(desenho de Beppe Giacobbe)
Romain Leick | DER
SPIEGEL HAMBURGO | 3 setembro 2012
Traduzido por Ana Cardoso Pires
André Glucksmann é um
filósofo e ensaísta francês. Nascido em 1937, começou por ser militante em
grupos maoístas, na sequência dos acontecimentos de maio de 1968.
Finanças degradadas, sociedades desestabilizadas, projeto
comunitário enfraquecido: o mal-estar que afeta a UE há vários anos é
multifacetado. Agora que, no regresso das férias, decisões importantes esperam
os dirigentes e os cidadãos europeus, "Der Spiegel" perguntou ao
intelectual francês que hipóteses têm de encontrar novo elã.
André Glucksmann, à
luz das experiências intelectuais e existenciais que teve no século XX, como
pensador antitotalitário, está preocupado com o futuro da Europa?
Nunca acreditei que os perigos fossem todos evitados após o
fim do fascismo e do comunismo. A história não chegou a um impasse. A Europa
não fez um interregno, quando a Cortina de Ferro desapareceu, ainda que por vezes
parecesse querer fazê-lo. As democracias tendem a ignorar ou esquecer as
dimensões trágicas da história. Nesse sentido, diria que sim, a situação atual
é extremamente inquietante.
Desde o início, há 60
anos, a Comunidade Europeia tem andado quase sempre a tropeçar de crise em
crise. As recaídas fazem parte do seu funcionamento normal.
A era moderna europeia é caracterizada por um sentimento de
crise. Daí, pode tirar-se a conclusão geral de que a Europa não é realmente um
estado ou uma comunidade, no sentido nacional, que cresce em conjunto
organicamente. Também não pode ser comparada com as antigas cidades-Estado
gregas, que, apesar das diferenças e rivalidades, formavam uma única unidade
cultural.
Os países europeus
também estão vinculados por aspetos culturais partilhados. Existe algo a que se
possa chamar espírito europeu?
As nações europeias não são iguais e é por isso que não
podem ser misturadas. O que as une não é uma comunidade, mas um modelo de
sociedade. Há uma civilização europeia e uma forma ocidental de pensar.
Quais as suas
características?
Dos gregos – de Sócrates a Platão e a Aristóteles –, a
filosofia ocidental herdou dois princípios fundamentais: o homem não é a medida
de todas as coisas; e não é imune ao fracasso e ao mal. No entanto, é
responsável por si mesmo e por tudo o que faz ou evita fazer. A aventura da
Humanidade é uma criação humana ininterrupta. Deus não participa nela.
Falibilidade e
liberdade. Mas esses aspetos fundamentais da história intelectual europeia
bastam para criar uma união política permanente?
A Europa nunca foi uma entidade nacional, nem mesmo na Idade
Média cristã. A cristandade permaneceu sempre dividida – a romana, a grega e
depois a protestante. Um Estado federal europeu ou uma confederação europeia é um
objetivo distante, congelado na abstração do termo. Considero que persegui-lo é
um objetivo errado.
Estará a União
Europeia a correr atrás de uma utopia, tanto em termos políticos como
históricos?
Os fundadores da UE gostavam de invocar o mito carolíngio, e
até deram a um prémio da UE o nome de Carlos Magno. Mas, na verdade, os netos
dele acabaram por dividir o império. A Europa é uma unidade na divisão ou uma
divisão na unidade. Porém, independentemente da maneira como se encare, não é,
claramente, uma comunidade em termos de religião, língua ou moral.
E no entanto,
subsiste. O que o leva isso a concluir?
A crise da União Europeia é um sintoma da sua civilização.
Não se define com base numa identidade própria, mas na sua alteridade. A
civilização não é necessariamente baseada num desejo comum de alcançar o
melhor, mas antes na exclusão do mal e em torná-lo tabu. Em termos históricos,
a União Europeia é uma reação defensiva ao horror.
Uma entidade definida
negativamente, que surgiu da experiência de duas guerras mundiais?
Na Idade Média, os fiéis rezavam e cantavam nas suas
ladainhas: "Senhor, protege-nos da fome, da peste e da guerra." O que
significa que a comunidade não existe para o bem, mas contra o mal.
Nos dias de hoje,
muitas pessoas enunciam a frase “nova guerra nunca mais”, como razão de ser
para a Europa. Este fundamento ainda se mantém, agora que o espectro da guerra
na Europa se dissipou?
A guerra dos Balcãs, na ex-Jugoslávia, e as ações homicidas
incendiárias dos russos no Cáucaso não ocorreram assim há tanto tempo. A União
Europeia reuniu-se para se opor a três males: a memória de Hitler, o Holocausto,
o nacionalismo extremo e o racismo; o comunismo soviético durante a Guerra
Fria; e, por último, o colonialismo, que alguns países da comunidade europeia
tiveram de abandonar de forma dolorosa. Estes três males deram origem a um
entendimento comum de democracia, um tema civilizador central da Europa.
O que falta, hoje em
dia, é um desafio novo e unificador?
Não seria difícil de encontrar, se a Europa não agisse de
forma tão imprudente. No início da década de 1950, o núcleo da união foi a
criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), a primeira aliança
económica supranacional na área da indústria pesada; a Lorena e a região do
Ruhr; a CECA como um meio de evitar a guerra. Como todos sabem, o equivalente
seria hoje uma união energética europeia. Em vez disso, a Alemanha decidiu
embarcar sozinha numa transição para uma nova energia, ignorando a dimensão
europeia. Cada um negoceia individualmente petróleo e gás com a Rússia; a
Alemanha assinou um acordo para a construção do gasoduto do Mar Báltico, apesar
da resistência da Polónia e da Ucrânia; e a Itália está envolvida no gasoduto
South Stream, que atravessa o Mar Negro.
“A Europa também sofre com o fracasso dos
intelectuais”
A Europa atravessa uma crise de confiança e tem de enfrentar
um novo questionamento dos seus pilares democráticos. Face a estes desafios, o
intelectual francês considera que é preciso reforçar a solidariedade no seio da
UE e construir uma comunidade mais ofensiva face aos desafios externos.
André Glucksmann, a
UE não perdeu o seu encanto. Ninguém se propõe voluntariamente deixar a Zona
Euro.
Sócrates disse que ninguém faz asneira por vontade.
Interpreto isso desta forma: os disparates acontecem quando a vontade
enfraquece. Não me parece que procurar soluções e caminhos na atual crise
financeira seja uma tarefa sobre-humana. Aliás, os dirigentes da UE vão-nos
encontrando aqui e ali.
E vão encontrando o
seu caminho de uma cimeira de Bruxelas até à seguinte e a intervalos cada vez
mais curtos. Mas as soluções que se esperavam não surgem.
O que falta é uma perspetiva global. O porquê da União
Europeia, a sua razão de ser, perdeu-se. Haverá sempre maneiras de melhorar as
instituições da UE e de as adequar às necessidades da situação. Podemos contar
com a capacidade dos políticos e advogados para fazerem isso. O desafio surge a
um nível diferente e é claramente uma questão de sobrevivência: se as antigas
nações da Europa não se unirem e apresentarem uma frente unificada, perecerão.
Mas os dirigentes
europeus não reconheceram isso?
Se o fizeram, porque agem com tão pouca unidade? A questão
do tamanho tornou-se uma necessidade absoluta, na globalização. Angela Merkel
sente indubitavelmente que o destino da Alemanha também vai ser decidido na
envolvente europeia. Foi por isso que, depois de alguma hesitação, optou pela
solidariedade, embora com moderação. No entanto, está igualmente a permitir que
Alemanha, França, Itália e Espanha sejam divididas pela crise. Se os nossos
países forem divididos por pressão das forças de mercado, perecerão,
individualmente e em conjunto.
Quer dizer que a
ideia de um destino comunitário europeu ainda não ganhou realmente força?
Na prática, não. A globalização acarreta um caos global e já
não existe uma força policial global – papel que os Estados Unidos
desempenharam durante muito tempo. Os intervenientes podem não querer guerras,
mas não têm grande opinião uns dos outros. Cada um faz o seu jogo individual.
Nesta confusão anárquica, a Europa tem de afirmar-se e enfrentar as ameaças na
ofensiva. A Rússia de Putin, que quer reconquistar parte do território que
perdeu, é uma ameaça. A China, um Estado esclavagista burocrático, é uma
ameaça. O islamismo militante é uma ameaça. A Europa tem de aprender a pensar
de novo em termos de hostilidade. (O filósofo alemão) Jürgen Habermas, por
exemplo, não percebe isto, quando diz que o cosmopolitismo bem-intencionado
pode unir todos numa cidadania global.
Para muitas áreas do
mundo, a Europa é um farol de liberdade e de direitos humanos.
Mas os ideais e os valores não se combinam para criar
perspetivas. As nações europeias podem seguramente gozar de um atraente
pluralismo de valores, mas não basta apresentá-los como se fossem parte de um
catálogo. Em vez disso, é importante enfrentar juntos os desafios. A Europa
arrasta-se num estado persistente de hesitação, o que pode por vezes
transformar-se em hipocrisia. Há duas maneiras de evitar desafios: uma é
desviar o olhar e fingir que não existem. A outra é o fatalismo, ou seja,
encolher os ombros e fingir que, de qualquer maneira, não há nada que se possa
fazer. O grande historiador universal Arnold J. Toynbee avaliou o
desenvolvimento de culturas com base na sua capacidade de reagir adequadamente
aos desafios. A Europa pretende encarar o seu destino? Não há razão para
duvidar..
Será isso resultado
de falta de liderança?
É mais do que isso. É também uma questão de debilidade dos
intelectuais, indiferença da opinião pública e isolacionismo. Olhe para as
eleições na Europa. Qual o papel da política externa e da posição da Europa no
mundo? Há alguns anos, a UE atribuiu-se um alto representante para os Negócios
Estrangeiros e a Segurança, Catherine Ashton, com um organismo separado, que
emprega milhares de funcionários públicos. Onde anda ela, o que está a fazer e
quem dá por ela? O século XXI vai ser um século de grandes continentes, que ou
se vão dar bem uns com os outros ou não. Se a Europa não entrar nessa dimensão,
vai recuar para o século XIX. Então, a nossa atividade política só se poderá
basear em memórias distantes: Europa, o continente da angústia e da nostalgia.
Como pode o fluxo de
energia intelectual ser revitalizado? Pensadores alemães e franceses andaram
muito tempo num estado de fascínio mútuo, que durou praticamente desde a
Revolução Francesa até ao movimento estudantil de 1968.
Era uma curiosidade resultante da rivalidade e da
competição. Observámo-nos atentamente uns aos outros e ficámos a conhecer-nos
muito bem. A distância intelectual cresceu consideravelmente nas últimas
décadas. Sempre houve diferenças no modo de pensar. Hegel descrevia a Paris do
Iluminismo como um exemplo do "reino animal intelectual" da
autoexpressão. Os franceses argumentaram e soltaram impropérios; gostavam de
diferenças e de polémicas. Os seus debates eram um pouco aparentados com o
jornalismo e o espetáculo, mas já não tanto com o rigor académico.
Os alemães trabalhavam grandes sistemas explicativos,
buscando nos limites do conhecimento um substituto para a falta de unidade
política e religiosa. Hoje, uma depressão intelectual abate-se sobre ambos os
países. A intelectualidade como classe social deixou de existir em França, e
falta coerência de ambos os lados (da fronteira franco-alemã). Perdeu-se no
pós-modernismo..
Então aqueles que
desejam furtar-se aos grandes desafios já não precisam de grandes conversas, é?
Pelo menos é isso que é postulado no que Lyotard encara como
o fim dos sistemas e ideologias. Mas o pós-modernismo, supostamente
não-ideológico, é em si uma ideologia. Vejo-o como a personificação do
movimento dos indignados – indignação como protesto moral, que é um fim em si
mesmo. A forma é o conteúdo. Isso lembra-me Oskar Matzerath de O tambor de lata
de Günter Grass: eu vejo, eu toco tambor e o mundo intolerável desmorona-se.
Uma crença infantil?
A Europa ainda é um parque de diversões de ideias. Mas o
pensamento está tão fragmentado, tão oprimido por escrúpulos, que escapa ao
verdadeiro teste. Neste sentido, é uma imagem refletida no espelho da política.

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