D. António Marto
Bispo de LEIRIA-FÁTIMA
Catequese para a celebração comunitária da
profissão de fé do Povo de Deus
Apresentação e sugestões pedagógicas
Esta
proposta concretiza a promessa que fiz na nota pastoral “O tesouro da fé, dom
para todos”, em que recomendei a realização de uma “celebração comunitária da
profissão de fé (o Credo) do Povo de Deus, ao modo da antiga «traditio symboli»
dos catecúmenos na Quaresma, com uma catequese própria elaborada pelo Bispo: «Creio,
mas aumenta a minha fé».” No mesmo documento afirmo: “Não basta recitar o
Credo; é preciso compreendê-lo em profundidade. Rezamos ou cantamos o Credo
porque é uma proclamação da fé em Deus-Amor, um ato de louvor, um reconhecimento
de ação de graças” (n. 5.1).
Sem
prejuízo do sentido pastoral e da criatividade dos sacerdotes e dos líderes e
animadores de comunidades, grupos e movimentos, poderá usar-se esta catequese
num dos modos seguintes:
Nas
paróquias:
1) como
uma catequese para os colaboradores paroquiais, terminando com a profissão de
fé simples, recitando o Credo;
2) como
uma catequese também para os colaboradores paroquiais, feita durante a
Quaresma, para preparar a profissão solene da fé na celebração da vigília pascal;
3) como
uma catequese feita numa só vez, ou repetida para vários grupos ou comunidades,
na preparação para a festa do padroeiro da comunidade paroquial (ou do
padroeiro de cada uma das comunidades da paróquia); noutro dia dessa
preparação, realiza-se uma celebração solene da profissão de fé integrada na
Eucaristia, ou noutro tipo de celebração mais oportuna.
Esta
catequese pode também ser usada em encontros de diferentes grupos paroquiais,
embora seja de preferir a dimensão paroquial mais ampla, para acentuar a
experiência da comunhão eclesial sobre a base da mesma fé.
Nas
comunidades religiosas, grupos e movimentos apostólicos:
1) como
uma catequese num dos encontros habituais, terminando com uma profissão de fé
simples, ou com uma celebração na qual se faz solene profissão de fé;
2) durante
um retiro, incluir a catequese e depois fazer uma solene profissão de fé
durante uma celebração.
Em
família:
Reservar
um dia em que toda a família se reúna, leem e partilham entre os membros o
conteúdo da catequese e terminam com uma profissão de fé simples, recitando o
Credo.
1. O Credo, uma bela profissão de
fé
S. Paulo,
na primeira carta a Timóteo, diz-nos que “Jesus Cristo, diante de Pilatos, deu
testemunho numa bela profissão de fé” (1 Tim 6, 13). A Igreja expressou esta
bela profissão de fé, mais tarde, no Credo ou Símbolo dos Apóstolos, que é uma
síntese da fé cristã transmitida pelos apóstolos.
Uma das
propostas para o Ano da Fé é uma celebração comunitária da profissão de fé do
Povo de Deus, particularmente cuidada, à maneira da “entrega do símbolo ou
Credo” aos catecúmenos que se preparam para o Batismo, com uma catequese
apropriada.
Não
basta recitar o Credo; é preciso compreendê-lo na riqueza e beleza do seu
conteúdo de fé. Ele não é um mero catálogo de verdades abstratas, nem muito
menos um código ético. É, antes, a galeria das maravilhas da salvação de Deus
em favor da humanidade. Somos convidados a rezá-lo ou cantá-lo, porque é
uma proclamação de Deus-Amor e um ato de fé, de louvor e de ação de graças
pelas suas maravilhas. Quem poria em música ou cantaria um catálogo de verdades
abstratas?
A
catequese que oferecemos é de tipo mistagógico. Tal como o Credo, não pretende
demonstrar nada, dar razões, ou responder a objeções. É apenas um convite:
“Vinde descobrir o tesouro da nossa fé”. Trata-se, tão só, de ajudar a
descobrir, meditar e saborear a beleza e o fascínio da fé cristã e a alegria de
crer.
“Na
vossa presença, Senhor,
nós
vos rezamos e imploramos a vossa bondade: dai-nos a graça
de
meditar em nosso coração o que os lábios professam.”
(Oração
de Vésperas de terça-feira IV)
2. Creio em Deus, Pai
todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra
A primeira
maravilha de Deus aos homens a ser contemplada é o dom da criação. Por isso, começamos
por confessar a fé em Deus Pai, fonte de toda a vida e de todo o amor, do qual
procede tudo o que existe. Nas fontes da existência do mundo, da vida e do
homem, está o mistério de amor d’Aquele que se revelou como Pai de Jesus Cristo
e Pai nosso. Só o Amor, que nos chama à existência, nos pode dar a certeza
de que a vida, cada vida, tem sentido, tal como acontece a uma criança
nascida do amor dos pais. Não andamos no mundo por acaso, ou ao acaso, nem
estamos sós. Cada um de nós é pensado, querido e amado por Deus!
A fé em
Deus Pai Criador convida-nos, pois, a tomar consciência das nossas origens como
criaturas, isto é, da nossa pertença
confiante a Deus como Aquele “pelo qual existimos, nos movemos e somos”, e da
nossa dignidade ímpar como seres criados à imagem e semelhança de Deus.
Crer em
Deus Criador convida-nos ainda a ver o mundo como um dom de Deus e, ao mesmo
tempo, como uma missão nossa de sermos colaboradores de Deus. A criação é como uma semente cheia de energia maravilhosa confiada por
Deus ao homem para a cultivar. Recebemo-la, pois, como um grande dom que nos é
dado para estimar e desenvolver, a fim de que seja “casa comum” de todos os
homens, onde todos possam habitar, viver, conviver e trabalhar como irmãos, na
paz e na justiça.
“Ó
Senhor, nosso Deus, como é admirável o vosso nome em toda a terra!” (Sl 8, 2)
3. Creio em Jesus Cristo, seu único
Filho, nosso Senhor
A segunda
parte do Credo centra-se na maravilha das maravilhas de Deus em favor dos
homens. Deus comunica-Se, não só criando-nos e
dando-nos uma terra e uma história, mas comunicando-Se a Si mesmo no seu Filho,
feito homem: “creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor...”. Quem
ama quer estar onde está a pessoa amada. O amor de Deus é tão forte que quer
habitar plenamente no meio de nós, estar a nosso lado, comunicar coração a
coração, fazendo-Se um de nós: é o mistério da Encarnação do Filho eterno de
Deus. Na realização deste desígnio, Maria de Nazaré colaborou com o poder
do Espírito Santo, oferecendo o seu coração e o seu seio: “nasceu da Virgem
Maria”. Maria é, assim, mãe de Jesus e nossa mãe na fé.
Os
evangelhos apresentam-nos Jesus em toda a riqueza da sua humanidade. Homem de
carne e sangue, de coração e de espírito, aprendeu a caminhar os passos dos
homens, conheceu as nossas alegrias e as nossa lágrimas, a fome, a tentação, o
sofrimento e a morte. Com o seu testemunho, a sua Palavra e as suas ações,
Jesus mostra-nos o rosto de Deus, próximo de nós e compassivo, e dá-nos a
conhecer o seu nome: “Filipe, quem Me vê, vê o Pai”.
A sua paixão
e morte foi o maior ato e sinal do amor com que entregou a sua vida «por nós
homens e para nossa salvação”. E com a sua ressurreição “destruiu o poder da
morte e restaurou a vida”. Abriu no mundo o caminho do Amor redentor mais
poderoso do que o pecado, o caminho da vida mais forte do que a morte.
Só após a
ressurreição e as aparições de Jesus ressuscitado, é que os discípulos
compreenderam e reconheceram plenamente o mistério da pessoa de Jesus:
“Verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus”; “Meu Senhor e meu Deus!”. A
ressurreição é a confirmação da verdade de Jesus.
Por isso,
nós reconhecemo-Lo como Salvador e Senhor, “Deus de Deus, Luz da Luz”,
verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Confessamos que Jesus Cristo não é apenas
um homem santo, um profeta, um mestre e modelo, mas que é o Deus-Amor e o Amor
de Deus em pessoa, que renova e salva a nossa vida. Unidos a Ele, temos acesso à vida de Deus, ao coração do Pai, ao mistério
do seu amor, ao dom do seu Espírito e da vida nova na amizade com Ele.
“Vivo
a vida presente na fé no Filho de Deus,
que
me amou e Se entregou por mim.” (Gal
2, 20)
4. Creio no Espírito Santo
Após a
ressurreição, Jesus, embora subtraído a nossos olhos, não é um ausente
longínquo e inacessível. Envia o Espírito Santo para continuar a sua obra de
salvação.
Pelo dom
do Espírito Santo, Deus vem habitar em nós, derrama o seu amor nos nossos
corações (Rom 5, 5). Assim recebemos a união mais
íntima com Ele, participamos da sua vida, somos verdadeiramente filhos e filhas
de Deus. Quando Deus nos dá o seu Espírito, dá-Se a Si mesmo.
O Espírito
Santo é também a “alma” da vida da Igreja. É
Ele que a mantém unida intimamente a Cristo, a santifica e renova através da
Palavra, dos sacramentos, da oração, da comunhão fraterna, dos dons e
ministérios. Por isso, no Credo também reconhecemos a Igreja como realidade da
fé: ela é obra de Deus, mistério da comunhão de Deus com os homens e dos homens
entre si.
Por fim, o
dom do Espírito é motivo da nossa confiança e da nossa esperança. É a certeza de que Deus está sempre connosco, quer na vida, quer na morte.
Assim, confiamos e esperamos que a obra da salvação em nós começada, Deus a
levará a feliz termo na ressurreição para a vida eterna – o reino da vida, do
amor e da alegria sem fim, sem reservas e sem fronteiras, na comunhão plena com
Deus, numa nova forma de existência gloriosa para além da morte.
“Vinde,
Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
e
acendei neles o fogo do vosso amor!”
5. Creio na Santíssima Trindade, comunhão
perfeita de vida e amor
Em Jesus Cristo, Deus abriu-nos o mistério da sua intimidade. Manifesta-Se
na História da Salvação tal como é, e é tal como Se manifesta: Pai, Filho e
Espírito Santo. E, contudo,
não há três deuses, mas um só Deus em três pessoas distintas, numa comunhão
perfeita de vida, amor e comunicação. É, na verdade, um mistério que nos
transcende. Muitas vezes, fixamo-nos na dificuldade exterior de o compreender
racionalmente. Mas, às vezes, o coração entende melhor do que a razão. De
facto, este é o segredo da vida íntima de Deus. No seu mistério mais íntimo, Deus
não é uma solidão, mas uma família, uma comunhão. A Santíssima Trindade é a
melhor e mais perfeita comunidade.
Enche-nos
com a sua presença e o seu amor, para nós vivermos também, à sua imagem e semelhança,
na doação mútua, na comunhão fraterna, no diálogo recíproco, na solidariedade,
na confiança na bondade da vida e na esperança da vida plena, gloriosa e
definitiva. “A Trindade de Deus é o mistério da sua beleza. Negá-la é ter um
Deus sem esplendor, sem alegria, um Deus sem beleza” (Karl Barth).
“Glória
ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo...”
6. “Senhor, eu creio! Ajuda a minha
pouca fé!”
Num mundo
pluralista, marcado pela cultura da indiferença religiosa ou da descrença,
parece que assistimos a um certo “eclipse de Deus”. Os cristãos são chamados a
viver a fé e a sua identidade em permanente luta interna, em confronto com
opções totalmente contrárias e, por vezes, em ambiente de adversidade. Precisam
de reconquistar dia após dia a graça e a alegria de crer, cultivando e velando
pela sua fé e orando cada dia como o pai do jovem epilético curado por Jesus:
“Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!” (Mc 9, 24).
“Ó
Senhor, pelo mistério da tua morte e ressurreição, com o fogo do Espírito
Santo, acende em mim a graça de uma fé grande como a dos nossos pais na fé,
desde Abraão a Maria, até aos santos e testemunhas humildes de hoje.
Acende
em nós a mesma fé, para que possamos responder hoje à graça do teu mistério de
amor. Ajuda-nos a crescer na fé vivida como experiência de um Amor recebido e
comunicada como experiência de graça, beleza e alegria que transforma os nossos
corações, a nossa vida e o nosso mundo.”
“Esta é a
nossa fé, esta é a fé da Igreja, que nós nos gloriamos de professar em Jesus
Cristo, nosso Senhor!”
Leiria, 6
de fevereiro de 2013, memória dos mártires S. Paulo Miki e Companheiros
† António
Marto, Bispo de Leiria-Fátima
Credo dos Apóstolos
Creio em Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do Céu e da Terra;
e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso
Senhor,
que foi concebido pelo poder
do Espírito Santo;
nasceu da Virgem Maria;
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado;
desceu à mansão dos mortos;
ressuscitou ao terceiro dia;
subiu aos Céus;
está sentado à direita de Deus Pai
todo-poderoso, de onde há de vir
a julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo;
na santa Igreja Católica;
na comunhão dos Santos;
na remissão dos pecados;
na ressurreição da carne;
na vida eterna.
Ámen.

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