Jejuns




Por » Rui Santiago, cssr

Perguntei a um discípulo de João Baptista porque fazia jejum, e ele respondeu-me que precisamos de fazer penitência para preparar a vinda do Senhor Deus, o Rei que vem para compor o mundo e a justiça. O jejum como Penitência dos companheiros de João Baptista era admirado até pelos fariseus, mas para eles o jejum era outra coisa...

Uma vez estive com um e perguntei-lhe porque fazia jejum. Ele disse-me que o fazia para oferecer a Deus. O jejum como Culto, assim o entendiam estes devotos fariseus, uns com mais verdade que outros. Soube até de um deles que, indo ao santuário rezar à mesma hora que um pecador público, se chegou lá à frente, de pé, empinado, e rezou em alta voz: “Eis-me aqui, ó Deus do Universo, para te oferecer as minhas maravilhas... até faço duas vezes jejum por semana! Não sou como aquele pecador ali atrás, gente de má raça, que só gostam é de boa vida e barriga cheia...” O jejum como Culto, como mérito a oferecer a Deus, foi coisa que não me convenceu desde o princípio.

Então, apareceu Jesus, que levantava muitas perguntas aos discípulos de  João Baptista e escandalizava vezes sem conta os pios fariseus. Jesus anunciava o Reino de Deus já chegado, começado, e a Hora da Festa, do Perdão, da Reconciliação que conduz as pessoas umas às outras, junta vidas à volta da Mesa onde se partilham os bens e os pães. “Este é um comilão e um beberrão”, diziam... “Mas porque é que os discípulos de João fazem jejum e os discípulos dos fariseus fazem jejum e os teus discípulos não jejuam?!”, perguntaram-lhe uma vez... E o Mestre respondeu que não se jejua na Hora de uma Aliança, não se faz jejum numa Festa de Casamento, em que os Amigos e Companheiros do Noivo têm que alegrar-se. “Um dia – disse-lhes ele – um dia vão arrancar-lhes o Noivo, e então, nesse dia, sim que perderão a vontade de comer, nesse dias hão-de jejuar”...

Jesus não fala do jejum como penitência, como os de João; Jesus não fala do jejum como Culto a oferecer a Deus, como os fariseus; Jesus fala do jejum como tristeza, como perda, ausência... Um jejum não escolhido mas imposto, sentido, naquelas horas da vida que nos ficam atravessadas na garganta e não deixam nada passar.

O Evangelho fala-nos mais de Mesas do que de abstinências, leva-nos mais vezes a comer do que a rezar, ensina-nos a organizar banquetes de irmandade e, em relação ao jejum, diz apenas que, se o fizermos, não o consideremos mérito ou valor a mostrar diante de ninguém.

Um homem grande dos primeiros tempos, o Paulo das Comunidades, chegou uma vez a esta simplicidade: “Porque o Reino de Deus não é uma questão de comida nem de bebida; mas de Paz, Justiça e Alegria no Espírito Santo!” (Rom 14, 17)

Depois continuei a andar por aí, tempo afora, e fui encontrando outros jejuns além destes três: o jejum como Penitência, o jejum como Culto e o jejum da Tristeza. Ouvi alguém falar do jejum como Autodomínio, como exercício de temperança, de força de vontade sobre os sentidos corporais, como vitória da força da alma sobre as fraquezas do corpo...

Outros houve, entretanto, que escutei com mais gratidão, quando me falaram de um jejum com outro sentido, não auto-centrado, um jejum que não deixa intacta a despensa: o jejum como Solidariedade. Estes entendiam o jejum como compaixão, como comunhão de vida com os últimos do mundo, com os pobres, e faziam do jejum uma maneira prática de partilhar, de partir o pão e repartir a vida por aqueles que precisam de mão aberta e braço estendido, como a bíblia tantas vezes nos conta que Deus fez...

Ainda encontrei quem me contasse as maravilhas de um jejum novo, um jejum como Mística, como ascese ou exercício espiritual, para crescer na consciência de que nem só de pão vive o homem, que há fomes mais profundas e radicais dentro de nós que nenhum alimento de boca pode preencher nem nenhum dinheiro no bolso pode saciar, apenas uma Palavra alimentícia, uma Palavra substancial, um Segredo saboroso...

E, de repente, percebi que quando se diz a palavra “jejum” não é claro do que é que se está a falar, porque há muitas maneiras de o fazer, muitos motivos, muitos olhares.

Já passou o tempo dos discípulos de João, os últimos representantes da Antiga Aliança, e o seu jejum de Penitência. O jejum dos fariseus, como Culto oferecido a Deus, não me convence desde o primeiro dia, porque me fala de um Deus de rosto desfigurado... O jejum da tristeza de que Jesus fala em relação aos seus amigos também já foi ultrapassado, porque a Força da Páscoa continua activa no nosso meio. O jejum como Autodomínio é engraçado, mas também os atletas de competição o fazem, ou quem faz um tratamento de cura de alguma dependência, ou quem procure melhorar a linha... não é um assunto do Reino de Deus. Já o jejum da Solidariedade, da partilha do que temos e somos e não do que nos sobra, da partilha da Mesa e não apenas da Despensa, esse o achei bonito desde a primeira vez que o vi acontecer. Lembrou-me um tal milagre dos pães divididos e multiplicados onde, quem se dispôs a jejuar para a partilha do seu farnel, comeu fartamente e ainda sobraram doze cestas. E a mística do jejum também me lembrou coisas bonitas, o jejum como exercício de atenção a outras fomes mais fundas e a outros alimentos mais altos.

Mas o que de verdade verdadinha não me sai da cabeça é aquela de Paulo: “O Reino de Deus não é questão de comida ou bebida mas Paz, Justiça e Alegria no Espírito Santo”.

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