A confiança acaba por levar o crente ao compromisso com a promessa que lhe foi feita. Assim, porque confia na concretização dessa mesma promessa, porque não teme, então pode e deve fazer tudo o que está ao seu alcance para que essa promessa seja verdadeiramente uma realidade. É que o crente sabe que, por não agir sozinho e simplesmente com as suas forças, a sua ação não corre o risco de ser em vão. A confiança impele-o, então, a uma ação clara e inequívoca.
É nesta mesma linha que também pode ser entendida a afirmação de Jesus “Vós sois o sal da terra...” (cf. Mc 9,50; Lc 14,34; cf. também Mt 5,13-14). Para desempenhar o papel que lhe toca é fácil de perceber que o sal se deve misturar aos alimentos e dissolver-se neles. O mesmo tem de acontecer com a fé, que constitui a vida dos cristãos: incarna-se nas tarefas onde pode parecer que se dissolve:
“Assim se explica a necessidade de situar, no cerne de toda a vida crente momentos que impeçam o sal de se tornar insípido e regenerem o fermento [...]. As formas são variadas de acordo com a variedade das culturas, os ritmos e as idades da vida; mas devem permitir que o crente dê à fé uma respiração profunda, já que, de outra maneira, a vida corria o risco de perder o seu sopro”17.
Este compromisso não pode, de modo algum, ficar confinado ao nível individual, aliás como tudo o que tem que ver com o cristianismo. Ele tem também de ser um compromisso com a história humana e com todos aqueles com quem nos é dado viver a aventura da existência. A confiança que o crente deposita em Deus não só o impele a testemunhar essa atitude como, também, a agir de modo a que a promessa possa chegar a todos aqueles a quem Deus a dirige, o mesmo é dizer a toda a humanidade.
Ao falar da esperança o papa Bento XVI afirma algo que pode claramente ajudar-nos a entender como a confiança em Deus nos deve comprometer com os outros:
 “O facto de estarmos em comunhão com Jesus Cristo envolve-nos no seu ser «para todos», fazendo disso o nosso modo de ser. Ele compromete-nos a ser para os outros, mas só na comunhão com ele é que se torna possível sermos verdadeiramente para os outros, para a comunidade [...]: o amor de Deus revela-se na responsabilidade pelo outro”18.
A confiança como nota característica da atitude crente é também o testemunho que podemos encontrar em Jesus Cristo. Ao longo de toda a sua existência a confiança no Pai é uma característica distintiva do seu viver. Isso revela-se, igualmente, e de um modo particular, em todos aqueles momentos densos da proximidade da morte. Mais do que o seu conhecimento, mais do que as suas forças, aquilo que verdadeiramente nos interpela é a sua total confiança no Pai. Jesus confiou até ao fim, até ao limite e à razoabilidade do confiar, mas não foi nada passivo, pois viveu cada momento não só para si, como para todos. A essa confiança total responde o Pai em fidelidade e, por isso, o ressuscita de entre os mortos. É a confiança de Jesus que torna possível a nossa confiança e nos impele, como diz o Santo Padre, a envolver-nos no “seu modo de ser para todos”, fazendo disso “o nosso modo de ser”.
A dimensão da eclesialidade é uma realidade sempre presente em todo este itinerário. A presença do ressuscitado com a sua força salvadora, sempre que dois ou três se reunirem em seu nome (cf. Mt 18,20), é também uma promessa feita pelo próprio. Porque confio com outros o meu confiar não fica reduzido à minha sensibilidade e à minha dimensão, podendo ser alargado a horizontes mais amplos, que me abrem a possibilidade de ver mais longe e de ver melhor e de agir confiadamente em consequência.
Face a esta atitude de confiança vivida pelos crentes, por vezes ouvem-se vozes que pretendem sublinhar como ela leva os cristãos a uma falta de liberdade. Segundo esses, os que acreditam confiadamente tornam-se escravos da vontade daquele em quem confiam, acabando por se anular a si próprios. Sinceramente, quem assim fala não me parece que tenha compreendido verdadeiramente em que consiste a atitude crente, se bem que tenha de concordar que alguns comportamentos quase que parecem dar crédito a essas afirmações.
A confiança a que me tenho vindo a referir brota, como vimos, de uma experiência de encontro e alimenta-se de uma relação de amor. Ora todos sabemos que no amor somos verdadeiramente livres. Ninguém pode ser obrigado amar. Podemos, de facto, ser obrigados a fazer muitas coisas que tenham contornos que possam ser lidos como gestos e atitudes de amor, mas no íntimo, naquele reduto onde verdadeiramente se joga a identidade e a liberdade, aí, ninguém nos pode obrigar a amar. A confiança cristã é, pois, consequência de um profundo ato de liberdade.
Por outro lado, se a confiança que temos em Deus brota do amor que ele nos tem, então é porque somos dignos e merecedores desse amor. E se assim é – e a nossa fé desse modo o confirma –, então é porque valemos mesmo muito. Nesse sentido, a atitude de confiança em Deus não nos pode nunca anular, pelo contrário, ela sublinha bem a dignidade da nossa condição humana.

5. O sim confiante de Maria. A modo de conclusão

“Não temas Maria” (cf. Lc 1,30). Foi com estas palavras que o Anjo se dirigiu a Maria no momento da anunciação. Aquilo que ele vinha anunciar-lhe da parte de Deus jamais poderia ter sido imaginado e muito menos pensado ou desejado por Maria. E por isso interroga “e como é isso possível?” (cf. Lc 1,34). Todos conhecemos a resposta que o Anjo deu e todos somos capazes de intuir como essa resposta certamente não tirou todas as suas dúvidas.
E, no entanto, a resposta não se fez esperar: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (cf. Lc 1,38). O sim de Maria não se fundamentou nos seus conhecimentos nem nas suas forças. Aquilo que lhe estava a ser pedido em tudo excedia aqueles e ultrapassava estas. Mas, porque confiava naquele que através do Anjo se lhe dirigia, disse sim. Tudo mudou então. Não que as coisas tenham ficado totalmente entendidas e as dificuldades tenham sido totalmente afastadas, mas agora a sua vida estava ancorada naquele promessa e ela confiava em quem lha tinha feito.
Fundamentada nessa confiança, Maria não ficou fechada em casa guardando só para si o segredo. Pelo contrário, sabemos, pelos textos do Evangelho de Lucas (cf. Lc 1,39), que Maria se pôs a caminho. Claro que este caminho se refere em primeira mão ao percurso que teve de realizar para chegar a casa de Isabel, a quem quis ajudar. Mas certamente não erramos se interpretarmos esse caminho num sentido mais vasto. A partir do seu sim confiante Maria ‘pôs-se a caminho’ fazendo tudo o que estava ao seu alcance para facilitar a concretização da promessa de Deus.
O caminho é também uma das realidades presente na experiência de todos os peregrinos, apresentando-se sempre com um duplo sentido. Primeiro, aquele que nos leva em direção ao Santuário, onde queremos lembrar e fortalecer a experiência de encontro (que está presente desde o início, pois é essa experiência que nos leva a caminhar); segundo, aquele que nos leva de regresso para o meio da vida, para aí fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que se concretize o projeto de Deus para a humanidade (e não simplesmente para si).
A imagem da maternidade de Maria pode também ajudar-nos a entender como a atitude confiante acaba por contribuir para a antecipação daquela realidade em que confiadamente se espera. Como todas as grávidas, Maria certamente começou a viver cada momento presente já a partir desse nascimento futuro. O seu filho ainda não tinha nascido, mas era já ele que marcava o presente dos seus dias.
Também a cada um de nós crentes é pedido que vivamos de acordo com aquilo e aquele em quem acreditamos. Não podemos, pois, ficar parados e passivos, esperando que a promessa feita a cada um de nós e à humanidade por inteiro se venha a concretizar um dia. Temos de agir de modo a que esse futuro prometido possa, já hoje, no presente, ser
começado a viver.
A experiência cristã nunca foi fácil. Não o é hoje e não o será amanhã. Temos consciência de que as dificuldades não são nem serão poucas, conhecemos as nossas fragilidades e infidelidades, mas sabemos que Deus nos ama e nos acompanha. A partir daqui não tememos e ousamos agir, porque sabemos, tal como Maria, em quem colocámos a nossa confiança.

NOTAS
1 As linhas que se seguem pretendem desenvolver uma pequena reflexão acerca da confiança como traço característico da atitude crente. Apesar do título que as encabeça, e que se inspira como sabemos na passagem de 2Tim 1, não se trata de uma reflexão no âmbito da teologia bíblica.
2 Cf. Juan MARTÍN VELASCO, La experiencia cristiana de Dios, Editorial Trotta, Madrid 19973,41.
3 Juan ALFARO, De la cuestión del hombre a la cuestión de Dios (Verdad e Imagen 103), Sígueme, Salamanca 19892,14.
4 Cf. a este propósito Juan MARTÍNVELASCO, El hombre y la religión, PPC, Madrid 2002, 146.
5Ibidem, 147.
6 Esta é a opinião claramente defendida por Juan ALFARO. Cf.De la cuestión del hombre…, 13-14.
7 Cf. Juan MARTÍN VELASCO, El hombre y la religión…, 146.
8 Apesar de falarmos em atualidade, temos a consciência de que esta pergunta tem acompanhado o ser humano ao longo da sua existência, podendo mesmo afirmar que a filosofia e a teologia sempre se têm preocupado em dar-lhe resposta. Cf. J.L. RUIZ DE LA PEÑA, El último sentido. Una introduccíon a la escatología, Marova, Madrid 1980, 16-19.
9Ibidem, 19.
10 Estas três possíveis respostas são refletidas por R. LATOURELLE, “Búsqueda y don de sentido”, em Diccionário de Teologia Fundamental, Ediciones Paulinas, Madrid 1992, 1356-1360. Aqui o autor acaba por questionar estas respostas por considerá-las insuficientes, avançando para uma quarta atitude na qual se reconhece a exigência da existência de um absoluto que não o ser humano.
11 José NUNES, “‘Não temais’ Apelo dos Evangelhos”, emCommunio 5 (2002),390. Ao longo deste texto o autor mostra como o apelo ‘não temais’ é como que um fio condutor presente em todo o Novo Testamento e, de um modo particular, nos Evangelhos.
12 Nesta linha de pensamento, veja-se a excelente reflexão desenvolvida por Juan MARTÍN VELASCO em La experiencia cristiana de Dios…, 37-45.
13 Cf. Juan MARTÍN VELASCO, El encuentro con Dios, Caparrós Editores, Madrid 1995, 8-9. Nesta obra o autor adota o símbolo do encontro como categoria central para a compreensão do fenómeno religioso.
14 Seja-me permitida aqui uma referência ao meu estudo: Juan AMBROSIO,Encontro com Cristo, plenitude do ser humano. Esboço de uma soteriologia à luz do pensamento de Olegario de Cardedal, Paulinas, Lisboa 2002, onde utilizo a categoria do encontro para refletir a experiência cristã.
15 Quanto a estes vários níveis, veja-se João DUQUE, HomoCredens. Para uma teologia da fé, Universidade Católica Editora, Lisboa 20042, 33-52; Hélder Fonseca MENDES, “A ousadia de acreditar”, emPastoral Catequética 17/18 (2010), 29-30.
16 Juan MARTÍN VELASCO, El encuentro con Dios…, 40.
17 AAVV, A aventura da fé. Introdução às grandes questões da vida da fé, Paulus, Lisboa 2012, 8.
18Cf. Salvos na Esperança, 28.

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