P. Vítor Gonçalves
in VOZ DA VERDADE 10.02.2013
“Faz-te ao largo
e lançai as redes para a pesca.”
Lc 5, 4
Gostava de saber um pouco mais sobre os ritmos da pesca e do
mar para entender melhor o evangelho de hoje. Mas, mesmo sem ser especialista,
vejo que há duas pescas que os primeiros apóstolos fazem. A primeira, como
habitualmente, de noite, redes lançadas com esperança, e tanto trabalho para
nada: regressaram de redes vazias. A segunda, em pleno dia, a convite de Jesus,
talvez com a sensação de um trabalho inútil, e a surpresa: as redes encheram-se
de peixe em abundância. Parece que quem percebe mesmo de pesca é Jesus!
Certamente São Lucas nos fala de pescas diferentes. E de
modos diferentes de fazer aquilo que se torna uma rotina, da qual julgamos
conhecer todos os segredos. E a grande diferença é a presença e a palavra de
Jesus. Aquele que ensina a multidão (desta vez não lhe pedem milagres!), tem
palavras que iluminam, e enchem de esperança e sentido os que O escutam. São
palavras que interpelam, que convidam a uma mudança, mas também
responsabilizam. Produzem o encontro com Jesus e este transforma a vida na
realidade feliz e comprometida que Deus deseja para nós. E este será o segredo
da nova pesca que Jesus nos propõe fazer. Será que encontramos aqui um apelo a
rever o nosso existir de cristãos e de igreja?
Com gestos repetidos ou estratégias inovadoras procuramos ir
realizando a pesca que Jesus nos confiou.
“Pescar”, nas
palavras de Jesus, significa “salvar, libertar”.
Mergulhados no mar da injustiça, do mal e da morte, não
conseguimos respirar nem viver verdadeiramente. No passado talvez tenhamos
exagerado a ânsia de “cristianizar” o mundo e “converter” multidões,
independentemente da liberdade de cada pessoa, dominando com o medo do inferno
ou o poder sobre as consciências, mas hoje sentimos a dificuldade de transmitir
a fé aos mais novos e de oferecer o encontro feliz com Cristo. Não sei se
andamos na noite como aqueles pescadores a lançar redes que nada trazem. Jesus
propõe o mesmo gesto mas com uma nova estratégia: de dia, na claridade e
transparência da vida, e “à sua palavra”. É o encontro com Jesus que muda tudo,
é o seu evangelho que traz vida às pessoas. E que Jesus encontra quem nos vai conhecendo
ou “bate à porta” da Igreja? E se é necessário “bater à porta” não será,
talvez, porque, tantas vezes, ela está fechada?
“Pescar” pode induzir em erro a vida e a acção dos
discípulos de Cristo. Pode criar expectativas de multidões passivas, ou de
clubes de perfeitos. A substancial diferença não será a vida transformada e
feliz no encontro com Jesus, que tudo incendeia com o fogo do seu amor, e faz
reconhecer em cada outro, um próximo, um irmão? Talvez assim “pesquemos”
alguém!

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