(pense com as mãos)
A Cáritas Portuguesa assinala até domingo a sua Semana
Nacional, dedicada ao tema "Fé Comprometida, Cidadania Ativa".
Na quinta-feira começa em várias cidades o peditório para a
instituição católica, que não quer «gerir a pobreza dos pobres mas libertar os
pobres da pobreza», segundo Eugénio Fonseca em declarações à Agência Ecclesia.
Sobre o sentido cristão da caridade, palavra de todos os
dias mas particularmente presente na Quaresma e na Semana Nacional da Cáritas,
recordamos um texto de Luciano Manicardi.
Luciano Manicardi
In A caridade dá que fazer, ed. Paulinas
Numa época em que o virtual se sobrepõe ao real, a ponto de
suplantá-lo e de fazer com que a distância da não-relação pareça levar a melhor
sobre a proximidade, também a caridade corre o risco de perder as suas
conotações próprias e irrenunciáveis, que fazem dela um elemento decisivo do
encontro e da relação com o outro.
Uma caridade à distância, sem encontro frente a frente, sem
compromisso pessoal, poderá continuar a chamar-se caridade? Uma caridade
reduzida a filantropia ou a beneficência poderá continuar a crer e a revelar o
encontro com Cristo no outro?
A tradição das obras de misericórdia encontra, hoje, uma
renovada atualidade, precisamente no fazer-se memória do essencial, e de um
essencial que corre o risco de se perder: ou seja, o facto de a caridade ser
encontro de rostos, discernimento concreto das necessidades do corpo e da alma,
história quotidiana, gesto e palavra, capacidade de relação, de escuta e de
atenção.
É atividade eminentemente espiritual, precisamente no seu
acontecer no corpo e graças ao corpo. É cuidado do outro e ação pelo outro e,
ao mesmo tempo, cuidado de si e ação e trabalho sobre si. Fazer o bem também é
fazer bem a si próprio. Fazer o bem contribui para o bem-estar da pessoa. Este
é um dos sentidos do refrão bíblico: «Faz isto e viverás» (cf. Lv 18,5; Dt 4,1;
5,29; 6,24; Lc 10,28; etc.).
Em suma, na obediência ao mandamento divino, à Tora,
encontrarás vida e felicidade, encontrar-te-ás a ti próprio. «Amarás o teu próximo
como a ti mesmo» (Lv 19,18; Mt 19,19), ou seja, amando o outro, amar-te-ás a ti
próprio e descobrirás que o teu verdadeiro «ti mesmo» é aquele que ousa amar.
Compreende-se assim a estreita ligação entre mandamento e
promessa contida na expressão «faz isto e viverás»: amando, pondo em prática os
gestos da caridade, tu serás finalmente quem és. Nesta perspetiva bíblica,
Palavra de Deus, princípio-realidade e rosto do outro contraem aliança e fazem
nascer a pessoa para a sua subjetividade, colocando-a em relação vital com o
Deus cuja palavra escuta, com a realidade à qual adere e com o outro que toma a
seu cargo.
No texto bíblico na base da tradição das obras de
misericórdia, a página de Mateus referente ao juízo universal (cf. Mt
25,31-46), Jesus afirma que há um «Reino preparado desde a criação do mundo»
(Mt 25,34) para aqueles que amam concretamente o irmão que vêem. A primeira
carta de João afirma que há uma mensagem que ressoou desde o princípio: «Que
nos amemos uns aos outros» (l Jo 3,11), mensagem à qual se fechou Caim, ao
matar o seu irmão (cf. l Jo 3,12).
Esta mensagem, portanto, muito antes de ter ressoado numa
profissão de fé ou numa igreja, ressoou desde a criação no coração de cada
homem. E o lugar onde, ainda hoje e sempre, ressoa esta mensagem é a humanidade
do homem criado à imagem de Deus, é o rosto do outro homem, rosto que é a única
visibilidade do Deus invisível: «Viste o teu irmão, viste o teu Deus». Essa
mensagem está inscrita no profundo do coração de cada um, no desejo de cada um.
E é precisamente pelo nosso desejo que podemos aprender a
fazer bem ao outro. Revela-o Jesus ao dizer-nos que façamos aos outros aquilo
que gostaríamos que nos fizessem a nós (cf. Mt 7,12). E o nosso desejo é ser
amados, vistos, alcançados e tocados na nossa necessidade, na nossa pobreza, em
suma, na nossa unicidade. Eis a paradoxal realização do desejo cristão: Exprimiu-a
bem Antão, pai dos monges: «Quem faz bem ao próximo, faz bem a si mesmo» e,
portanto, prossegue Antão, «quem aprende a amar-se a si mesmo, ama a todos».
Esta mensagem tão universal significa que, segundo a própria
Bíblia, até ao não-crente é possível uma ética, ainda mais, na perspectiva da
revelação cristã, e até uma ética teológica, porque, amando concretamente o
outro, chega-se, mesmo sem intenção, a imitar aquilo que o próprio Deus
realizou criando: dar de comer, dar de beber, vestir, ter paciência, perdoar,
consolar. E também uma ética cristológica porque, como diz Jesus, aquilo que se
tiver feito ao outro por ser outro, fez-se a Cristo mesmo sem se ter disso
conhecimento. E ainda uma ética escatológica, se é verdade que o juízo será
medido segundo a caridade concreta, e será uma surpresa inesperada e
desconcertante: «Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer,
ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou
nu e te vestimos?» (Mt 25,37-38).
A tradição das obras de misericórdia, particularmente cara
ao crente, remete, portanto, para uma práxis de humanidade que se sobrepõe aos
vários tipos de fé e de crença, e que pode unir cada homem, mesmo aqueles que
não se professam crentes. Ela pede ao homem que tome a seu cargo quem é
necessitado, que tome a sério o sofrimento do outro, e afirma que o homem é
homem se acredita na humanidade do outro, mesmo que esta esteja ferida ou
diminuída, e se ousa fazer ao outro aquilo que gostaria que lhe fizessem a si. O
outro, que está doente, na prisão, nu, faminto, sem casa, apela à consciência
do homem e pode devolvê-la àquele estado de solidariedade e de partilha que
liberta quem a põe em prática, ainda antes de quem dela beneficia.
Nestes tempos difíceis, recordar a tradição das obras de
misericórdia significa apreender a caridade como arte do encontro, como arte da
relação, como arte de viver, mas significa sobretudo novo impulso de
humanidade, para não permitir que o cinismo, a barbárie e a indiferença levem a
melhor.

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